‘Haja Coração’ tropeça no drama e retrata homem como sexo frágil

‘Haja Coração’ tropeça no drama e retrata homem como sexo frágil

Cristina Padiglione

01 de junho de 2016 | 13h58

Fedora

A comédia presente em Haja Coração, nova novela das 7 da Globo, não nega a vocação do enredo, seus personagens e atores para tanto.

Mas, como novela é melodrama e a choradeira é inevitável, há no texto de Daniel Ortiz um chororô necessário. Em vez de servirem ao contraste que acaba por enaltecer o riso, no entanto, o contexto do drama beira a canastrice, o que não é de todo mau, comercialmente falando. Nelson Rodrigues, certa vez acusado de canastra, ao entrar em cena numa peça sua, defendeu-se com a pérola: “O canastrão chega mais rápido ao coração do público”.

Aparício, o marido capacho vivido por Alexandre Borges, serve de escada ao humor da milionária vivida por Grace Gianoukas, que ótimo. Mas, de tão melancólico que se apresenta ao lembrar do “grande amor” de sua vida, Malu Mader, vai além do patético cabível no personagem. Torna-se fake. Não há, por parte de quem escolhe se casar por dinheiro, espaço para arrependimentos de fofice como aquele. O diálogo tinha apenas a função de dar conhecimento ao público sobre a opção feita por Aparício, que trocou Malu por Grace.

Afinal, isto é novela. Se eu espero do gênero menos didatismo e mais confiança na inteligência do espectador, problema meu. A Globo, agora concorrendo com o gênero no horário, representado por Escrava Mãe na Record, não se mostra disposta a dar brecha para a dúvida. Para a empresa, parece melhor entregar uma história mastigada do que esperar que a plateia reflita sobre esta ou aquela intenção velada. Nesse contexto, ainda segundo os cálculos da emissora, já basta Velho Chico, a novela das 9, que enche os olhos, mas não as pretensões de ibope da casa. Como sempre me policio para não confundir audiência com qualidade (as duas coisas não são incompatíveis, mas quase nunca andam de mãos dadas), prefiro apostar numa plateia menos numerosa, com mais cérebro, do que numa massa avassaladora, porém indisposta para pensar. Infelizmente, o anunciante não pensa como eu. A ele, interessam os números de consumo e pronto.

Voltando à trama, por mais que tenham escalado alguém fisicamente tão distinto de Cláudia Raia para viver Tancinha, a personagem já chega com os pronomes reflexivos redundantes da primeira pessoa como cacoete, o que remete diretamente à atriz da Sassaricando original. Mariana Ximenes tem a beleza, o carisma e o talento, mas a personagem perde parte da graça nesse esforço de linguagem que remete ao déjà vu e se apresenta agora muito fora de contexto: ninguém no entorno da nova Tancinha fala mais daquele jeito, nem o pessoal mais velho, herdeiro das italianices trazidas pelos imigrantes a esta São Paulo.

Redundante agora serei eu, ao dizer que a graça maior promete ficar mesmo em Fedora Abdala / Tatá Werneck e na família ao seu redor – Grace, Cláudia Jimenez e Marcelo Médici. Tatá chega sem tropeçar nos esses e erres cariocas, enxuga o chiados para atender à localização paulistana, sem cair na caricatura. O leitor dirá que isso é o mínimo que se espera de uma atriz, mas não é tão óbvio assim. Sempre me lembro de Deborah Secco vivendo uma habitante da Mooca em novela do Silvio de Abreu, como se tivesse nascido no Leblon, ou de paulistanos e curitibanos que sobem o morro carioca nas novelas da Globo sem arrastar um só S ou R.

A ostentação da família Abdala, cafona no último, pretende ser um espelho capaz de chocar quem ainda desfruta de tais hábitos. Mas os cafonas e errantes da vida real nunca enxergam a si na ficção, sempre olham para o que deveria ser seu espelho como espelho alheio, do vizinho ou de um conhecido. Mesmo assim, já vale para constranger quem ostenta.

Por fim, mas não menos importante, é notável a força feminina que se impõe sobre um tipo de homem retratado como banana no enredo de Daniel Ortiz, com base no clássico de Silvio de Abreu. Além do aqui já citado Aparício, tem seu cunhado Agilson (Marcelo Médici), dominado pela mulher, Cláudia Jimenez, e pela filha, a fedelha Camila (Agatha Moreira). Tem ainda a matriarca de Marisa Orth, que criou quatro filhos sozinha com uma barraca de frutas na feira, em papel dramático. Já que a representatividade feminina vai tão mal no noticiário político, resta à ficção inspirar a vida real.

 

FOTO: JOÃO MIGUEL JR./DIVULGAÇÃO