Final de Insensato endossa o tal país que mudou

Final de Insensato endossa o tal país que mudou

Cristina Padiglione

21 de agosto de 2011 | 21h32

Há quem ache que o país não mudou tanto assim.
Balela.
De fato, Salvatore Caciola teve lá seu tempo de férias como fugitivo na Europa, mas, ao voltar, teve de fazer valer a sentença de Justiça que lhe foi atribuída.

Ao punir Cortez, personagem que comete crime financeiro na novela recém-encerrada, Gilberto Braga e Ricardo Linhares traçam a larga distância entre o Brasil de hoje e o de 1989, aquele de um momento pré-eleições diretas, quando Marco Aurélio (o Reginaldo Faria, por favor, não o de Mello, primo do então candidato Fernando Collor), autor dos crimes financeiros de Vale Tudo. Marco Aurélio não só caiu fora com o dinheiro furtado, como ostentou sua famosa banana lá do alto do jatinho, ao sobrevoar a Baída de Guanabara.

Punidos por punidos, o fato é que o bandido mais poderoso ainda pode vencer o bandido bagaceira. Assim foi que Cortez falou por último e o medíocre Léo se estatelou no pátio da prisão, graças ao suborno pago pelo ex-banqueiro.

Vilões que se dão mal e mocinhos triunfando, infelizmente, ainda é mais coisa de novela do que da vida real, mas é latente que o Brasil de 89, ainda que a trilha desse conta do questionamento “que país é esse?”, este Brasil já não tolera bananas ad eternum. Há ainda, aos montes, quem dê as suas, mas elas não prevalecem sem a redenção do culpado.
Há casos como o de José Roberto Arruda. Tropeçou na fraude do painel do Senado, se debulhou em lágrimas, renunciou ao cargo e, candidato, foi logo eleito governador do DF. Não resistiu ao primeiro escândalo e voltou para a casa.

Insensato Coração valeu por nos fazer lembrar, ainda que em overdose otimista em relação à vida real, que o tal jeitinho brasileiro começa a perder força como comportamento cultural. Valeu, apesar das tesouradas sem nexo da direção da Globo, pelo debate em torno da homofobia e, em especial, pela delicadíssima abordagem do sujeito que está se descobrindo gay, que não sabe muito bem como enfrentar a saída do armário. Valeu pelos diálogos, sempre superiores à média dos folhetins. Mas não valeu mais que Vale Tudo, com todas as glórias que a mudança positiva do País possam representar para o roteiro da vez.

A chance de se rever Vale Tudo no Viva, enquanto Insensato dava o ar da graça inédita na Globo, escancarou a distância de qualidade entre as duas tramas. Aqueles eram anos de pós-ditadura, inflação em alta, questionamentos a rodo sobre as vantagens, ou falta de, em ser honesto no Brasil. A era atual, já sem os sobressaltos daqueles dias, fez murchar as manifestações de modo geral. É esse o diagnóstico a que normalmente se recorre para justificar a baixa na produção musical e literária, mas a queda da criação não afeta, na mesma proporção, as criações no cinema e no teatro. Por que será?
Afinal, de quem mal sofre a telenovela? Não é certamente da acomodação política que inqueitava o País 30 anos atrás. Aí está Cordel Encantado, um primor de folhetim, e, recentemente, A Favorita, que ousou ao botar em dúvida quem era mocinha e quem era vilã. Não por acaso, ambas estão nas mãos de novos autores. E é certamente desse sangue novo que carece a inovação do gênero, por mais que eu ame Gilberto Braga.

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