Isso não é um ‘pedacinho’ de chão, é um latifúndio

Isso não é um ‘pedacinho’ de chão, é um latifúndio

Cristina Padiglione

09 Abril 2014 | 00h59

Nunca uma novela se pareceu tão pouco com uma telenovela.

Mas não é esse o cartão de visitas que faz de Meu Pedacinho de Chão uma cena a ser aplaudida de pé. Novela não é necessariamente algo ruim, ao contrário, uma boa história, bem produzia e vivida, pode se tornar um ótimo programa. E, no marasmo do mais do mesmo que nos aflige no gênero, romper com padrões simplesmente por romper não garante a excelência da obra.

O caso é que há uma inquietação muito bem-vinda, porque bem-sucedida, na produção que agora ocupa a vaga da novela das 6 na Globo, a começar pela fuga do ritmo de melodrama.

Cheia de graça, a  realização de Luiz Fernando Carvalho embarca numa fábula, como nos prometeu o diretor, tendo como ponto de partida o genuíno texto de Benedito Ruy Barbosa. Do papel, salta na tela um conto de fadas evidenciado por uma profusão de cores. Da estética cenográfica ao figurino, tudo remete a brincadeira de criança. Mas isso se encerra pouco depois do efeito imediatista provocado pelo primeiro olhar – nem sempre a primeira impressão é a que fica.

O drama se impõe logo a seguir e é bem capaz de tirar o espectador da zona de conforto do seu sofá, no melhor sentido. É como ser assaltado, em plena anestesia de torpor diante da tela, por um alerta do tipo “mexa-se!”. A gargalhada que beira a histeria conspira a favor da melancolia subsequente, pode apostar. Quem dá o recado é Juliana Paes, irrepreensível  em cena. Ao ver a peruca ostentada pela personagem, dona de riso tão nervoso, não me contenho em lembrar de Tom Hulce vestido de Mozart, sempre a escancarar as amígdalas, no filme Amadeus (1991), Como Madame Catarina, personagem de Juliana, o gênio da música também encontrava a depressão no passo seguinte à gargalhada desenfreada.

Os diálogos, bem construídos e defendidos à altura pelo elenco, têm suas pausas milimetricamente fatiadas, e não simplesmente cortadas, como acontece corriqueiramente na dramaturgia comercial televisada, quando o tempo obedece ao prazo urgente que norteia blocos e intervalos comerciais. Aqui temos gestos e frases recortadas a serviço da comicidade e da comoção. Os diálogos adquirem ritmo quase frenético para, um segundo depois, tal qual o riso de Juliana, se derramarem em contrariedade e tristeza. Contrariedade do coronel Epa (Osmar Prado) com o diploma de engenheiro agrônomo do filho (Johnny Massaro), que por sua vez exibe sincera mágoa pela  recusa do pai em vê-lo feito em outra coisa que não seja advogado.

No segundo capítulo, pausa para um momento Ziembinski e a histórica montagem original do Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues: Carvalho nos apresenta um set sobre o outro, em dois andares, como a boca de cena do teatro, dando ao espectador a chance de acompanhar duas sequências simultâneas. Antes que alguém diga que isso é deveras avançado para o espectador médio e a audiência sem domínio de Ziembinski poderá trocar de canal, vamos avisar que não é preciso conhecer esse passado teatral para se deixar encantar pela imagem.

Com prosódia caricatural caipira na ponta da língua e notadamente dirigidos pela mão do artesão, digo, o diretor, os atores não deixam espaço para o desinteresse da plateia.Tudo  em cena é sedutor, quase hipnótico, como a casa da bruxa de João e Maria.

Daí o alerta: “mexa-se!” Todo encanto excessivo esconde alguma opressão.

Aparentemente, é só um pedacinho de chão, mas o repertório oferecido ali é vasto, coisa de latifúndio.

Oxalá, e essa é minha única aflição, a equipe consiga manter esse fôlego ao longo de 100 capítulos. Agora que o público já está “mal acostumado”, o staff da (quase) novela é refém do próprio êxito.