Na boa? Na Moral foge do eufemismo, amém

Na boa? Na Moral foge do eufemismo, amém

Cristina Padiglione

06 Julho 2012 | 02h42

JOÃO COTTA/DIVULGAÇÃO

 

Bial entre o redator final e antigo parceiro, Marcel Souto Maior e o diretor, Luiz Gleiser

Eu tinha cá as minhas dúvidas de que o Bial cumpriria, na Globo, TV feita para a massa, a proposta de abordar uma quetão por pontos de vista variados. Tudo bem que isso tenha sido feito anos atrás, nos anos 60, pelo TV de Vanguarda, programa do Fernando Barbosa Lima, com plena coerência ao nome. Mas é que a TV, como diriam os Titãs, me deixou burra, muito burra demais nos últimos 30 anos. Parece que já não somos capazes de dizer ou de ouvir na TV o que ouvimos e vemos dos vizinhos, no estádio de futebol ou no táxi. Parece que o pudor de fachada dominou determinados ambientes, e fazemos daí aquela cara de paisagem de quem precisa agradar ao maior número de pessoas, sem tomar partido de A ou B.

Como diria Nelson, o Rodrigues, estou com minha cara no chão. O Bial já abriu o programa, sobre politicamente incorreto, perguntando se o certo seria falar “bicha”, “veado” ou “homossexual”? Ufa, alívio, ele vai escancarar o verbo. Vai dar aos bois os nomes que ele têm. Falamos em negro, afro-descendente, preto ou moreno? Cantamos “atirei o pau no gato” para matar o bichino de fato? Maria Paula supera as versões conhecidas para contar, lânguida como sempre, que conhece uma versão em que se diz “Me atirei no pau do gato”. Furor na plateia. Chocou? Muda de canal, mas o mundo lá fora não tem todo esse verniz que a gente tem procurado para revesitr a tal janela para o mundo que atribuem à televisão.

Melhor, sempre, preferir a transparência e discutir a relação, assim, se possível com algum humor e música.

Sim, o programa de estreia acusa enfim a existência de um bom programa na TV aberta. Estofado, com convidados capazes de divergir, embora Bial, nesse caso de primeira edição, especificamente, tenha tomado evidente partido contra o autor da cartilha politicamente incorreta. O.k., estou de acordo com essa posição, que boa parte do que lá está me arrepia, mas eu não sou a mediadora de um programa que se dispõe a ouvir todos os lados, sou telespectadora. A ele, Bial, resta alguma discrição na hora de mostrar opinião. Ou, vai ver, nem isso, é honesto que ele demonstre o que pensa.

E a grande diferença entre o Bial e a Fátima Bernardes, dois jornalistas criados sob as rédeas politicamente corretas (de acordo com o contexto de cada época) do telejornalismo do doutor Roberto é que ela esteve na bancada do JN nos últimos anos, e ele, no papel de showman do reality show mais visto do País. Faz toda a diferença. Sobra a ele a segurança de quem põe ponto de exclamação e interrogação incisiva no que diz. Falta a ela o tempero de quem foi treinada para não se envolver com a notícia. Bial já tem o pé no show que liberta todo jornalista, e para isso, amém, até que o BBB lhe prestou algum serviço.

Mas Fatiminha chega lá, quero crer.

Na Moral é bem costurado, bem editado, bem musicado, com cenário que prima pela simplicidade. Vida longa a discussões capazes de acrescentar algo ao conteúdo ou à reflexão da plateia.