‘Liberdade Liberdade’ é cinema, sem concessões assépticas

‘Liberdade Liberdade’ é cinema, sem concessões assépticas

Cristina Padiglione

12 de abril de 2016 | 09h03

melmaia

Dizer que tal programa de televisão parece cinema dá a ideia de que o produto é superior e corrobora a intenção de achincalhar a TV, que não seria tão boa.

Daí evitar essa associação. Sim, a qualidade pode e está a serviço da TV, aqui como tem acontecido nos Estados Unidos, muitas vezes mais que no cinema.

Feita a ressalva, a referência à sétima arte na nova novela das onze, Liberdade Liberdade, não se faz em função, ou não apenas, de jogar confetes sobre a direção de Vinicius Coimbra, e sim por tomadas que remetem ao modo de filmar da telona.

Caravelas tomam a tela e  o foco do nosso Tiradentes no primeiro olhar do telespectador para essa história. Uma câmera então persegue Thiago Lacerda em sua caminhada, do cais ao miolo da vila, por trás dos muros à beira mar, com escravos e outras pessoas a cruzar sua trilha, num plano sequência que a TV, na urgência industrial de seu dia a dia, não tem tempo suficiente para fazer. Enquanto o seguimos pelas costas, na sua busca pelo rapaz que há de lhe entregar o livro da independência dos Estados Unidos, munição para o seu sonho de liberdade da pátria, nenhum corte.

De ângulos, imagem e reconstituição de época primorosas, a produção nos leva a um texto enxuto, obra de Mário Teixeira, capaz de traduzir o temor e a brutalidade daqueles dias, quando os habitantes desta terra eram quase bichos. Nada é limpinho. Uma tonalidade encardida contamina, para o bem, todos os quadros, em contraste às fardas ostentadas pelas autoridades militares em defesa da Coroa.

Mulheres tiram piolho uma da outra no prostíbulo, onde se atracam e se rasgam para exibir o peito nu por debaixo das camisolas mal feitas. Letícia Sabatella arranca um dente de Mateus Solano a sangue frio e ele agradece. Ela cobra por isso. “Tudo isso por um dente?” “Pela sua dor. O seu dente não vale nada, pode levar”, ela responde. Mas a pequena Joaquina, Mel Maia, apresentada como destemida desde sempre, reivindica a peça: “eu quero o dente!”

Autoridade chupa os dedos depois de devorar qualquer coisa como um frango à passarinho, durante um interrogatório. E Mateus Solano é visto nu, em cena de tortura para entregar o alferes Tiradentes ao malvado Ricardo Pereira, no seu sotaque luso de verdade, o que nos faz embarcar no enredo com mais fé.

Não há frase ou cena jogada em vão.

Deste primeiro capítulo, quatro performances em cena se sobressaem na arte de seduzir o telespectador:

1) A própria Sabatella, no papel de uma mãe solteira quasse selvagem, ciosa de seus valores

2) A pequena Mel Maia, que tranca o sorriso fofo numa interpretação comovente e verossímil

3) Lu Grimaldi, altiva na condução de dona Maria I e na ordem de matar traidores e seus herdeiros

4) E Marco Ricca, o Mão de Luva, personagem que habita a imaginação de Mario Teixeira há muito tempo, em atuação precisa do bandido que, num primeiro instante, no seu doce sotaque mineiro, nem parece tão mau assim. Só que não.

Dos diálogos à atuação, passando por direção, o público é surpreendido o tempo todo, como se deu na invasão dos policiais em pleno quarto de prostíbulo, pé na porta enquanto os meninos se deitavam com profissionais do sexo. Ou na fuga da menina Joaquina de casa. Ou mesmo na sua chegada à janelinha de onde falou com o pai pela última vez.

Como é bom não adivinhar o restante das falas de cada personagem, como acontece em obras que subestimam a capacidade do cidadão em pensar, especialmente na TV, abusando dos lugares mais comuns que se pode imaginar. ‘Liberdade Liberdade’ tem todas as chances de despertar na plateia algum interesse pela história, pela memória, pelo passado (e portante capaz de justificar o presente) deste país nascido e criado já sob linhas tão tortas. Oxalá.

 

 

FOTO: JOÃO COTTA/DIVULGAÇÃO