Da impunidade à punidade parcial: ‘Vale Tudo’ X ‘Babilônia’

Da impunidade à punidade parcial: ‘Vale Tudo’ X ‘Babilônia’

Cristina Padiglione

29 de agosto de 2015 | 10h31

Babiloniafinal

(foto: Tata Barreto/Divulgação)

Final que virou referência para a teledramaturgia nacional, terreno onde vilões que não morrem acabam por se redimir e quase todos os finais são felizes para sempre, o desfecho de Vale Tudo, de Gilberto Braga, em 1989, foi marcado pela banana que Marco Aurélio (Reginaldo Faria) dá ao Brasil, naquele gesto de braços, diretamente da janela de seu jatinho particular, ao fugir do País. Marco Aurélio era o empresário corrupto da vez. Saiu impune.

Em 2011, em Insensato Coração, assinada por Gilberto Braga e Ricardo Linhares,  quando Horácio (Herson Capri) tenta fugir do Brasil dando a mesma banana da janela do jatinho, opa, um par de algemas imediatamente se atrelou aos seus pulsos e o recado era: 22 anos depois, o Brasil já não aceita mais impunidade.

Durante nossa conversa para uma entrevista ao Estadão, um mês antes de Babilônia estrear, Gilberto Braga reafirmou que o País não aguenta nem aceita mais a impunidade que livrou a cara de Marco Aurélio, ladrão que roubou os cofres de Odete Roitman (Beatriz Segall) e sonegava impostos.

Mas o final de Babilônia,  neste 2015 repleto de delações premiadas e empreiteiros algemados, não foi nem tanto a Vale Tudo nem tanto a Insensato Coração. É certo que o Brasil de Babilônia assistiu a algumas punições, de Otávio (Herson Capri, de novo ele), que matou Murilo (Bruno Gagliasso), a Aderbal Pimenta (Marcos Palmeira). o político que assaltou os cofres públicos. Mas, efetivamente, para a maioria dos malvados que não tiveram a “sorte” de Beatriz (Glória Pires) e Inês (Adriana Esteves) (protagonistas de um final à Thelma & Louise às avessas, onde o precipício foi obra de acidente pelo rancor entre as duas, e não ato voluntário de amizade), bem, para esses, quase nada mudou.

Guto (Bruno Gissoni) e Pedro (André Bankoff) terminam contando punhados de notas de dinheiro de corrupção que lavam por meio da boate. Arrematam dizendo que corrupção é um excelente negócio. Já o posto perdido por Aderbal continua sob sua alçada, já que a mãe, dona Consuelo (Arlete Salles), era candidata a vice na sua chapa e ocupou a cadeira do governo do Estado do Rio de Janeiro quando o filho foi preso. Sim, assim como tantos políticos que não saem do noticiário por evidências de corrupção e mesmo assim são eleitos, Aderbal também venceu as eleições. Quem diria que isso é coisa de novela? Basta olhar para José  Robertos e Fernandos da vida real para saber que não, infelizmente isso existe e é possível, até com frequência.

Babilônia crava assim uma terceira via nos enredos gilbertianos. Nem se rende à impunidade total de Vale Tudo nem à ilusão da punidade absoluta de Insensato Coração. O recado da vez, triste, é que a punição funciona mais como obra de fachada – pune-se para se deixar tudo como está. E não é para todos.