O que é isso, companheiro? Amor ou revolução?

O que é isso, companheiro? Amor ou revolução?

Cristina Padiglione

06 Abril 2011 | 16h21

Sim, todo início de novela pede algum didatismo, coisa de produto de massa, disposto a se fazer entender por ABCDE.

Amor & Revolução pedia didatismo extra, com datas estampadas na tela, diálogos óbvios para alguns e de pouca familiaridade a outros. O caso é que não é didatismo de estreia o fator que mais doeu aos ouvidos e emoções da plateia do lado de cá. O modo quase fake de pronunciar diálogos parece estilo pronto para ficar em cena, a não ser que alguma boa alma se disponha a preparar melhor alguns atores antes de suas cenas, o que é pouco provável, visto que novela demanda ritmo industrial e não oferece prazo para tanto.
Também não é problema válido a todo o elenco, mas é latente no casal central, Cláudio Lins e Graziella Schmitt.
Com um adendo no caso do mocinho: como falta-lhe comoção, benza-deus! O sujeito se depara com o cadáver da namoradinha, cravejado de balas, e reage com a fúria de um jabuti. Não move um músculo, não se choca, não chora, não tem um “ai” de dor. É militar, diriam, e não caberia tal fraqueza no caráter fardado. Mas o texto não indica que ali haverá alguém conformado com o caso. Ao contrário. O personagem promete investigação, defende a inocência da moça em movimentos comunistas e ainda a trata, o que é risível para o uniforme ostentado em cena, como “minha companheira”.

O que é isso, companheiro?

Digo tudo isso porque a ausência da direção de atores é algo que salta aos olhos numa produção tão bem acabada como esta Amor & Revolução. Há finalização, há script folhetinesco, há uma iluminação que as novelas da Record jamais conseguem prover. Por que diachos pecar justo na arte de interpretar?

O primeiro capítulo bateu nos 7 pontos de ibope, mais do que vinha registrando Ana Raio e Zé Trovão (exceção feita à reta final, claro, que chegou aos 8 pontos) e mais do que a última novela de dona Íris Abravanel na emissora.

É ver agora se o público digere as cenas de tortura que ainda estão por vir. No capítulo inicial, já se viu o estrago na caça aos comunistas, com tiros, babá sangrando, crianças sequestradas. Virão ainda choques elétricos, afogamentos e mais um pouco.
Disse-me o autor, Tiago Santiago, que as sequências de violência não serão praxe no conteúdo, mas o primeiro capítulo caprichou em pirotecnia (como convém a todo primeiro capítulo de novela), munição e sangue.
O assunto é árido, mas necessário à memória de todos nós, e por mais folhetim que isso seja, Santiago aposta na sedução de universitários, estudantes de outros níveis e de todos que de alguma forma se envolveram com os anos de chumbo, direta ou indiretamente.
Oxalá.
Como costumo dizer em produções dispostas a contar História do Brasil, se o espectador duvidar do que lá está, tanto melhor: é uma isca a mais para estudar e conhecer o assunto, que diz respeito a todos nós.