Novo humorístico da Globo é um alento para a TV

Novo humorístico da Globo é um alento para a TV

Cristina Padiglione

11 de abril de 2014 | 12h23

        Rap de Jesus Cristo, paródia da Galinha Pintadinha com referência a macumba, sátira de Doutor House como médico do SUS (e para quem todo mal é diagnosticado como “virose”), imitação de Silvio Santos, genérico de Marcelo Rezende e Datena: a estreia do novo humorístico da Globo, Tá no Ar: A TV na TV, não deixa dúvidas de que a Globo finalmente se libertou das amarras impostas durante os últimos 20 anos por militâncias religiosas, políticas e corporativas de toda espécie.

Melhor que isso, a Globo de fato se mostra disposta na prática, e não apenas no discurso, a “arriscar”.
O fator de risco era o que faltava para avançar. Faz tempo que a fórmula “mais do mesmo” afeta a criatividade de modo geral.
Mas, no momento em que um Porta dos Fundos usa e abusa da acidez na internet, atraindo milhões de acessos, que bom, é hora de repensar essa obediência quase medíocre aos padrões politicamente corretos.

Rir de si mesmo é a melhor receita de humor e lá está, de novo, a Globo rindo de si, sem se machucar.
Um sujeito de vocabulário acadêmico, sotaque nordestino, aparece entre uma esquete e outra para criticar a própria Globo. Faz o papel das militâncias que háo de se manifestar, senão agora, ao longo de um dos nove programas que compõem essa primeira safra da série.
Ao final dessa primeira edição, entrou no ar uma espécie de fala-povo produzido, claro, criticando o próprio programa. Uma mulher diz que “aquele Marcelo Adnet era bem melhor na MTV”, crítica que o humorista tem ouvido desde que chegou à Globo, há um ano. Outra “telespectadora”, com discurso de evangélica, acha bom que o programa tenha mexido com o candomblé, e não com a sua religião.

O rap de Jesus foi genial. Letra, coreografia, melodia, tudo no lugar.

Para os tempos atuais, o Tá No Ar é francamente revolucionário.

Houve uma preliminar para se chegar a esse estágio, vá lá, mas com piadas bem menos ácidas, com aquela 2ª temporada do Junto & Misturado, com Bruno Mazzeo e sob a mesma direção de Maurício Farias, que agora assina o novo programa.
Mas, com Tá No Ar, repleto de paródias de comerciais e de apostas malsucedidas da própria Globo (como Ricardo Macchi e seu Cigano Igor), a Globo finalmente volta a pisar em terreno fértil na área da criatividade, e não mais em ovos, com responsabilidade – coisa que, convenhamos, às vezes faltava no velho e bom TV Pirata.

Que venham outras temporadas.

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