Nova série da Globo promete. E entrega

Nova série da Globo promete. E entrega

Cristina Padiglione

07 Janeiro 2014 | 03h13

Sim, Cauã Reymond está tudo aquilo que seu personagem acha que está. Está podendo. E já vejo espectadoras entusiasmadas por ele, ator, nas redes sociais, após serem apresentadas ao somelier Leandro, protagonista da nova série da Globo, “Amores Roubados”.
Epa, epa, devo alertá-las: não se enganem. O personagem é bem mais interessante que o cidadão. Não vai aí demérito algum, ao contrário. Cauã não é tudo aquilo. É, sim, um senhor ator, apoiado num texto e numa direção que fogem do lugar comum. As tietes que me perdoem, mas beleza por si só, nesse caso, não põe mesa, o que Cauã faz com maestria.

Há diálogos que remetem a clichês, O.k., e eles transbordam justamente nas cenas de sexo. É o moço bonito que confessa à mulher casada ter prazer pelo perigo. Ou que menciona o cheiro da fêmea, num arroubo de instinto animal, fator que o seduz.

Já o empregado que tenta resistir a um pedido de carona da filha do patrão, primeira cena entre Leandro e Antonia (personagem de Ísis Valverde), esse, sim, promove uma sequência de frases e ações capazes de surpreender o telespectador. Ele acaba cedendo, e o roteiro, amém, dispensa texto mastigado, um insuportável vício televisivo que tem predominado na tela, sempre à espera de que o público pratique arremesso de sorvetes na própria testa.

“Põe o cinto”: isso é tudo para a deixa de que ele atenderá à menina mimada. Quando você já respira aliviado, na certeza de que Leandro tenha algum juízo e haverá de cumprir a vontade da patroa, nã-nã-ni: ele a abandona no meio da estrada, deserto sertanejo de road movie, e a primeira câmera a flagrar o desespero dela está posicionada às costas do abusado motorista. Nada de planinhos chapados ou closes manjados.

Bons ângulos, bom texto, sequências dignas de colocar o telespectador em patamar verossímil, onde a cena não parece cenografia, onde a ficção tem pinta de vida real, com um ou outro ângulos de cinema. Salve José Luiz Villamarim, que assina direção-geral. Salve a fotografia de Walter Carvalho. Salve o texto de George de Moura. E salve uma edição que não se ocupa nem se preocupa em clipar um primeiro capítulo, sufocando pausas essenciais, só para tentar fisgar a audiência de cara. Vem daí o mérito de realidade. Mesmo porque um sertão, por mais moderno que seja, não comportaria cortes abruptos.

E a narrativa já agarra o espectador de imediato, naquela que deverá ser a sequência de desfecho da série: uma perseguição de carro, onde o nosso belo rapaz é a presa, em meio à poeira da estrada. Corta. E somos levados a “quatro meses antes” para começar a conhecer o roteiro que motivará aquela caça.

Li no Twitter, ainda não tenho a informação confirmada, que o Ibope respondeu com 30 pontos de média em São Paulo, o que vem a ser um excelente patamar para os padrões atuais. Só aí haveria mais de 1,8 milhão de residências contemplando esses “amores roubados”, com fogos de artifício para Dira Paes, digna dos afagos do rapaz, Osmar Prado e Cássia Kis, todos irrepreensíveis.

Não viu? Tem que ver. Vale a pena.