Markun conta que foi surpreendido por mudança na TV Cultura

Cristina Padiglione

26 de abril de 2010 | 15h22

Presidente da Fundação Padre Anchieta até junho, quando vence seu mandato, Paulo Markun reuniu-se com os funcionários e colaboradores da TV Cultura para falar sobre sua saída do cargo. Deixa claro que foi surpreendido pela candidatura de João Sayad ao posto, conta que recusou oferta para presidir o Conselho da FPA, cadeira que terá de ser desocupada por Jorge da Cunha Lima na eleição a seguir, e enumera os feitos acumulados em sua gestão.
Abaixo, a íntegra da carta que norteou a conversa de Markun com o pessoal da casa.

Fato novo, transição tranquila

No início de 2010, o incentivo explícito de funcionários, de parte do Conselho Curador e do governador José Serra fizeram com que eu resolvesse encarar um novo mandato, desde que contasse com o indispensável consenso para o bom funcionamento da instituição. Preparei um plano de ação para os próximos três anos, mas durante semanas em que a mídia publicou as mais diversas especulações sobre as eleições, mantive-me calado, pois creio que cabe ao Conselho Curador deliberar sobre o assunto. O nosso estatuto determina que qualquer candidato precisa ter, antes de mais nada, o respaldo de pelo menos oito conselheiros eletivos. Em minha eleição fui indicado por 18 integrantes e obtive mais 20 votos, entre os quais o do representante dos funcionários.

Na última terça-feira, 19 de abril, deparei-me com um fato novo: a candidatura do secretário João Sayad ao cargo. Como fora ele quem me convidara para o posto, em nome do governador, respondi a meu interlocutor que nada tinha a opinar sobre a decisão inesperada. Recusei a oferta de tornar-me presidente do Conselho Curador e informei que retornaria com alegria ao universo profissional a que sempre pertenci.

Antes de seguir adiante, gostaria de agradecer – e muito – a todos os funcionários e colaboradores pela compreensão e pelo esforço, sem os quais não teríamos realizado qualquer avanço. Sou grato ainda a todo o Conselho Curador, de quem recebi o necessário respaldo nos momentos mais importantes. Estendo gratidão e cumprimentos ao governador José Serra, que me ofereceu algumas condições básicas – todas cumpridas – sem as quais não teria sequer aceitado a tarefa.

Tenho várias razões para estar orgulhoso do que foi feito. O balanço de 2009, auditado pela empresa Boucinhas, Campos & Conti – e aprovado unanimemente pelo Conselho Curador – é a demonstração mais objetiva do nosso trabalho. Acima disso, tenho a alegria de ter consolidado a ideia de que a Fundação é maior que o conjunto de nossas respeitadas emissoras e que sua missão deve utilizar as mídias mais avançadas, como foram o rádio e a TV há quatro décadas. Algumas outras razões para festejar:

1 – Os 41 milhões de paulistas que nos sustentam têm agora uma instituição com controles mais rigorosos de seu orçamento e com todas as contas em dia;

2 – Depois de 18 meses de negociação, firmamos um contrato de parceria que norteia as relações entre a instituição e o governo do Estado. Em 2009, primeiro ano de vigência desse acordo inédito, cumprimos a nossa parte, pagando as dívidas, aumentando a receita própria e incrementando a produção independente na programação;

3 – A Fundação Padre Anchieta opera agora três emissoras digitais abertas. Depois de um embate duro, em que assumimos uma posição ousada, nos tornamos a única emissora pública de sinal aberto a utilizar a multiprogramação, peça chave do modelo brasileiro de digitalização. Nosso segundo canal, a Univesp TV, dá suporte ao mais ambicioso projeto de ampliação da educação superior pública de qualidade – uma parceria do governo de São Paulo com as três grandes universidades estaduais paulistas;

4 – O decreto da ditadura que limitava nossa ação às tele aulas e restringia nosso financiamento aos recursos orçamentários foi superado. Iniciativa nossa, com respaldo do advogado geral da União e do presidente da República, que nos permite veicular dentro da lei qualquer tipo de programação com sentido educacional: programas infantis, jornalismo, música, filmes, entretenimento. A mesma decisão nos dá direito a ter publicidade institucional;

5 – Com o surgimento da TV Brasil, a TV Cultura assumiu nova posição no plano nacional, equidistante da concorrência e da submissão, oferecendo seus conteúdos sob várias formas, todas com contrapartidas financeiras;

6 – A rádio Cultura Brasil, que morria lentamente, ressurge na forma do mais importante portal de música brasileira, no ar em 28 de abril. O RadarCultura, seu programa interativo, acaba de ser contemplado com o Prêmio Especial do Júri da APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) como o melhor programa de rádio de 2009;

7 – A rádio Cultura FM, que não veicula comerciais e dedica-se totalmente à música clássica, como era seu projeto original, registrou um aumento de audiência de 20%, de segunda a sexta, na faixa das 7h às 19h, entre janeiro de 2008 e janeiro de 2010. Houve ainda significativo avanço na faixa das 21h às 23h, com a veiculação de obras de grande duração pelo programa Sala de Concerto, que encerrou 2009 com 10 mil ouvintes por minuto, excelente marca para o horário;
8 – A TV Rá Tim Bum está em quase todas as operadoras e ultrapassa a casa dos 2,5 milhões de assinantes. Seu conteúdo está sendo distribuído pela principal operadora de Portugal e contrato semelhante está em negociação para atender às colônias brasileiras no Japão e em Israel. O único canal infantil a cabo com produção nacional exibiu 11 novas atrações no ano passado. Em 2010, serão 12;

9 – Nas quase 12 horas diárias dedicadas às crianças, não há, também, qualquer tipo de publicidade. Em 2009, nosso maior sucesso, Cocoricó, teve 39 episódios e 24 clipes musicais gravados em HD. A nova temporada, em que Júlio e seus amigos vão para a cidade, estreou no cinema primeiro, com bom resultado;

10 – Passamos a utilizar regularmente o cenário virtual e suas possibilidades criativas. O primeiro projeto, Lygia por Lygia, inaugurou a série Autor por Autor, na qual estão sendo produzidos mais 12 programas em parceria com a SescTV. Planeta Terra, Vitrine e Clássicos (agora em horário nobre) também estão sendo gravados com esse recurso;

11 – O Jornal da Cultura, reformulado com base em pesquisas quantitativas e qualitativas, retoma o viés do jornalismo público;

12 – Toda a identidade visual da emissora foi renovada. Viola minha Viola, Roda Viva, Metrópolis, Provocações e Cartão Verde, entre outros programas, têm novos cenários;

13 – A TV Cultura tornou-se a principal parceira da produção independente, que em 2009 alcançou 30% de toda nossa produção. As séries A´Uwe, Ecoprático e Tudo o que é sólido pode derreter estão entre os destaques desse projeto. Somos a emissora aberta de TV que mais incentivou a animação brasileira;

14 – A educação foi alçada à condição de objetivo estratégico da FPA. Produzimos centenas de vídeos, milhares de pen drives e mais de três milhões de exemplares de livros: 104 títulos feitos sob encomenda de parceiros e clientes, como organismos de governo nos planos municipal, estadual e federal, além de organizações internacionais, como Unesco e Unicef. Os contratos já assinados nessa área para 2010 ultrapassam a casa dos R$ 60 milhões;

15 – A área de prestação de serviços reavaliou todos os contratos a partir de um denominador comum: só realizamos projetos rentáveis e compatíveis com a grande missão da FPA, que é a de contribuir para o exercício da cidadania. A campanha publicitária do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) em 2009, Vota Brasil, foi desenvolvida graciosamente pela agência W/Brasil e esteve entre os finalistas da etapa nacional do prêmio Profissionais do Ano de 2009;

16 – Nosso portal recebe mais de um milhão de internautas por mês; o Conexão Cultura oferece conteúdos relevantes para milhões de usuários de lan houses e telecentros. Há outras iniciativas inovadoras como o Portal Roda Viva, o programa Login (sucessor de Pé na Rua e Programa Novo) e o RadarCultura. A atuação em multiplataforma inclui ainda exposições virtuais, como Olheiro da Arte, com mais de três mil obras inscritas virtualmente antes da exposição física e a Galeria dos presidentes da República. Essa operação transversal se expressa ainda na revista Mbaraka, dedicada à música clássica e a dança, cuja segunda edição (também superavitária) está sendo impressa;

17 – O parque tecnológico foi completamente renovado. Novas câmeras, ilhas de edição e controles mestres garantem mais qualidade e economia. Concluímos assim um processo de modernização que demandou muitos milhões de reais de investimento público e de recursos próprios;

18 – Nossas instalações estão sendo melhoradas gradualmente, como bem sabem todos que trabalham no chamado “prédio das Tecas.” O Teatro Franco Zampari foi totalmente recuperado e pode ser utilizado para programas e eventos, com transmissão ao vivo pela TV ou pela web;

19 – Mordomias incompatíveis com nosso tipo de instituição e com o trabalho em equipe (carro de diretores, portão de acesso exclusivo, restaurante executivo, passagens em classe executiva) foram suprimidas;

20 – Parcerias com emissoras do Brasil e do exterior permitiram aumentar a produção e o alcance de nossos programas. Da Arirang TV da Coréia à Deusteche Welle da Alemanha, passando pela TV Encuentro da Argentina. Com a TV Brasil, desenvolvemos o Almanaque Brasil, levando para a telinha o conteúdo da revista criada por Elifas Andreatto. Com a Imprensa Oficial está sendo desenvolvida a série Aplauso, baseada na coleção de biografias de personalidades do teatro e da TV. Um acordo longamente costurado com a RTP2 resultou em Brasil e Portugal, Lá e Cá, série que manterá meu vínculo com a TV Cultura, na condição de apresentador, pelas próximas 12 semanas.

Em conversa cordial neste domingo, 25 de abril, ouvi do candidato a presidente João Sayad, que não existe, da parte dele, a intenção de transformações radicais na equipe ou grandes mudanças no que está sendo desenvolvido na Fundação Padre Anchieta.

A alegria do dever cumprido em 39 anos de profissão me remeteram a esta reflexão do escritor Alejo Carpentier, que busco relembrar volta e meia:

“…o homem nunca sabe para quem padece e espera. Padece e espera e trabalha para gentes que nunca conhecerá e que por sua vez padecerão e esperarão e trabalharão para outras que tampouco serão felizes, pois o homem anseia sempre uma felicidade situada além da porção que lhe é outorgada. Mas a grandeza do homem está precisamente em querer melhorar o que é. É impor-se tarefas. No Reino dos Céus não há grandeza a conquistar, pois ali tudo é hierarquia estabelecida, incógnita derramada, existir sem fim, impossibilidade de sacrifício, repouso e deleite. Por isso, atormentado por penas e tarefas, formoso dentro de sua miséria, capaz de amar em meio às pragas, o homem só pode alcançar sua grandeza, sua máxima medida, no reino deste mundo.”

Creio que no reino deste mundo, cabe agora a vocês, que há 43 anos trabalham para erguer (e melhorar) a Fundação Padre Anchieta, uma bela tarefa, digna da grandeza dos homens.

Paulo Markun
26 de abril de 2010