Dizem que Roque Santeiro era tudo aquilo e muito mais

Dizem que Roque Santeiro era tudo aquilo e muito mais

Cristina Padiglione

06 de abril de 2014 | 13h59

 

Protagonista que entra quase no meio da novela houve um só, e foi Roque Santeiro, até ali dado como morto na história. Mito tratado como santo que teria morrido defendido a cidade de Asa Branca, o personagem de Dias Gomes requeria alguém capaz de cativar a atenção de uma plateia que àquela altura já estava completamente seduzida por Lima Duarte, o Sinhozinho Malta, e Regina Duarte, a Viúva Porcina.

José Wilker fez valer a missão. Censurada em 1975, Roque Santeiro teria não ele, mas Francisco Cuoco como intérprete do herói na versão original. E, como todos os papéis relevantes que fez, como dizia, Roque lhe caiu no colo por acidente, em 1985.

Quase todos os depoimentos ouvidos desde ontem sobre Wilker, por seus colegas, apontam o humor refinado como característica latente. Sabia fazer rir, sem necessidade de claque e caricatura. Era quase o mesmo sujeito em todo papel, sendo sempre absolutamente distinto em cada um.

Só em novelas, esteve em quase 30 títulos na Globo.

Foi Giovani Improtta (Senhora do Destino, 2004), dono de bordões “felomenais”, que rendeu filme no cinema.

Foi Demóstenes Maçaranduba (Fera Ferida, 1993), quando fazia a cama arder em chamas, ao se deitar com Rubra Rosa – ambas de Aguinaldo Silva e em bom dueto com Susana Vieira, com quem também fez par em Anjo Mau (1976).

Mas foi também gente séria, como Mundinho na primeira Gabriela (1975), seu primeiro protagonista na TV. Mocinho de Jorge Amado dirigido por Walter Avancini, passava a novela toda lutando contra o coronelismo, para ser, no final, o coronel de quem beijarão as mãos. Em 2012, voltou à segunda versão de Gabriela (2012) para ser o coronel do mal Jesuíno Mendonça, um aparente coadjuvante que roubaria o foco do enredo com o bordão “Eu vou lhe usar”, dito à submissa esposa vivida por Maitê Proença.

Da safra de coronéis malvados fica ainda a lembrança do temido Demiro Gouveia, de Renascer, antagonista do fazendeiro do bem, José Inocêncio, interpretado por Antônio Fagundes. Os dois fariam novamente as vezes de adversários, então como irmãos, em Insensato Coração (2011), novela em que Wilker teve breve participação.

Também não era flor que se cheirasse em Anos Rebeldes (1992), quando seu Pedro Lomagno er um empresário capaz de causar repulsa na filha guerrilheira (Cláudia Abreu) e na mulher (Betty Lago).

Em A Próxima Vítima (1995) fez valer a fama de sedutor, como o bígamo Marcelo: era casado com Tereza Rachel, por interesse, era amante de Susana Vieira, mãe de seus três filhos, e da sobrinha, vivida por Cláudia Ohana.

Assim como Roque Santeiro, carregaria novamente o personagem título em JK (2006), minissérie de Maria Adelaide Amaral em que foi Juscelino Kubitschek na fase final da biografia do ex-presidente.

Quando o humor cínico dava lugar ao riso escrachado, seu lugar era atrás das câmeras, como aconteceu na direção do Sai de Baixo, sitcom de longa carreira que ele dirigiu em revezamento com Dennis Carvalho na Globo.

Entre um set e outro, passou a ser figura já esperada pelo telespectador nas transmissões do Oscar, função que inspirou uma das melhores imitações vocais do humorista Marcelo Adnet. O confiável timbre do ator e diretor como narrador, aliás, é um dos pontos altos dos episódios de A Vida Como Ela É (1996), série baseada na obra de Nelson Rodrigues, com direção de Daniel Filho.

Wilker era aguardado na próxima novela das 9, Falso Brilhante, por Aguinaldo Silva, autor que lhe deu Giovanni Improtta e que roteirizou Roque Santeiro, entre outras novelas onde ele atuou.

Pena que seu último papel na TV tenha sido o insosso médico Herbert Marques, da última novela das 9, Amor à Vida, de Walcyr Carrasco. Merecia despedida mais digna da farta galeria de bons personagens que vestiu na TV.

Mas o Jornal Nacional que anunciou a morte do ator e diretor conseguiu superar o mico de Amor à Vida. O noticiário promoveu uma despedida bem pior ao cobrir com uma tarja preta as nádegas de Vadinho, na clássica cena do final do filme Dona Flor e Seus Dois Maridos, ao lado de Sônia Braga. Pudor descabido para uma imagem clássica, vista por milhões de pessoas nos cinemas, parte da história da nossa cultura, de Jorge Amado à família Barreto.

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