Caetano distingue passeatas de 64 e 68 de momento atual

Caetano distingue passeatas de 64 e 68 de momento atual

Cristina Padiglione

19 de março de 2016 | 02h27

Gil

Caetano e Gil estiveram na gravação do Altas Horas, de Serginho Groisman, na tumultuada quinta-feira, dia 17, quando uma espectadora da plateia quis saber, dos dois, se havia paralelos entre as passeatas do passado vivido por eles, na pré-ditadura, e as manifestações atuais.

Caetano foi quem respondeu. Ponderado, mencionou que desde 2013 há uma série de manifestações em curso.

Lembrou que o Brasil é um país de desigualdades imensas, como havia acabado de mencionar o cantor Emicida, que passara no palco poucos minutos antes. Emicida cantou um antigo sucesso de Gil e Caetano, Haiti, do disco Tropicália 2, 1994. “Infelizmente”, disse o rap, “isso continua muito contemporâneo”. “A gente queria que algumas coisas ficassem no passado, mas elas não passam”, concluiu, sobre a letra da canção que fala sobre a opressão a pobres e pretos no Brasil, como no Haiti.

“São coisas diferentes”, iniciou Caetano. “A gente participou de um movimento para uma possível volta da democracia (nos anos 60). Grande parte da esquerda também não gostava do que a gente fazia. Agora, fico olhando, os acontecimentos estão se atropelando. A gente tem que parar e ver direito, pensar, nem sempre conseguimos. Não é fácil. (…) O Brasil é um país desumanamente desigual, como disse agora há pouco o Emicida, e toda movimentação no sentido de se libertar dessa tentativa de diminuir a desigualdade, eu desconfio. A manifestação de domingo, pra mim, não reconheci nela a passeata dos 100 mil, da qual nós participamos, e não era suficientemente diferente da passeata pela Família, com Deus, que apoiou o golpe de 64”.

O cantor e Gil falaram, em outros momentos, sobre canções compostas no exílio, por eles e para eles – como Debaixo dos Caracóis, que Roberto Carlos fez para Caetano.

Diante dos dois, Rodrigo Santoro e Rony Ramos, convidados do dia, assistiam a tudo embevecidos – em especial, Santoro, que ao final, agradeceu a Serginho pela oportunidade de passar o programa todo testemunhando Caetano e Gil tão de perto. “Vou levar isso pra minha vida, nunca vou esquecer”, disse.

Santoro explicou que o cabelo encrespado de seu personagem, Afrânio, nesse início de Velho Chico, nova novela das 9, foi inspirado nos cabelos que Caetano usava naquela época, final dos anos 1960. “Eu gostei, fiquei só reparando nos cabelos”, reagiu Caetano, após a exibição de um clipe da novela.

Serginho lembrou, no início do programa, que Santoro, quando esteve no Altas Horas pela primeira vez, acabou cantando Love Me Tender, uma música que marca sua memória afetiva. Após a exibição da cena, o apresentador pediu que ele cantasse mais uma vez. Santoro resistiu bravamente. Disse que não faria isso diante de Gil e Caetano. Mas, instigado pelo filho de Dona Canô, que disse ter adorado ouvi-lo cantar, acabou repetindo a dose, quase ao fim do programa.

A edição conta ainda com participação de Alexandre Pires, que cantou Vamos Fugir, diante de Gil, e de Baby do Brasil, com seu filho Pedro, que homenageou os baianos veteranos com Menino do Rio, hit na voz dela, composto por Caetano.

O program ai ao ar no próximo sábado, dia 26 de março e foi encerrado por um Caetano serelepe, que se levantou da cadeira para coreografar seu sambinha de passos curtos.

 

 

FOTO: REINALDO MARQUES/DIVULGAÇÃO GLOBO