Bicho-papão

Cristina Padiglione

12 Fevereiro 2007 | 01h31

Alô, vamos tentar de novo falar em classificação indicativa sem dar bandeira de que o negócio tem DNA de bicho-papão:

_ Classificação indicativa não se destina a PROIBIR isso ou aquilo, ela apenas orienta a exibição de programas para o horário mais adequado.

_ Não se pode pautar a realidade do país pela cabeça Sul-maravilha que paira entre nós, de que todo mundo sabe tudo e ninguém é ingênuo. A televisão é a primeira a alcançar o disco rígido, digamos assim, que forma o cérebro de milhões de cidadãos neste país. Acaba por dar notícias a quem ainda não as tem, principalmente sobre CONSUMO, quesito que as cabeças mais moralistas não conseguem enxergar no momento em que se fala em classificação (só pensam em SEXO ou DROGAS, como se outros valores não fossem também propalados pela telinha).
Eu me pergunto: em que mundo vive essa gente?

_ A nova classificação dará às emissoras o direito de se autoclassificarem, mas as TVs terão de obedecer o fuso horário e fazer jus à classificação por elas estabelecidas. Se o Ministério da Justiça considerar que aquilo foi ao ar cedo demais, parte-se para um pedido de reclassificação, como ocorre em qualquer país civilizado.

_ Até para que os pais possam cumprir o seu papel, mesmo quando estiverem longe de casa, os canais passarão a informar o conteúdo de cada programa, antes de sua exibição. Não adianta nada, convenhamos, dizer que tal coisa é desaconselhável para menores de 10, 12 ou 16 anos, se você não sabe o que está por vir. Um pai pode saber que o programa a seguir contém cenas de insinuação sexual, sem se importar, mas pode se incomodar que o filho assista a uma chacina com trilha sonora (edição que a vida real, felizmente, ainda não lhe proporciona, ao contrário daqueles que acham que a realidade torna inócuo qualquer controle sobre a TV).
Como disse um representante da Andi (Agência Nacional dos Direitos Infantis), uma coisa é a criança ouvir o pai lhe narrar a história do Chapeuzinho Vermelho; outra, bem diferente, é assistir a uma versão do Chapeuzinho Vermelho filmada por Quentin Tarantino.

_ Embora a constituição peça prioridade à educação e cultura, a TV não se empenha nesses pilares. Argumentam que o papel de educar não lhe cabe. Perfeito. Mas nem por isso ela precisa deseducar. Civilidade é isso.

_ Pergunte ao diretor da MTV Brasil quantos “piiis” (aquele recurso que encobre o áudio de palavras obscenas), recheiam os programas que a emissora recebe da MTV americana. Vem tudo censuradinho. E quem há de acusar os EUA de praticar censura?