‘Estadão’ junta Serginho Groisman e Fábio Porchat nos 65 anos da TV no Brasil

‘Estadão’ junta Serginho Groisman e Fábio Porchat nos 65 anos da TV no Brasil

Cristina Padiglione

16 de setembro de 2015 | 19h34

O Estadão reuniu dois profissionais que fazem a diferença na TV brasileira, Serginho Groisman, hoje apresentador do Altas Horas, na Globo, e Fábio Porchat, do Porta dos Fundos, ícone da nova era de conteúdo em que a internet já inspira e afeta a produção televisiva. Os dois refletiram sobre os 65 anos do veículo no Brasil: de onde viemos, como chegamos até aqui e para onde vamos? Não houve a pretensão de determinar o caminho das pedras em tempos de tantas mudanças, mas, aqui e ali, a experiência e o olhar de ambos trouxeram à tona bons indícios do painel que hoje compõe a tela derivada do tubo trazido por Assis Chateaubriand em 18 de setembro de 1950.

A seguir, um resumo pouco resumido do que conversamos no Teatro Eva Herz, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, na sexta, dia 11/9, na presença de uma plateia interessada na arte e na indústria dita televisão, gente que se divertiu com o humor dos dois, sob mediação desta que aqui vos narra o que lá se passou. As fotos são de Tiago Queiroz/Estadão

 

Do ‘Matéria Prima’, na TV Cultura, ao ‘Altas Horas’, na Globo

Serginho Groisman: “Como manter um formato que vem desde 1990 até hoje é essa incógnita diária. A ideia, primeiro, foi como democratizar a televisão,  fazer com que o espectador pudesse vir ao programa de auditório e não ficasse só olhando, aplaudindo. Como fazer com que o espectador pudesse interferir no programa. E eu pensei que através das perguntas, das colocações, a plateia pudesse interferir, modificar o programa. Existem milhares de histórias de programas totalmente mudados a partir de opiniões, posturas, críticas da plateia ao vivo.

Só no SBT passaram 500 mil pessoas em 8 anos, são algumas gerações de pessoas que passaram e de alguma maneira não se esquecem. Ou porque era muito bom ou porque era uma grande porcaria.”

Fala, Garoto

Fábio Porchat: “Eu reassisti alguns Programas Livres, o SBT me deu alguns pra ver, dos primeiros, e é interessante que, além da modificação estética, o que é muito curioso, como programa, em 90, dava voz ao jovem, ao ‘fala, garoto’, é engraçado porque hoje em dia o garoto já fala, hoje em dia todos são arrobas, a plateia é formada por arrobas, o ‘fala, garoto’ da época realmente estava dando voz a quem não tinha e hoje todo mundo tem voz. Hoje a coisa é tão louca que as pessoas conseguem escolher a cor da gravata do William Bonner. O William Bonner fala ‘com que gravata eu vou?’ e você fala: ‘vai com a amarela!’. E ele vai. Você fala com o Obama. É claro que não é o Obama, é alguém respondendo por ele, mas você dialoga com o presidente dos Estados Unidos. Olha como aproximou. O ‘Fala, garoto’, que era tão distante, finalmente hoje as pessoas têm voz.

O SBT falou que queria fazer um Programa Livre, e eu falei: ‘mas daquele jeito não faz mais sentido’ porque já é a vida. A ideia que teve lá atrás foi inovadora porque estava dando voz a pessoas que não falavam. E hoje, ao contrário, as pessoas falam demais. As pessoas, parece que têm obrigação de falar, elas têm que ter uma opinião. Outro dia me ligou uma repórter e me perguntou: ‘o que você acha da crise na Grécia?’ Eu falei: ‘não faço a menor ideia’. ‘Ah, mas você não lê?’ ‘Leio, mas eu larguei Administração pra não ter que me preocupar com a Grécia’ (risos). Você tem que ter opinião sobre tudo. Não sei se as pessoas, inconscientemente se sentem obrigados a falar, só que é uma geração em que tudo é muito rápido, muito superficial. Você lê a manchete e nem tá aí pro texto.”

A Internet que afeta a TV

Porchat: “O público sempre afeta de um modo geral, mas as ideias todas sempre surgem do que está acontecendo ao redor. O público interfere porque ele vai me dando ideia o tempo todo. Com a internet, facilitou o approach das pessoas. Acho que hoje, o programa não tinha que ser ‘fala, garoto’, tinha que ser ‘fala um pouco menos, garoto’, ou ‘Ouve, garoto'”.

Serginho: “Se pautar pela internet tem suas vantagens e pequenos e grandes problemas também. Por exemplo, quando eu comecei no Twitter, veio uma banda, nem lembro… Quer dizer, eu lembro, mas… (risos). Eles lotaram minha página no Twitter. Eu falei: ‘Nossa, que poder que essa banda deve ter’. Eu chamei a banda. Foi um fracasso, a banda era ruim, ninguém assistiu. Existe, também, na internet, fãs… O Twitter nem sempre está ligado à audiência e frequência de televisão,. É preciso ter um pouco de filtro.

Porchat: “As pessoas, falando ali no Twitter, muita gente vê TV com o Twitter ou com o Face e o celular, é curioso porque a pessoa tá vendo TV, mas não tá. O que a internet fez foi: você tinha a Globo, 100%, os programas davam 80 de Ibope. Em 70, tinha voo que não saía pras pessoas verem o programa do Chico Anysio. Tinham 4 emissoras grandes e você só podia aparecer lá. A internet fez com que todo mundo tivesse o seu publicozinho ou publicozão (risos), você pode fazer um grande sucesso na internet e ninguém saber que você é. Estava no Rio um cara que escreveu um livro e juntou 70 mil pessoas na Bienal, as pessoas chegaram às 5h da manhã. Eu nunca tinha ouvido falar no cara, nunca tinha visto, não sabia quem era o cara que juntou 70 mil pessoas. Ele tem o publicozão dele, enorme, que funciona ali. Talvez se você botar ele aqui, talvez ninguém reconheça, ninguém olhe. Então, a internet acabou com esse negócio de ‘tem que estar na Globo’, ‘tem que estar na Band’. Você pode ter o seu público do tamanho que você quiser.”

Audiência, esse monstrinho

Serginho: “Eu tinha estado na TV, dirigindo e apresentando, na TV Gazeta, no TV Mix, que era uma TV regional. Depois fui pra TV Cultura, que também era estadual e daí começou a pegar no Brasil. E eu não tinha noção do que era audiência, eu não tinha ideia do que era audiência. Daí eu fui para o SBT depois de uma longa conversa com o Silvio, que me convenceu a ir pra lá. Eu fiz o primeiro programa. Levei a Hebe Camargo e levei o Ira, às 5 da tarde. Deu 10 pontos de audiência. O Silvio me ligou: ‘Serginho, oi, deu dez pontos de audiência’. Eu não sabia se dez era bom ou ruim. Se era 10 de 100, se era 10 de 10, e então todo mundo viu, eu não tinha ideia. E logo no outro dia deu 5, e no outro dia deu 4, e daí eu já mudei de horário na outra semana (risos). Eu acho que começou a se valorizar demais a audiência na televisão.

A audiência serve pra quê? A audiência serve para o o anunciante. O anunciante que se preocupava antes com a audiência, só. Não quer dizer que se o Gugu tá ganhando de não sei quem ou se tá perdendo, isso significa o quê? Que é melhor? Que é pior? O programa é melhor se ganha? Ou é pior se perde? Não é, às vezes não é, e também depende da gente, de cada um e de cada grupo. Eu, onde trabalhei antes, na TV Gazeta e na TV Cultura, eu era muito feliz porque os meus amigos me viam, me assistiam, outras pessoas que eu ia em determinados locais me assistiam. Quando vai tomando uma dimensão maior, quanto mais você vai pra um veículo maior, isso muda, mas ficar avaliando os programas em função da audiência, eu acho muito cruel. O jornalismo sobre TV também entrou muito nisso.”

Porchat: É, porque você reduz aquilo a número. Eu tive uma conversa outro dia com um diretorzão de um canal fechado e falei: ‘vem cá, e o programa é bom?’ Ele: ‘deu muito ibope’. E eu: ‘Mas eu quero saber se é bom’. ‘Ah, o público assistiu…’ Eu falei: ‘não quero saber, quero saber o que você acha’. Ele não conseguia dar uma opinião. E isso não quer dizer absolutamente nada. O Tá no Ar, que é um programa ótimo, da Globo, dá 8 pontos, e o Tomara Que Caia dá 15. Ou deu um dia (risos). E daí?

Serginho. “Você mesmo fez um programa no Multishow, o Tudo pela Audiência, e era aquilo mesmo. Os caminhos para a audiência não são difíceis, são até mais fáceis do que você buscar a não audiência.

Porchat: “É sempre o dinheiro. E a internet, ela ainda é fraca porque as pessoas não sabem ainda como usar a internet pra ganhar dinheiro. O cara quer botar anúncio na Globo, na Record, na TV. Mas se você for ver um programa que dê 6 pontos de Ibope, digamos que isso seja 6 milhões de espectadores. Um vídeo do porta dos Fundos dá 15 milhões de cliques. 15 milhões que foram lá e viraram. O que é melhor: anunciar num vídeo que tem 15 milhões ou num programa? Pelos números, você responde: nos 15 milhões. Mas não. Pra internet, o cara paga 10 reais e pra televisão ele paga 1 milhão. E tem essa cabeça. O YouTube tá fazendo essa campanha justamente pra perguntar: por que você está pagando 1 milhão pra televisão? É uma cultura que tá estabelecida. O ator tá fazendo um trabalho na internet, tá bombando. Aí oferecem pra ele fazer uma participação num quadro do Fantástico, ele vai correndo pra fazer. Ele não tem nada a ver com aquilo ali e nem faz nenhum sentido estar lá, mas a televisão tá na cara. O cara tem 50 mil pessoas na Bienal, mas não é sucesso, sucesso pra ele é aparecer na televisão. O anunciante é a mesma coisa: o cara quer anunciar no Faustão, no Altas Horas, não quer anunciar na internet.

Mas acho que no começo foram muito refratários com a internet. A Globo é a quinta maior emissora do mundo e não tem a maior internet do Brasil. Como é que é possível isso? Porque a Globo demorou 10 anos pra falar ‘ah, então vai ter internet mesmo’. Como é possível, a Rede Globo, que tem o maior jornal do Rio, a maior emissora, não ser a primeira?

O que eu acho é que a televisão tem começar a entender é que a internet não é mais dela, o problema é esse. Tem cinco ou seis emissoras de televisão. Se você joga a internet pra dentro desse baú, perde-se o controle da TV totalmente . É só a Band falar assim: ‘você quer anunciar aqui no CQC? Ótimo, 1 milhão pra anunciar aqui. Mas a gente vai veicular isso também na internet e você vai ter que pagar 2 milhões.’ ‘Não, mas eu não quero’. ‘Mas é o nosso pacote: quer ou não quer?’ E aí vai ter que começar a botar a internet nesse bolo. O problema é que a partir do momento em que você coloca a internet no bolo, você vai sentir a força disso e a televisão vai dizer ‘não anuncia só lá, anuncia aqui também’.

Serginho: “Eu vejo a Globo, agora, estando lá, se movimentando muito, muito muito muito, em discussões constantes, em autocrítica, crítica mesmo, um processo novo, diferente, que tá acontecendo aí. Hoje mesmo teve uma discussão, aqui em São Paulo, sobre programação. Então são feitos painéis. Hoje teve uma conversa sobre os sotaques paulistas por região, pra gente entender São Paulo a partir dos sotaques, dos hábitos, umas coisas bacanas que são feitas lá. Então, a televisão aberta tá atenta. Ainda a televisão tá muito preocupada com a TV a cabo, tá perdendo muitos espectadores para a TV paga, além da discussão para a TV paga. Mesmo a Globo, tendo a Globosat, tem uma preocupação, como TV aberta, de saber o que acontece com a programação. E tudo aqui no Brasil tá ligado a uma questão política e econômica também. Porque quando o país deu uma alavancada nos últimos anos, as pessoas tiveram um poder aquisitivo maior, foram pro cabo, o cabo também se popularizou rapidamente. Rapidamente, os filmes começaram a ser dublados, a gente começou a ter um humor mais popular, muito próximo da TV aberta, coisa que não existia antes. Quem tinha TV a cabo queria ver filmes sem interrupção, legendado. Hoje é difícil, tem que ir pro streaming, links pra Apple TV. Então, a própria TV a cabo começou a se aproximar muito também porque quem começou a comprar passou a exigir uma TV um pouco mais popular.

Agora, com essa questão econômica, o que a gente tá vendo é uma volta, pequena, do crescimento da TV aberta – falando em relação à TV fechada, porque depende muito dessa questão de poder aquisitivo, de poder comprar aparelhos. Pra poder ver internet também você precisa ter telefone, no mínimo, um tablet, também dá pra assistir YouTube, evidentemente que as coisas acontecem simultaneamente. O Porta dos Fundos é inquestionável, é uma coisa espetacular, maravilhosa, mas tem quantas produções semelhantes que dão tantas visualizações? Nãos são tantas assim.”

 

Para ver quando e como quiser

Porchat: “A internet fez você ser visto. Por exemplo: aquele seriado que passou na Globo, Doce de Mãe, que até a Fernanda Montenegro ganhou o Emmy. Passou na Globo no final do ano. Eu estava viajando e, quando voltei, falei: ‘quero ver’. ‘Não, já passou. Acabou. Não, não dá mais pra ver.’ Como é que não dá mais pra ver? ‘Ah, a Globo vai passar de novo semana que vem, uma vez.’ Tá louco? Não existe mais isso. A Globo começou a pensar isso há muito pouco temo. O importante é ser visto. O importante é ver o seu produto. Se é na TV, na NET, na internet, no Gatonet, não importa. Importa ser visto. Se o cara está vendo o seu produto pelo retuíte do Facebook de alguém, não importa. Se a pessoa gosta do programa do Serginho e vê pelo celular, pergunta: quando é? Sábado. O cara vai lá ver. Quem baixa Game of Thrones pra assistir tudo na internet, quando lança um episódio novo, o cara fica desesperado pra ver. O importante é que a gente tá falando de Game of Thrones. Pra HBO, o importante é o produto dela viralizar. Claro, e rentabilizar isso. Mas um produto que todo mundo tá falando, no Facebook, no gatonet ou retuitado, fica muito mais forte. E quando ela for negociar na televisão, ela pode dizer ‘meu produto é gigante’. Pode ter dado 2 pontos de ibope, mas ele é gigante.”

A câmera ao alcance de todos 

Serginho: “Hoje, você usa até um celular pra produzir e produzir ficção. Não tô falando só de documentar um acidente e isso viralizar ou ficar numa manifestação em tempo real através dos coletivos pra poder acompanhar o que está acontecendo. Hoje em dia, facílimo, não com o meu iPhone, velho, que já lançou o novo hoje, mas tem gente que faz ficção com uma qualidade muito boa, tá muito barato, não tô falando de dólar, mas é muito barato adquirir equipamento, comparando com o que era antes, adquirir uma câmera gigante. A câmera que eles têm aqui (aponta para a equipe da TV Estadão) é perfeita para o Porta dos Fundos.”

PorchatGroisman

O lixo da internet

Porchat: “O Porta dos Fundos, quando começou, usava uma 5D. É uma camerazinha peninica, com qualidade de passar na televisão. Todo mundo falou: ‘nossa, que qualidade no produto de vocês’. Eu sempre assisti muita coisa que passa na internet, só pra ver o que tá acontecendo. Eu diria que 80% é lixo absoluto, é horripilante. É ruim, não tem a menor graça, não tem nada pra dizer, é malfeito, é horrível. Acho que por isso também a internet ainda tá muito engatinhando porque o que se faz na internet não é tão relevante. Os casts de humor são horríveis, aqueles vlogs são horríveis, eles não sabem falar nada. A internet ainda é feita muita pra adolescente e pré-adolescente. O Porta dos Fundos foi um sucesso, inicialmente, porque sem querer querendo, a gente fez um humor adulto. Hoje, os adolescentes adoram, mas, quando começou, nosso público era de 25 a 40 anos. Não tinha nada na internet parecido pra dar risada, mas nem na TV tinha. Hoje, o Zorra Total acabou, mas, naquela época, as pessoas queriam rir e não tinha, era sempre a mesma coisa. Tudo do mesmo jeito. Então, foi um produto pra adulto.

“Eu fiz agora um programa de viagem, o Porta Afora, sofá de casa, bato papo, ficou bacana, ficou legal, ficou tão legal que alguém falou: ‘nossa, vamos vender pra TV, porque tá tão legal que tem que botar na TV’ (risos). Não! Tá tão legal, por isso é que tem que por na internet, entendeu? A gente só está conseguindo rentabilizar porque bota na internet, patrocina pra internet. Passa um tempo, a gente vende também pra TV. É uma outra forma de arrecadar.

Os episódios da série que nós estamos fazendo pra FOX, depois de um tempo, a gente vai disponibilizar todos os episódios no nosso canal. Não é tanto, não. Acho que é três meses depois de passar na FOX. A gente quer tudo jogar pra internet.”

Porta dos Fundos

Porchat. “Eu diria que a humanidade vai agradecer a gente porque eu tenho certeza que foi o Porta dos Fundos que fez o Zorra Total acabar. (risos) Quando a gente começou, a gente estava querendo fazer um tipo de humor que a televisão falou pra gente: ‘ninguém vai entender, não é  popular, é pra um nicho, pouca gente, não funciona’. Todos nós éramos da TV. Eu era contratado da Globo, o Kibe e o João também, o Ian também, todos os cinco. E os cinco saíram, foram se desligando com o tempo, pra fazer o Porta dos Fundos. E é engraçado porque agora a gente vai fazer 2 bilhões de visualizações, em 3 anos, e se isso não é popular… Por quê? Porque é uma preocupação com a audiência, com o ponto do Ibope, não é com a qualidade do produto. Quando a Globo faz hoje o Tá no Ar, que não dá audiência, dá 8 pontos, escondido lá na quinta-feira, à meia noite, é porque a Globo percebeu que estava ficando pra trás, ela percebeu que estava fazendo um tipo de humor que não estava batendo mais com o que é feito aí fora. Ela tomou um susto com o Porta dos Fundos. Quando ela falou ‘que merda é essa?’, a merda já estava no ventilador. E ela precisou juntar ali os dela e fazer alguma coisa. O Tá no Ar com certeza vem disso: a liberdade que eles têm, o jeito de fazer.”

O erro do humor rejeitado

“A gente fez uma primeira temporada do Junto & Misturado que passava depois do Globo Repórter, que é, rapaz… O Globo Repórter é uma muralha intransponível (risos). Você fala: hoje eu vou assistir’. Aí passa o primeiro intervalo, você vai ficando. Quando vai pro quarto intervalo, você diz: ‘agora acabou’ e aquilo volta com os pinguins (gargalhadas), pra querer ver tem que ser a sua mãe. Mesmo assim, minha mãe às vezes dizia: ‘ah, ontem eu não vi, que eu dormi’. Era um produto ousado pra época e esconder ele à meia noite meia das sextas feiras, depois do Globo Repórter… Como é que vai dar ibope? Não vai dar nunca. Então, é fácil jogar a culpa no Ibope. Não tô dizendo que se fosse quinta-feira, às 9, ia dar ibope, talvez também não desse. Mas o Junto e Misturado foi uma frustração minha, do Gregório (Duviver), do Ian (SBF), que escrevia também, de a gente fazer uma 2ª temporada, chegar a gravar e não ir ao ar. Foi uma grande frutstração pra gente.

Com o Shroder (Carlos Henrique Schroder, diretor-geral da Globo de três anos para cá), é outra coisa. O Schroder é um cara muito bacana. Ele fala: ‘eu não quero ter produto aqui que eu me envergonhe de ter. Eu não quero olhar e falar. ‘esse é o horrível’. Ele tá fazendo essa limpa lá.”

 

Liberdade, abra as asas sobre nós

Serginho: “Liberdade eu tenho. As escolhas são minhas mesmo. Eu entrava 1 da manhã. Quando eu entrei na Globo, eles falavam que eu ia entrar à meia noite. Eu comecei entrando à 1. Depois cheguei a entrar às 2h. Teve uma vez que entrei 2h30 e acabar às 4h30, quase que o Padre Marcelo agarra na minha mão e eu vou junto com ele (gargalhadas). Várias vezes, a gente acabou muito tarde, acho que ficava eu e sua mãe assistindo. Com o tempo eles viram essa nova postura. Eles tinham muito medo de o Altas Horas perder pra filme, na época era filme do SBT. Falaram: ‘vamos fazer um teste’. Fomos superbem, 12 pontos, superbem para o horário, e aí ficou. A gente tava muito colado com o Zorra Total. Acabava o Zorra, começava o Altas Horas. A primeira experiência foi um pouco fracassada, porque a coisa estava num tom alto e entrava eu, mais baixo. Então, a gente começou a fazer, deliberadamente, uma coisa que tivesse um pouco mais a ver com esse popular. Teve um programa que abria com o Sérgio Mallandro. Outro, abrimos com a Valeska Popozuda, era uma passagem. Agora, a gente chegou num equilíbrio. Amanha tem uma dupla sertaneja, o Marco e Belucci, com o Sepultura. O que todo mundo estranhou é que a gente teve um momento de aproximar público, porque se começa dando errado… Eu tive no SBT, Fábio, só pra você saber, 45 horários diferentes (risos). Eu comecei às 5 da tarde, dando 10 pontos, uma semana depois já estava 4,5. Aí começou 4h30, 4h15, sábado de manhã também, domingo, segunda à noite, terça, no lugar da Hebe, era uma zona, mas não tenho reclamação. Fui conhecendo todas as faixas, de manha até a noite. Aqui, pra não mudar 45 vezes, fui afinando um pouco.”

A TV linear vai sucumbir?

Porchat: “As televisões ainda têm duas coisas fortes que são jornal e eventos ao vivo. Televisão é imbatível pra isso. Caiu o prédio, você liga a TV pra ver o que está acontecendo. Não tem um streaming ao vivo ali na internet. A televisão ainda tem essa força. Se o rádio não acabou, quando chegou a televisão, a televisão não vai acabar por causa da internet. O que eu acho é que a internet no Brasil ainda é muito fraca, de conteúdo, de formação, as pessoas ainda estão descobrindo como usar a internet.

Uma coisa que a gente instituiu no Porta, logo no começo, é que toda terça e toda quinta de manhã teria vídeo novo, a gente criou uma ordem que ficou na cabeça das pessoas. A diferença, de três anos pra cá, é que no primeiro ano aquilo era meio ‘o último capítulo de novela’, do tipo ‘Você viu o vídeo do Porta hoje? Tem que ver!’ Hoje em dia, a gente tem até mais visualizações, 60 milhões por mês, só que agora as pessoas não comentam mais, um a um, elas assistem a uns dez de uma vez só. Mudou o jeito de assistir o nosso canal. Tudo é uma constante mudança. Dentro do nosso nicho, as pessoas mudam a forma de ver, o que dirá a televisão, com a entrada da internet? Mas o dinheiro está com as emissoras. Elas têm os anunciantes, têm dinheiro e, enquanto isso estiver acontecendo… A gente, por exemplo, Porta dos Fundos, lançou o Porta Afora. Por que não lança também não sei o que mais? Porque não tem dinheiro. O Porta Afora foi patrocinado. Tem que conseguir patrocínio pra essas coisas. A televisão já tem dinheiro e produz em larga escala, pra depois oferecer ao patrocinador. A internet ainda não tem dinheiro pra produzir dessa forma e ainda não tem a qualidade humana pra conseguir fazer como a TV.

Serginho: “Hoje, tem muita gente que assiste TV, mas não no aparelho, a gente tá em qualquer lugar, no ônibus, no tablet, a própria TV aberta é assim, e o aparelho de TV, hoje, não é só de televisão, hoje você compra pra ver Porta dos Fundos, pode dividir a tela e ver dois programas. Hoje já é o amanhã. Muito difícil a gente prever que a TV possa acabar, assim como o jornal. Com essa difusão, empregos diminuem, páginas diminuem, papel se torna mais caro, tudo tá em crise: a TV, o jornal, a revista, o livro, no sentido da visualização.”

Porchat: “E a gente tem uma coisa aqui no Brasil: a internet ainda é muito ruim. No Norte, no Nordeste, não tem tanta internet como tem aqui. Isso tudo prejudica. O Porta Afora tem 20 minutos. A coisa mais chata é apertar o Play do celular e ficar rodando aquele negócio, que inferno! Deixa carregando e vai fazer suas coisas. Eu não quero ficar vendo tudo de soquinho. A internet, a velocidade da banda larga não colabora.”

Serginho: “A TV aberta ainda é a opção mais barata de diversão. Você compra aquele aparelho, paga em  não sei quantas vezes e fica assistindo gratuitamente, gratuito entre aspas.”

Canal no YouTube é cartão de visitas

Porchat: A internet aproximou atores e atrizes de produtores de elenco, das emissoras. Se você desponta na internet pra alguma coisa, tem mais chance de ser visto. Antes, você tinha que fazer uma peça, torcer pra alguém te ver, gostar e te levar para um teste. A internet é mais parecida com a TV do que o teatro é com a TV. O teatro pode ser maravilhoso e ver teatro na TV é horrível. Então, a plataforma (internet) é mais similar à TV.”

Serginho: “De qualquer maneira, a gente tá hoje aqui, não por Skype, como poderíamos estar. Vocês vieram, nós viemos, muita gente veio de longe, porque tem esse negócio que o teatro tem também, esse contato, essa conversa, essa respiração. Ainda tem uma mistureba boa do presencial, do afetivo, que é muito importante.

Porchat. “Isso é insubstituível, o estar aqui ao vivo. Se a gente filma isso e bota na tela, já não é isso. Já é uma outra coisa. Teatro filmado não existe. Ou é teatro ou é filmado.

As pessoas falaram: ah, vocês foram pra internet porque lá teriam liberdade? Eu digo: ‘Não, fui pra internet pra fazer a minha emissora. Se eu tivesse uma emissora de TV, eu faria lá. Eu não tinha. Ali eu posso ser dono do meu próprio material. E não tem mais liberdade na internet. Eu não posso botar mulher pelada no meu vídeo. O YouTube tira o vídeo do ar. Mas na TV pode. No Tudo Pela Audiência pode tudo. Esse programa é muito curioso porque muita gente odeia. ‘Como Tatá Werneck e Fábio Porchat podem se rebaixar a esse nível?’, disseram. ‘E, na semana seguinte, fomos indicados para a APCA (prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Artes). Maurício Stycer escreveu três colunas falando que o programa era horrível, e eu disse: ‘já entendi que você não gosta’ (risos). É muito engraçado, esse programa é muito polarizado.

O que eu mais recebo dos atores, hoje, não é cartão, é o endereço do canal dele no YouTube.”

Anunciante X Criação

Serginho: “A relação do anunciante com a TV é não só números, mas qualidade também. O anunciante também é uma incógnita, o que a gente chama de anúncios de qualidade são de grandes empresas, que têm o poder de fazer um bom comercial, mas, de qualquer maneira, o anunciante é muito presente na programação também. Ele é que determina uma série de coisas. Inclusive, o poder público – o governo, a presidência, o estado e a prefeitura são grandes anunciantes e anunciam também por interesses circunstanciais. Eu não sinto uma pressão ou qualquer intereferência do anunciante na programação.

Eu trabalhei na TV Gazeta, na Bandeirantes, rapidamente, na TV Cultura, SBT e Globo. Eu sei de uma história em que o jornalismo optou em não fazer determinada matéria porque o anunciante daquele jornal tinha um interesse muito grande em não divulgar aquela reportagem. Deve existir. Quando a gente fala de liberdade, toda liberdade é um pouco relativa também. As pessoas falam pra mim: ‘faz o que você quer’ porque elas sabem o que eu vou fazer. Sabem quais são meus critérios, quais são minhas atitudes, eles vão deixar, mas, às vezes, não. Às vezes desafina o coro dos contentes.”

Porchat: “O Ian tem uma frase, desde o início do Porta, que é: ‘a vida tem marcas’. Você bebe Coca-Cola. Você não fala ‘bebi um refrigerante’. Você fala: ‘bebi uma Coca’.  E é uma coisa que na televisão não pode. Você não pode falar marca. Uma coisa é estar no meio de uma cena e dizer ‘essa água tal é um lixo’. Outra coisa é beber a água no meio da cena e a marca aparecer. Então, desde o início, a gente fala, no Porta dos Fundos: ‘a gente não vai cobrir marca nenhuma’. O que tiver que ter vai ter. As pessoas falam: ‘olha, que comercial do azeite Galo!’ Aí, fui ver a cena, no fundo da mesa tem um azeite Galo. Não existe marca por causa de novela da Globo, e quando as pessoas vêm uma marca, tomam até um susto: ‘meu Deus, uma marca!’ (risos). O nome na latinha, o Na Lata, é o vídeo mais visto nosso. Um monte de latinha atrás, e não é pago. Nem eles pagaram nem a gente pediu autorização pra fazer. A gente simplesmente fez um vídeo sobre a Coca-Cola e pronto. Se você pergunta – e não é a Globo, é qualquer emissora -, ‘vem cá, posso fazer?’ A resposta será sempre ‘não’. Tem que fazer e depois, se der qualquer problema, você diz: ‘ihhhh, eu não sabiaaaaa que não podia!’ (gargalhadas). O jurídico, eu nem sei por que é que ele ganha, porque podia me pagar a mesma coisa pra eu dizer sempre ‘não’. Claro, hoje a gente tem patrocinador. A Coca-cola, por exemplo, é um patrocinador hoje. Posso ter um esquete em que eu sacaneio a Pepsi? Posso, mas aí fica quase que antiético. O cara é patrocinado pela Coca e sacananeia a Pepsi? Aí, é mole. A gente até evita de sacanear a Pepsi agora. Até tem um vídeo do ‘pode ser’, rapidinho, em que a mulher pergunta ‘pode ser Pepsi?’, e eu digo ‘não’. A gente fica mais preso.

Em relação aos anúncios que a gente faz comercial, às vezes vem a Ford, quer fazer o comercial do Ford K, ela passa pra gente as diretrizes – ‘a gente quer falar que o carro agora tá mais barato e tem mais isso e aquilo’. Tá bom. E a gente cria o texto. Claro, a gente não é louco de falar que ‘Jesus está estuprando Maria Madalena e aí nasce um africano assassino que explode um Ford K’ (gargalhadas)’. Não queremos isso, mas a gente faz do nosso jeito. Tem três possibilidades de texto. O cara não gostou de um, não gostou de outro nem do outro, tá ótimo, ele paga pra gente um xis pelo trabalho e a gente encerra ali. Porque muita gente acha que quer fazer um vídeo com o Porta dos Fundos, mas não quer. ‘Ah, eu quero um vídeo do Porta!’. ‘Tá bom, então a gente vai fazer’. ‘Ah, mas não pode falar de religião, não pode falar de política, eu quero que a logomarca apareça…’ Aí já é uma propaganda: contrata uma agência, que ela vai saber fazer isso muito melhor que eu. Não sei fazer propaganda, sei fazer vídeo de humor. A gente tem liberdade, o anunciante nem vai no set de filmagem pra não ter perigo. Se ele vai, quer virar a garrafa mais pra cá, mostrar mais ali, começa a interferir. É um inferno. No cinema tem muito isso. Lá, a gente faz do nosso jeito.  E vai ficar pra sempre, na internet. Não posso fazer uma coisa só por ser. E a gente fala para os anunciantes: vai ser ruim pra gente e pra eles. Se ficar ruim, vão dizr: ‘Olha lá, tá vendo, a marca xis? Acabou com o Porta dos Fundos!’. A gente fez agora uma ação com a ONU, que chamou a gente pra fazer três vídeos de três das sete metas que a ONU lançou. Eu escrevi. Um tema é racismo, outro é corrupção e outro, sexismo, e falar de racismo rindo disso, mesmo a ONU leu e falou que tava legal. Mandamos pra Londres, pro Richard Curtis ler, e ele falou ‘tá legal’. O do sexismo também é bem pesado.

Qual o limite do humor?

Serginho: “Qual é o Limite do humor? Quando surgiu o stand up, com muita força, essa pergunta virou um mantra. Ninguém mais faz, ficou batida. Hoje, as pessoas, com todo o direito, se sentem ofendidas, elas têm o direito e até o canal, a internet, sua rede social, pra se manifestar.

Porchat: “O vídeo Pena (publicado recentemente pelo Porta dos Fundos, criticando o judiciário que facilita punições aos ricos e castiga pobres e negros), acho que poderia sim passar na televisão, no Tá no Ar. A questão é que na internet, você assiste a um vídeo às 10h da manhã, com a Júlia (Rabelo), o Na Mesa, falando tudo aquilo. Esse vídeo, só poderia passar na televisão à meia noite. Então, a ideia de que a internet é mais livre é porque você assiste o que você quiser, a hora que você quiser. Você vê um vídeo como o Pena a qualquer momento, em qualquer lugar. E talvez não pudesse entrar às 6 da tarde, depois de Malhação. Tem esse limite, é muito particular. Quando a gente fez o vídeo do Spoletto, não tinha o nome e não foi gravado no Spoleto, porque a gente ficou com medo que eles ficassem putos. Mesma coisa o vídeo da Judith: eu não falo ‘TIM’, só estou pintado de azul (gargalhadas) Não precisa. É até legal. É nisso que você consegue burlar.  O vídeo tem 20 milhões e a lei que o governo tá fazendo chama ‘deu, Judith’. Por não poder, criei uma coisa muito mais legal, às vezes é bom ter um obstáculo no meio.

A gente tem sempre uma reunião de texto, se tiver um assunto mais delicado, a gente presta mais atenção. A gente fala de racismo, religião…”

Como passou para o lado de lá da tela?

Serginho. “Eu apareci tarde na televisão, não fui a Maysa nem a Bruna Marquezine, que começaram pequenas. Fiz muitas outras coisas antes de fazer televisão. Eu li bastante, promovia os shows no Colégio Equipe, que vai virar documentário… Quando cheguei a televisão, cheguei muito tranquilo. Eu acho inacreditável apresentadores desinformados. Não é porque apresenta um programa infantil que tem que só saber de criança, não é porque apresenta um programa de culinária que tem que saber só de alimentação. Porque uma hora vai um cara lá fazer um pão sírio e você tem que saber o que está acontecendo na Síria. Tem que ter uma certa responsabilidade. No Brasil se lê muito pouco, é inacreditável que não se leia no Brasil, tem pouca formação crítica, por isso temos tantos programas desiguais na televisão e na internet.

A postura de quem apresenta um programa e pode fazer um editorial. Eu também dou opinião sobre várias coisas, mas eu sei onde eu estou, eu sei o poder da palavra, eu tento não ser protagonista no programa. Se você reparar, a iluminação do Altas Horas não privilegia ninguém. Ela é igual pra mim, para os convidados, para a banda. Eu acho muito importante dar a palavra para as pessoas e até enxergar nelas o que eu quero dizer, mas não privilegiar, porque o conflito de interesses e de posturas é que vai levar o espectador a uma conclusão. Ou avaliar o que ele pensa ou fazer ela mudar de ideia. Acredito muito no poder de fazer as pessoas mudarem de ideia. Por isso é que eu trabalho muito com essa faixa etária, que é a fase melhor para se muda de ideia. Com bom argumento. Depois, as pessoas ficam velhas e ficam chatas” (risos).

 

 

FOTOS DE TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO