‘Império’ termina com tempo para cada dor, tributo a Glauber e morte do protagonista

‘Império’ termina com tempo para cada dor, tributo a Glauber e morte do protagonista

Cristina Padiglione

14 Março 2015 | 00h15

nero

Aguinaldo Silva faz a linha de quem entrega o que o público pede. Só que não. Apesar dos inúmeros clamores para que não matasse José Alfredo no final de ‘Império’, o autor manteve a pontaria do pérfido Zé Pedro, filho ingrato, e nunca mais olharemos para Caio Blat com a mesma doçura depois da empáfia ostentada por seu personagem nesses últimos capítulos.

É verdade que Alexandre Nero ainda teve direito ao último close, antes do cerrar das cortinas. Para quem não se conformou com o desfecho, o tiro do filho seria só mais uma morte falsa do imperador, que já havia simulado o próprio óbito alguns capítulos atrás. Para quem crê no espiritismo, vá lá, era um aceno de fantasminha. Para quem acompanha Aguinaldo Silva desde sempre, foi só uma pitada de realismo fantástico. Cada um que fique com a leitura que lhe convém.

Matar o protagonista faz de Aguinaldo uma eterna surpresa em gênero tão batido como a telenovela. Nunca se sabe o que esperar dele. Como disse Nero, é um desfecho que enobrece a teledramaturgia. Ou não nos flagramos reclamando dos óbvios finais felizes em todo último capítulo? Pronto, dessa vez, o autor subverteu o clichê.

Esse é um ponto que põe ‘Império’ na história da telenovela brasileira. O último herói morto em fim de novela, pelo que eu me lembre, foi Carlão, e permita-me escolher Francisco Cuoco, na versão original de 1975, para abrigar a cena em minha memória afetiva, e não Du Moscovis, no remake inferior produzido pela Globo. A ocasião põe Zé Alfredo num patamar ainda mais alto, morto que foi pelo próprio primogênito, menino fdp, como lhe disse a irmã, Cristina, bravamente defendida por Leandra Leal.

 

(Sim, a Globo liberou o ‘filho da puta’ em novela, mas haja motivo para tanto. Antes de Leandra Leal, o próprio Nero se esmerou em pronunciar o palavrão, com acento nordestino, ‘feladaputa’)

Outro ponto que vale ser selecionado como histórico é o giro em 360 graus da câmera em torno de Othon Bastos, ora ora, o nosso eterno Corisco. A moda Glauber Rocha de girar a câmera em torno do foco se consumou pouco antes da morte de Silviano, o mordomo. Quem se espantou com o volume de enredo destinado a Silviano nesta reta final deveria ter imaginado que não se escala um Othon Bastos como serviçal à toa. Estava na cara que ele guardava algo mais do que aquelas bandejas ostentadas na mansão de dona Marta.

othon

Ao revelar a identidade de Fabrício Melgaço no início da última semana, Aguinaldo promoveu a cada personagem um fim próprio, sem aquela correria típica de último capítulo.

império

O Téo Pereira de Paulo Betti reinou absoluto ao autografar para o próprio autor, que passou para a frente das câmeras por menos de um minuto, a biografia de José Alfredo. E promete que sua próxima biografia será sobre ele, Aguinaldo.

Assim, derramadas todas as lágrimas sobre o imperador, houve tempo para frivolidades, festa, celebrações e que tais. Mas o último fechar de cortinas ficou mesmo com Nero, ainda que em clima de Gasparzinho.

Houve incoerências no enredo, aqui e ali? Houve, claro, mas a vida real também não escapa disso. Se tudo fosse tão lógico, que tédio seria viver.

A frase do último capítulo foi de Zezé Polessa, a Magnólia: “Esse é o primeiro dia do resto de nossas vidas”, diz ela ao marido, Tato Gabus, ao deixar o hospital, onde ele foi diagnosticado com Alzheimer. “Não serão os melhores dias, mas qualquer dia vivo é um bom dia”.

FOTOS: FCO.PATRICIO, do site de Aguinaldo Silva

 

AUDIÊNCIA

O Ibope, ao menos nos números prévios da Grande São Paulo, não confirma recorde para a novela. O último capítulo rendeu o mesmo que o penúltimo (44 pontos), na Grande São Paulo, onde cada ponto equivale a 67 mil domicílios. Os números podem se alterar no resultado consolidado, que o Ibope só baliza amanhã. É bem possível que a morte do comendador, ainda na metade do capítulo, tenha arrefecido a audiência, mas houve também o fator publicidade. Com audiência em alta, o comercial espichou os intervalos comerciais à vontade, de modo que o enredo ficou no ar até quase meia noite.