No Arpoador, com Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga: a Babilônia das 9

No Arpoador, com Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga: a Babilônia das 9

Cristina Padiglione

24 de fevereiro de 2015 | 06h46

Gilberto Braga assiste ao pôr-do-sol no Arpoador diretamente de sua janela, e a luz aqui abaixo se reflete nas costas do autor. Era quase fim de tarde de um sábado, quando chegamos.

Fotos:Mauro Pimentel/EstadãoAUTORES/BABILONIA

Foi bem ali, no escritório onde essa moldura se impõe, que ele nos recebeu para uma conversa sobre sua próxima novela, Babilônia, criada e escrita em parceria com Ricardo Linhares, com quem já dividiu a autoria de Insensato Coração, e João Ximenes Braga, que foi seu colaborador naquela ocasião e agora também participa dos créditos como autor.

AUTORES/BABILONIA

O trio me concedeu uma ótima entrevista, não por mérito meu, claro, mas da bagagem e capacidade de argumentação de cada um, com entrosamento que só profissionais de bem-traçadas linhas podem promover. Um resumo da boa prosa, com direito a  episódios de bastidores e mea culpa sobre erros do passado, sai nesta terça, no Caderno 2. http://migre.me/oKcrE

A seguir, permito-me contar um pouco mais sobre o memorável encontro.

Babilônia estreia dia 16, na vaga de Império, com Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg, casal gay da trama, Glória Pires, Cássio Gabus, Marcos Palmeira, Camila Pitanga, Adriana Esteves, Thiago Fragoso, Chay Suede, Luíza Arraes, Rosi Campos, Gabriel Braga Nunes, Maria Clara Gueiros, Bruno Gagliasso, Sophie Charlote, Lu Gimaldi e outros muito bons atores. A direção, só pra variar, é de Dennis Carvalho, que há décadas faz dueto com Gilberto Braga nos sets da TV Globo.

 

 

Eis o que cada um diz sobre:

MARCOS PALMEIRA, O POLÍTICO CORRUPTO

“O Marcos Palmeira é o político corrupto da novela. Como a nossa sinopse começou em 2013, não existia Lava Jato, não existia nada disso que está na ordem do dia, mas já estava na nossa sinopse: o prefeito corrupto, que é o Marcos Palmeira, vai ter um conluio com a dona da empreiteira corrupta, que é a Glória Pires. Então, essa podridão da Lava Jato já estava na nossa sinopse antes de isso virar um escândalo nacional. Aqui, a gente tá de novo botando a mão no fogo, é um tema espinhoso, mas é muito importante que a gente aborde. Ela é corrupta, sim, e ele é corrupto, sim, e os dois se unem pra roubar.
Ela tá falida e dá o golpe no milionário, que é dono de uma grande empreiteira. E ele tava doido pra se aposentar, ele passa a curtir a vida, e ela assume a presidência da empreiteira, que é uma empreiteira de grande porte, importante, mas que não faz parte do universo dessas três que leiloaram o Brasil. O sonho dela é botar a Souza Rangel nesse nível, ela quer ser o poder atrás do poder. E o Marcos Palmeira, que é um político muito ambicioso, quer sair de Jatobá. Ele tem grandes chances porque foi radialista, ele é muito popular, ele quer ser governador do Rio, e do Rio, quer se tornar presidente do Brasil. E ela gruda nele porque ela quer ir pro planalto junto com ele.”
RICARDO LINHARES

LÉSBICAS, DESDE VALE TUDO
“O casal das lésbicas era muito importante e era bastante explícito (em Vale Tudo). Foi uma história que a gente queria contar, baseada num fato real, que foi a morte do Jorge Guinle Filho e a briga da mãe dele com o Marco Aurélio (Cardoso Rodrigues) pela herança, a pequena herança que o Jorge deixou. Era disso que a gente queria falar em Vale Tudo. Eu já li muita bobagem, inventaram que a Censura mandou matar uma das lésbicas, não tinha nada disso, era previsto na sinopse que no meio da novela uma delas ia morrer pra discutir justamente isso.”
GILBERTO BRAGA

RACISMO E PRECONCEITO
“No caso do (Miguel) Falabella (e as acusações sobre Sexo e as Negas), os atores negros todos se uniram pra apoiá-lo, só que as manifestações de racismo ganharam um destaque maior que o apoio que ele teve. E por causa disso, dezenas de atores muito bons perderam uma oportunidade de trabalho (*), por causa de uma grita errada, preconceituosa, de movimento negro. Mas, às vezes, quem ataca não estás interessado, só quer atacar. As redes sociais são só uma porta aberta para o rancor das pessoas.”
RICARDO LINHARES
(*) Por causa das queixas de que ‘Sexo e as Negas’ reforçava estereótipos da mulher negra, a direção da Globo nem cogitou a produção de uma segunda temporada do título. 

“Eu já fiz de tudo, dada a minha idade. Em Celebridade, por exemplo, eu quis experimentar os negros chiques do Leblon, então tinha o Sérgio Menezes, um fotógrafo bem sucedido e ninguém dizia, na novela, que ele era negro. Sérgio Marques, que escrevia essas cenas, diz que tinha muita dificuldade em certas cenas de briga para não fazer o Fábio Assunção dizer ‘seu negro fdp’, porque tínhamos combinado de nunca usar a palavra negro na novela. No final, eu recebi uma carta muito tocante de um conhecido meu, que tinha sido casado com Zezé Motta e tinha uma filhinha de 8 anos e me escreveu a carta, mandando o retrato da filha, dizendo que tinha sido muito bom, para as crianças negras, ver o negro bem sucedido na televisão.
Por causa de Pátria Minha, da perseguição que eu sofri, fui acusado de racismo e podia ser preso, o Milton Gonçalves, uma pessoa que eu respeito muito, falou pra alguém, amigo meu, e chegou aos meus ouvidos, que o Milton achava que a melhor maneira de lutar contra racismo era mostrar os negros bem sucedidos. Aquilo ficou na minha cabeça e na novela seguinte eu resolvei aproveitar. Pensei: ‘vou fazer o que o Milton sugeriu porque ele conhece esse assunto melhor que eu’. Deve dar certo. E deu.
Agora tem o caso da Sheron Menezzes (que será advogada formada em faculdade onde ingressou pelo sistema de cotas, a ser abordado na trama).”
GILBERTO

SÉRIES
“Eu não faço parte desse grupo, eu tô mais revendo filme antigo”.
GILBERTO (sobre a maratona de séries americanas que assola a TV).
“Ah, eu gosto de In Treatment, que é o Sessão de Terapia da HBO. Eu não gostei do Sessão de Terapia brasileiro, mas adoro o outro e adoro um gay, Queer as Folk, (Os Assumidos), e adoro – é meu lado mulherzinha – Sex and The City. Também vi quatro temporadas de Dowton Abbey, mas agora espero terminar a quinta pra ver tudo junto.”
GILBERTO
“Tem muita porcaria também, não é só porque é série da HBO que é boa”
LINHARES

HOUSE OF CARDS & BABILÔNIA
“Não é inspiração, não, porque a gente não precisa de inspiração pra isso, mas claro que faz parte do mesmo universo, eu assisti às duas temporadas (de House of Cards)”
LINHARES (sobre a corrupção no poder público, da Casa Branca de’House of Cards’ ao Palácio do Planalto nosso de cada dia)

BabilôniaCLAIRE

“A nossa personagem foi criada antes, mas a Beatriz é um pouco parecida com a personagem de Robin Wright, a Claire.”
JOÃO XIMENES BRAGA
“Mas ela não é tão fria. Beatriz é passional, a Claire é muito contida, mas todo aquele universo de jogadas e manipulações, é claro que tem um paralelo enorme, mas é apenas um paralelo, não existe inspiração, até porque a novela vai por outros caminhos completamente diferentes.”
LINHARES

VILÃS E ‘MOCINHA’
“Acho que uma diferença agora é que o Gilberto sempre tende a criar vilãs muito racionais e estrategistas. Mas tanto a Beatriz quanto a Inês já precisam mais de um tarja preta. Elas não são tão racionais”
JOÃO
“Tem uma coisa almodovariana nisso, elas são exacerbadas. A Carminha era nada racional. É totalmente diferente, vai existir muita comparação com a Carminha e é bom que isso fique bem claro. A Carminha era vitoriosa, ela se impunha aos outros, e aqui é justamente o contrário. A Inês não tem auto-estima nenhuma, ela é assexuada, frígida, a Inês tem inveja dos outros, a Carminha era motivo de inveja, aqui é o contrário. A Inês tem uma inveja enorme do sucesso e do dinheiro da Beatriz.
Ela é recalcada, não tem comparação entre a Carminha e a Inês, uma é pra dentro e outra é pra fora. E mesmo a vilã que a Glória está fazendo, ela nunca fez uma ninfomaníaca, uma tarada. A Beatriz é tarada, ela é capaz de entrar numa loja, pegar um cara e transar com ele no trocador. Ela gosta do risco. Ela transa com o motorista, o Val Perré, que é amante dela, no Morro da Urca. Ele é o pai da Camila Pitanga. Ela transa com ele quase que no meio da festa do marido, acho que tem uma pegada almodovariana. A própria personagem da Camila, que é a mocinha, embora eu não goste desses rótulos de mocinha e de vilã, que eu acho isso muito sedutor, ela é esquentada, ela é barraqueira, ela não é boazinha, não no sentido de ter bom caráter, mas não é boazinha, ela é capaz de aprontar e defender o que ela quer.
Essas três são a base da novela. A história delas se entrelaça a partir de um crime. A Beatriz mata o pai da Regina e dá um jeito de incriminar a Inês, que era a única testemunha do crime. A partir desse momento, a vida delas está entrelaçada. Tem um prólogo de dez anos que dura só o primeiro capítulo. O segundo já é contemporâneo.”
LINHARES

 

RITMO: SÉRIES X NOVELA
“A gente acelera mesmo, faz uma média de 50 cenas por capítulo, todas as cenas são curtas. Pouquíssimas cenas têm mais que uma página. Então, não só o ritmo dentro da cena é grande, como as histórias são resolvidas logo e novamente outras cenas são boladas.”
LINHARES
“Sentei recentemente pra ver Breaking Bad inteiro. É muito mais lento, é brilhante, os personagens são muito bem construídos, mas o ritmo é mais lento do que qualquer novela que eu já tenha assistido. O ritmo da direção é lentíssimo, o ritmo dos atores é lentíssimo. O que eu acho que é a grande diferença entre a série americana e a novela brasileira é o pacto com o espectador. O espectador vai pro seriado como ele vai pro cinema: ‘eu me comprometo em assistir a esse episódio’. A nossa cultura de ver novela é o cachorro latindo, o ferro de passar roupa, o jantar, telefone tocando e as pessoas brigando com a televisão”
JOÃO
“Bota Sessão de Terapia às 9 da noite na Rede Globo pra ver o que acontece. Mad Men é lentíssimo. Você senta pra assistir Mad Men, você não senta pra assistir a novela e você aceita buracos que você não aceita numa novela.”
LINHARES

 

VEROSSIMILHANÇA
“Não existe verossimilhança em nada, é o que o João falou: O espectador cobra uma verossimilhança que não existe na vida real, que não existe em nenhum seriado americano e não existe nem no cinema, mas, na novela, o público quer cobrar isso. Breaking Bad tem incongruências enormes, só que as pessoas aceitam.
Em qualquer seriado policial americano, alguém acessa um computador, consegue descobrir até a escola particular onde o vilão estudou na infância, sabe o número do sapato do vilão, em 20 segundos, vê a pegada, sabe quem matou, em três cenas prende o cara. Você bota isso numa novela, ninguém acredita, porque não existe. O público brasileiro gosta de reclamar.”
LINHARES
“Essa suposta era de ouro da televisão, com uma leva de produtos bons dos Estados Unidos e da Inglaterra, já acontece num momento em que as pessoas estão vendo as coisas sozinhas, baixadas ou gravadas. Novela, as pessoas veem em grupo, é o que vai dar assunto no dia seguinte.”
JOÃO

 

TRILHA SONORA
“Tô cuidando, tá bastante complicado porque as gravadoras estão cobrando uma fortuna pelos direitos, eles não têm mais de onde tirar dinheiro, porque não vende mais CD, mas a trilha nacional tá muito boa. A abertura é Pra que chorar, um samba, da Martn’ália. Tem Ilusão à Toa, do Johny Alf, que é o tema das lésbicas, é muito bonito, e tem uma versão que o Nelson Motta fez de Que reste t-il de nous amour e Maria Bethania canta.”
“Eu nunca gostei de encomendar música” (Mas e Anos Dourados?) “Ah, mas aí era Tom Jobim, né? Se tivesse Tom Jobim aqui, eu encomendaria. Tive isso só duas vezes música sob encomenda. Uma era essa e a outra foi Luíza, em Brilhante”
GILBERTO

 

TÍTULO DE NOVELA
“A gente vem de uma experiência muito ruim de título, porque a gente odeia Lado a Lado, que foi a estreia do João como autor solo e eu era supervisor. Lado a Lado era um título de trabalho, que foi usado também em Insensato Coração, era um arquivo que já estava ali e a gente usou pra trabalho, não era pra não ser usado no ar. E aí eles gostaram de Lado a Lado e puseram Lado a Lado. É uma porcaria. É um péssimo título, não tem motivo nenhum pra novela chamar Lado a Lado. E o João tinha uma ideia de um título muito bonito, que o Manoel Martins (ex-diretor de Entretenimento da Globo) não sei por quê, não aceitou, mas o Manoel Martins não entende nada de título. Era pra ser Alvorada. Eu tenho vergonha de falar Lado a Lado
GILBERTO
“Essa era pra ser Babilônia e ficou Babilônia. Não é por causa da favela Babilônia. Claro que tem uma referência, tem um link ali, mas não é uma novela sobre a favela da Babilônia. É uma novela que trata de três classes sociais: a Regina (Camila Pitanga) é da comunidade, a Inês (Adriana Esteves), que é classe média, é das ruas internas do Leme, e a Beatriz (Glória Pires), que é a rica, é da Av. Atlântica. A novela fala sobre as três. Falar que Babilônia é por causa do morro da Babilônia faz parecer que a novela é sobre a vida daquela comunidade, e não é isso.”
LINHARES
“Sabe que eu não tô gostando de ouvir ‘comunidade’? Porque tá me parecendo eufemismo. É favela.”
GILBERTO