ESPN trata caso Trajano X Gentili internamente

Cristina Padiglione

30 de maio de 2016 | 16h20

Nem José Trajano foi demitido, como esperavam uns e outros, nem Danilo Gentili e Rafinha Bastos deixarão de compor os programas da ESPN, como convidados, quando a direção achar necessário.

Procurado pela coluna, o canal já tinha pronta uma nota sobre o episódio que motivou a ira de Trajano:

“A ESPN sempre foi um canal reconhecido por sua credibilidade e independência jornalística, respeitando a pluralidade de opiniões. Nossos programas seguirão com total autonomia para convidar nomes externos ao canal e todas as questões relacionadas aos nossos profissionais serão discutidas internamente.”

Na última sexta-feira, no programa Linha de Passe, Trajano protestou contra a presença de Gentili, e estendeu a queixa a Rafinha, em programas da ESPN. Apoiou-se em um tweet antigo do apresentador do SBT para acusá-lo de endossar a cultura do estupro, acusação que caberia também a Rafinha, por ter dado espaço a Alexandre Frota no extinto Agora é Tarde, da Band, quando Frota relatou um trecho de seu “show”: o estupro a uma mãe de santo.

Disse Trajano na sexta: “Quero representar aqui um grupo da ESPN que me tornou porta-voz desse protesto que vou fazer aqui, porque o canal abrigou nesta semana um personagem engraçadinho que se posta como se fosse um sujeito que faz apologia do estupro, em nome do humor, dizendo que no humor cabe tudo. Esse grupo ficou irritado, ficou enojado com a presença dele. E o outro engraçadinho também já participou de transmissões aqui da NBA. Eu tô representando esse grupo. E foi convidado talvez por um descuido da produção, uma produção alienada e não comprometida com o que acontece no país, justificando a pecha muitas vezes que jornalista esportivo tem de ser um sujeito alienado, e por fora o que acontece no país. Acontece. Eu tô falando isso tudo aqui pra que a gente não saia na rua amanhã e seja confundido com o pensamento dessa gente, que eu e esse grupo abominamos”.

Gentili esteve no Bate-Bola, da ESPN, na terça. Rafinha participou como comentarista convidado de jornadas de playoffs da NBA e, a convite do canal, acompanhou o último Super Bowl com a equipe da ESPN, nos EUA.

O tweet de Gentili data de 17 de janeiro de 2012. Não que seja um comentário do qual alguém deva se orgulhar, mas o contexto da publicação de fato nada tem a ver com o episódio da menor que foi violentada por 33 homens no Rio de Janeiro, caso que vai se tornando emblemático para a mudança da cultura do estupro. Disse Gentili na ocasião, lá em 2012. “O cara esperou uma gostosa ficar bêbada pra transar com ela. Todos sabemos o nome que se dá pra um cara desses: Gênio”.

Agora, Gentili foi às redes sociais se defender. Explicou que o comentário que tentaram fazer parecer novo foi feito em tom de chacota às estratégias do BBB para gerar repercussão em torno do programa, que, naquele ano, em 2012, lidou com uma acusação de estupro dentro do confinamento promovido pela Globo. No sábado, Gentili publicou sua defesa no Facebook:

“Ontem, retiraram de contexto um post meu de 2012, em que eu ironizava mais uma das estúpidas polêmicas do Big Brother, e o publicaram como se fosse um comentário a favor do estupro da menina do Rio de Janeiro, ocorrido nesta semana, em 2016, portanto. Conseguiram o que queriam: a ira e o repúdio de muita gente contra mim…É assim que funciona a máquina de moer reputações. E você, que está lendo isto agora, paga por ela… O militante petista Trajano, usando seu distintivo de jornalista, ontem me acusou na televisão de um crime que jamais cometi (e com certeza jamais cometeria). Ao contrário do que esse povo diz, eu não acho que todo homem é um estuprador em potencial, pois eu sou homem e abomino o estupro”. Aqui, a íntegra do manifesto do humorista no Facebook