Nair foi tudo de bom

Cristina Padiglione

17 Abril 2007 | 16h48

Ser ator de um papel só não é demérito algum quando ninguém o supera na performance daquele personagem. Inviável é pensar em Nair Bello para representar melancolia. Não lhe cabia. Fora de cena, sim, permitia-se, como todo ator cômico, um recato quase paradoxal ao rótulo da ficção. Perdeu um filho jovem, em acidente de carro e, há alguns anos, o marido, Irineu, a quem devia um respeito incomum entre seus pares no meio artístico. Nunca se permitiu beijar em cena, e que nenhum diretor lhe falasse em beijo cênico: ela não caía. Dizia que “o Irineu” não deixava. Mas um dia o Irineu se foi e Nair, apegada aos preceitos do espiritismo, manteve a proposta.

Nascida em São Paulo em 28 de abril de 1931, estreou como locutora e atriz na Rádio Excelsior, em 1949. Tinha 18 anos. A TV veio a seguir. Entrava nos intervalos, trajada de garota-propaganda, nos idos em que comercial era cena ao vivo. Demorou mais a pisar no palco, e esteve mesmo raras vezes no teatro, mas estreou sob a grife de Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, com “Alegro Desbum”, em 1976.

Na TV dos anos mais recentes, tornou-se um talismã do autor Carlos Lombardi, e estava mesmo escalada para a atual “Pé na Jaca”, às 7 da noite. Sua lista com Lombardi inclui “Kubanacan” (2003), “O Quinto dos Infernos” (2002), “Uga Uga” (2000), “Vira-Lata” (1996) e “Perigosas Peruas” (1992). Quando assumiu “Bang Bang”, de Mario Prata, Lombardi também mandou botar Nair em cena.
Esteve na “Torre de Babel” (1998) de Silvio de Abreu, na “Era uma Vez” (98) de Walter Negrão (atualmene em reprise no “Vale a Pena Ver de Novo”), “Malhação”(1995), “A Viagem” (1994) de Ivani Ribeiro, “O Mapa da Mina”(1993) de Cassiano Gabus Mendes e “Olhai os lírios do campo” (1980)– todas na Globo, sua contratante havia 16 anos e onde atuava também para o “Zorra Total”. No humorístico das noites de sábado, dava voz a Santinha, personagem que perdeu parte do encanto após a morte de seu partner, Rogério Cardoso, em julho de 2003, ali chamado como Epitáfio.

Na Bandeirantes, fez a novela “Maçã do Amor” (1983) e o seriado “Dona Santa” (9181). Ainda na TV Tupi, participou de “João Brasileiro, o Bom Baiano” (1978).
No cinema, esteve em “Fogo e Paixão” (1988), “Das Tripas Coração” (1982), “Tô na Tua, Ô Bicho” (1971), “Os Apavorados – Angelina” (1962), “Simão, o Caolho” (1952), e “Liana, a Pecadora” (1951).

Nair fumava até bem poucos anos atrás, e cultivava o hábito sem maiores dores de consciência. Brincava com a constatação de que o tabaco tornava sua voz cada vez mais grave. “Quando falo ao telefone pela manhã sempre me confundem com homem. É um tal de ‘sim, senhor’, ‘pois não, senhor'”, dizia.
À amiga Hebe Camargo, costumava pedir que não lhe acompanhasse em velórios, enterros, missas de sétimo dia e afins. A química entre as duas não freava aqueles ataques de riso nem em celebrações fúnebres. Ao contrário. A inconveniência de rir fazia coçar nelas a vontade de gargalhar, e melhor era não disfarçar.

De mais a mais, não é qualquer um que sabe aplicar à prática a tese de que “rir é sempre o melhor remédio”. E nisso, Nair Bello foi mestra.