Globo cede à pressão da concorrência

Cristina Padiglione

20 de outubro de 2009 | 19h39

Alguém já disse, dentro da Globo, que esse negócio de pilotar com o olho no retrovisor não leva ninguém ao pódio.

Mesmo assim, a direção da emissora, líder em audiência, muitas vezes pauta suas decisões pela concorrência, em especial quando é ameaçada por ultrapassagens no Ibope. Ninguém espera que a Globo se comporte como entidade sem fins lucrativos, mas, para quem se gaba de priorizar a qualidade e valorizar a cultura, é no mínimo paradoxal suspender um programa como “Norma”, ideia original e bem produzida, na raríssima linha da televisão que faz pensar. Foi o que aconteceu: de ontem para hoje, a chefia mandou tirar do ar a série, que foi ao ar por três domingos, com audiência abaixo do esperado para o horário.

Quando entrou no ar no domingo, “Norma” concorria com um Silvio Santos que, àquela altura, já prometia havia duas horas que “daqui a pouco” mostraria sua incrível conversa com o craque Ronaldo. Na Record, Gugu entrega casas reformadas a humildes telespectadores, com close nas lágrimas da família. Na RedeTV!, restam resquícios do bem-sucedido “Pânico”, que, não custa lembrar, ainda outro dia levou ao ar uma “matéria” de nudismo com umas bonitonas peladas de tudo.

A Globo está disposta a seguir alguma dessas fórmulas? Não. Então faz reality shows como “No Limite” ou aquele “Jogo Duro”. Ok. Não embarca no assistencialismo nem na nudez, mas também não está interessada em valorizar conteúdo: mais fácil apostar no circo dos realities, vá lá.

Até segunda ordem, a equipe de “Norma” continuará gravando novos episódios. Dentro de duas semanas, o programa será submetido a pesquisas para que se verifique possíveis motivos de rejeição da audiência.

Talvez “Norma” esteja só no lugar errado.
Talvez o cardápio da concorrência seja mesmo digno de realities sem eira nem beira.
Talvez o mais confortável seja parar de pensar de uma vez e recorrer logo aos blockbusters, como acontecerá a partir deste domingo, após o “Fantástico”.

Certo é que a Globo cai na armadilha que por diversas vezes enterrou boas iniciativas na concorrência: a busca por resultados imediatos num veículo que ainda depende de hábito, coisa que “Norma” não teve chance de criar.

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