Eleitor desvia confronto na sabatina da Globo

Cristina Padiglione

30 de outubro de 2010 | 01h07

Ao propor que as perguntas dirigidas aos candidatos sejam feitas pelos eleitores ali presentes, e não pelo mediador ou de um adversário a outro, o debate da Globo veste um formato que propicia o não confronto.
Mas, claro está que isso, por si só, não se basta como diagnóstico capaz de explicar o grau de civilidade extraordinária (porque jamais antes visto na história desta campanha) entre Dilma Rousseff e José Serra no programa recém-encerrado pela Globo.
Em debate da Globo, não há quem não pise em ovos. A massa alcançada na ocasião recomenda que toda cautela seja pífia na emissão de cada palavra. Além e além do que cá já foi dito, é a última chance de mandar algum recado em larga escala para seduzir eleitores de todo canto e espécie. E, em eleição, perdão, mas o dito popular se inverte e é a última impressão aquela que há de ficar.
Muito sutilmente, Dilma citou uma máfia de sanguessuga aqui, Serra mencionou um escândalo de aloprados ali.
Foi um festival de cinismo, vá lá, ainda que ao final da sabatina, segura de seu controle emocional, a candidata tenha se permitido concluir que foi “uma campanha dura”, tendo se chateado com “calúnias” a seu respeito, difundidas via internet, panfletos e até telefonemas, disse.

William Bonner nem endureceu nem perdeu a ternura. Foi mediador sem cara trancada, mesmo sendo incisivo na tarefa de encerrar a fala de cada candidato, quando o tempo vencia (e sempre vencia). Permitiu-se engrossar risos da plateia quando a petista atribiuiu ao relógio, e não a ele, a culpa por uma falha no cronômetro. Aplaudiu junto com os presentes ao final e, o principal, não pronunciou a falível frase de todo mediador de debate (“eu pediria à platéia que não se manifestasse”). Ora, ora, já que as torcidas sempre se manifestam, Bonner, espertamente, interpretou o feito como uma celebração à contribuição da ocasião para a democracia. Fez o simpático e escapou do papel de tio desobedecido.

A audiência respondeu com25 pontos no Ibope, segundo dados preliminares na Grande São Paulo, onde cada ponto equivale a 56 mil domicílios.