Jô presta tributo ao filho

Jô presta tributo ao filho

Cristina Padiglione

04 de novembro de 2014 | 16h30

 

Emocionado, com respiração ligeiramente ofegante, Jô Soares abriu seu programa na segunda-feira prestando uma homenagem ao filho, Rafael Austregésilo Soares, morto na última sexta-feira, em decorrência de um câncer no cérebro.

Rafael era autista, como contou Jô, e viveu seus 50 anos com a cabeça de uma criança.

O apresentador falou sobre a afinidade do filho com a música, para a qual tinha “ouvidos absolutos”, sobre a própria estação de rádio, montada em seu quarto, e exibiu até uma vinheta gravada por Derico, saxofonista do Sexteto do Jô, para a emissora fictícia de Rafael.

Eis a íntegra da homenagem.

“A nossa abertura de hoje vai ser um pouco diferente. Porque na última sexta-feira, dia 31, eu sofri a dor que é o pesadelo de todo pai: a inversão da ordem natural das coisas, a perda de um filho. Meu filho Rafael, Rafael Austregésilo Soares, o Rafinha, esteve no mundo durante 50 anos e foi uma criança especial. Como ele era autista, permaneceu menino até o fim. Passou a vida inteira na realidade do seu próprio mundo. Um corpo  de adulto, coração e alma de criança. Tinha ouvido absoluto. Por isso tocou piano, adorava música, mas sua grande paixão era o rádio. Tinha sua própria emissora em casa, cujo alcance eram as pessoas que o visitavam.

O Derico, numa prova singela de amizade, fez várias vinhetas pra programação fechada da emissora do Rafa. Derico, obrigado pelo imenso carinho. Mesmo operando em casa, nem por isso ele deixava de ser um DJ muito competente, trocava experiências e conhecimentos com o radialista Roberto Canásio, da Rádio Globo do Rio, seu amigo, que ele adorava e era adorado de volta, chamava de colega. O Canásio dizia que o Rafa era um profissional totalmente dedicado, com horários rigorosos. Nos seus aniversários ele não tirava a emissora do ar nem na hora de soprar as velas do bolo, ‘não pode, tá na hora, são 6 e 2’, aqueles horários que os autistas têm , de uma precisão absoluta, e essa disposição de viver com entusiasmo e até com paixão esse caminho limitado que a vida lhe ofereceu me dá muito orgulho do meu filho. Eu gostaria de dedicar essa abertura a ele e à Teresa, sua mãe, que foi minha companheira por 20 anos e que por 50 anos dedicou sua vida ao nosso filhinho, o acompanhando desde o berço até o fim. Também quero aproveitar pra agradecer as centenas e centenas de e-mails de mensagens de amigos queridas e de pessoas desconhecidas, e que continuam chegando. Por favor, saibam que é impossível que eu responda tudo isso de cada vez, então estou aproveitando, como se eu estivesse agradecendo pessoalmente cada um de vocês.

Eu queria contar uma história que dá uma ideia das coisas que eu aprendi com o Rafinha. Uma vez, numa livraria, ele chegou junto ao caixa carregando uma dúzia de livros. Eu estranhei, falei, ‘peraí, Rafa, é muito, escolhe seis’. Ele falou ‘não, então não quero nenhum’; Pensei que era malcriação e falei ‘como não quer nenhum?’ Ele disse: ‘prefiro não escolher’. ‘Por quê?’, perguntei. Ele disse: ‘porque escolher é perder sempre’.

Hoje eu também não preciso escolher. Como ele nunca faltou ao seu trabalho, também não posso faltar ao meu. Um beijo pra todos você e pro meu querido Rafa.”

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