Fernando Faro contrariou o ‘nada se cria, tudo se copia’

Cristina Padiglione

25 de abril de 2016 | 11h54

 

Pense em qualquer nome de relevância da música brasileira, dos anos 1960 para cá. Chico, Gil, Caetano, Gal, Elis, Vinícius, Tom, Tim Maia, Cartola, Chitãozinho, Xororó, Pena Branca, Xavantinho, Erasmo, Beth Carvalho, Tom Zé, Martinho da Vila, Dorival Caymmi, Ney Matogrosso… Não há um só que não tenha se submetido aos closes de Fernando Faro para o seu Ensaio. O mais impressionante é que este ainda seja, mais de 60 anos depois de criado, o programa musical mais inovador da Televisão Brasileira.

Se é verdade que na TV nada se cria, tudo se copia, Baixo, apelido que ganhou de Cassiano Gabus Mendes nos idos da TV Tupi, veio a esse mundo para ser copiado. O que falta é entrevistador, ainda mais em televisão, desprovido da vaidade de contracenar com as estrelas entrevistadas no vídeo. E “Baixo” ficou tão vinculado à sua imagem, que ele passou a chamar a todos de “Baixo” e “Baixa”.

Nascido em Aracaju, em 21 de junho de 1967, Faro cresceu em Salvador e chegaria a São Paulo para estudar Direito na São Francisco. Logo trocou o estudo das leis pelo Jornalismo. Foi trabalhar no jornal A Noite, de Adhemar de Barros, e chegou à TV logo depois de sua inauguração, ainda em 1951, pela TV Paulista, dirigindo programas e escrevendo teleteatros. A carreira como diretor musical começou na Tupi, na década de 1960, com o Hora da Bossa, aos domingos. Por um bom tempo, trabalhava paralelamente para agências de publicidade, complementando o orçamento.

O modo de filmar o entrevistado, sem ocupar lugar no vídeo, veio de uma entrevista que fez com um bandido, já preso, de quem só obteve as declarações que queria em áudio, mandando o único microfone que tinha para dentro da cela onde estava o meliante, alguém debochado e divertido. Percebeu aí que a figura do entrevistador poderia ser dispensável, desde que a história a ser contada fosse boa. Em outra ocasião, ao ver o preparo todo de um estúdio para gravar um programa, notou que o backstage era cenário de interesse para o plateia, e tratou de incorporá-lo à edição final. Nada mais Ensaio, afinal. Ao que o cantor desafinava ou errava o acorde, pedia para gravar de novo. Faro consentia, mas levava o erro ao ar, não como achincalhe ao artista, ao contrário, mas para desnudá-lo de sua falsa perfeição, para torná-lo humano e aproximá-lo do público, como conta, no vídeo abaixo.

O acervo com mais de 700 entrevistas, entre Ensaio e Mosaicos, é o que há de mais precioso na TV Cultura hoje. Como o canal nem tem material suficiente para compor sua grade e vive a buscar produções fora de casa, seria de bom tom manter o Ensaio no ar, ad eternum, como um canal Viva de si próprio.

Nos 45 anos da TV Cultura, em 2014, em evento realizado no Teatro Bradesco, Faro foi a figura mais bajulada por Serginho Groisman, mestre de cerimônias da ocasião, e a mais low profile de toda a plateia. Mal se levantou de seu lugar para uma chuva de aplausos interminável. Mal disse duas palavras. Foi ovacionado.

Ainda que soubéssemos do valor dele em vida, merecia ser mais e mais ovacionado em qualquer ocasião. Ave, Faro.

 

 

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