Na Globo, meu mundo caiu. Na Record, a casa caiu, mano

Cristina Padiglione

06 de janeiro de 2009 | 02h51

A Record fez questão de contrariar a velha política de Silvio Santos, que sempre esperou (e faz questão de anunciar que espera) pelo fim do filé na Globo para botar o seu no ar.

Assim, a estreia do seriado “A Lei e o Crime” não aguardou pelo fim do capítulo de lançamento da minissérie “Maysa”, na Globo.

Pra quem zapeou de um canal para o outro, como eu, foi um choque _ por mais que o Copacabana Palace de Maysa esteja ali, tão próximo ao morro do superNando, que em um só capítulo chegou à favela, ganhou a confiança da comunidade e promoveu um massacre no pedaço, tornando-se o chefe local.

O seriado da Record vale ser visto, desde que a gente não se ponha a questionar a tal da verossimilhança do negócio, como bandido que, no meio do arrastão no túnel, resolve que vai traçar a vítima bonitinha. A estética do morro, esta sim, continua a ser mais realista do que similares na ficção da Globo _ até uma ambientação escura, item que pode afastar o telespectador do canal, o seriado ousa fazer. No mais, foram longos minutos de tiroteio, gente morrendo pra mais de funeral coletivo, moça fina que resolve virar delegada e afrontar a alta sociedade, enfim, alguns clichês de dar náusea, sim, mas, quer saber? A massa a-do-ra! Sustentado por Angelo Paes Leme e pelo agora mau-muito-mau Caio Junqueira, o elenco é bom, muito respeitável, e a direção, idem. Só não carece tamanha constância daquela musiquinha em bg, forçando a tensão de diálogos já suficientemente tensos.

No outro canal, “Maysa” confirma toda a boa expectativa criada em torno da série. Como achar um defeito na luz/foto de Affonso Beato? Larissa Maciel é a própria Maysa, a trilha sonora é o mundo que caiu e, como disse Lauro Lisboa Garcia na edição de ontem do Caderno 2, ali está uma voz que fazia até pedra chorar. O universo abordado é um prato cheio para a turma da direção de arte, que dá conta do recado e impressiona pela expressividade dos detalhes, sem ter de se render aos closes. São coisinhas-inhas a saltar aos olhos em planos escancarados, vide as cenas do quarto do Copa e do interior da casa dos Matarazzo. O texto se permite pincelar ocasiões de épocas muito distintas, sem ordem cronológica e sem que isso dê um perdido no telespectador mais incauto.

Da fossa glamourosa à tensão das granadas, houve menu para todo tipo de taquicardia. E cada um consome o entretenimento que lhe apraz.

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