Balanço de 3 décadas, novo ‘TV Mulher’ tem teor documental

Balanço de 3 décadas, novo ‘TV Mulher’ tem teor documental

Cristina Padiglione

01 de junho de 2016 | 19h02

gabi

“O que você vai ser quando crescer?”, pergunta Marília Gabriela à pequena Alice, filha de Maria Rita.

“Eu vou ser pequena. Minha avó era pequena”, responde a neta de Elis.

“Você vai ficar do tamanho da sua avó? Então você vai ficar enorme!”, conclui a apresentadora.

O diálogo, quase no encerramento da edição de estreia do TV Mulher produzido por iniciativa do canal Viva, na noite desta terça, 31, acusa o tom documental presente na releitura de um programa que fez história e não só para a TV. Era inevitável. Ao resgatar o debate promovido lá atrás, 36 anos depois, com uma série em dez episódios que sintetiza as principais questões femininas, de direitos a deveres, passando por conquistas, demandas, perdas e danos, o novo TV Mulher traz à tona um balanço profundo do período. O revival permite que as discussões sejam avaliadas sob longa retrospectiva e perspectiva, o que a produção diária e ao vivo do original, presa ao noticiário do dia a dia, nem sempre propiciava. Visto a distância, o TV Mulher da vez se dá o direito de rever, com discernimento e de modo consolidado, onde acertamos, onde erramos, onde e por que nos culpamos, por meio do olhar de colunistas de sexo, justiça, finanças, comportamento, moda, olhar masculino, como bem fazia Henfil no original.

Daí a percepção de que o novo TV Mulher mais documenta do que reporta, como era o caso do original.

Com texto seu, Marília Gabriela abriu o programa com uma carta a Elis Regina, convidada da primeira edição do original, em abril de 1980, sob direção de Nilton Travesso e canção de Rita Lee. Na época, a pequena Maria Rita acompanhava a mãe, e foi com voz embargada que Gabi se surpreendeu ao encontrar Maria Rita no estúdio, escoltada pela pequena Alice. A apresentadora não sabia que a menina viria junto para a entrevista. Reviveu-se aí uma cena antológica, e quem quiser pode até conferir a original no Memória Globo.

Gabi narra a Elis um pouco das conquistas ou não consumadas nessas três décadas e meia. Fala da lei das domésticas, mas explica que ainda se escraviza gente no século 21, conta que a mulher é defendida por novas leis, mas ainda enfrenta a eterna culpa materna, diz que as Senhoras de Santana já não reclamam mais do “quadro de sexo”, conta que as delegacias de mulheres ganharam espaço, que os homens vêm dividindo mais tarefas em casa, mas que as mulheres ainda ganham menos que eles, e que o racismo ainda grita. Conta a quantas anda esse mundo, como sua filha cresceu, o que é a internet e sobre os tantos passos, quase imperceptíveis, dados de lá para cá.

Gabi, que se projetou definitivamente na TV a partir do TV Mulher, permitiu-se comover-se, como poucas vezes se viu na condição de jornalista.

Da apresentação às entrevistas, passando pelos colunistas, não houve palavra jogada fora. Ao filho, Theorodo Cochrane, Regina Duarte falou sobre personagens emblemáticas. Contou que enfrentava um certo olhar enviesado dos homens quando fazia a “subversiva” Malu Mulher. E que Raquel Acioly, a honestidade em pessoa em Vale Tudo, “é uma chata”.

A entrevista de Gabi com Maria Rita é quase uma consulta ao divã, espaço ocupado pela cantora, que revela sua revolta ao descobrir a causa real da morte de sua mãe. Falou com tanta franqueza, que só depois se deu conta de que a filha estava presente. “Mamãe ficou triste?”, interrompeu Alice. “Ficou triste, mas já passou”, emendou a mãe.  “Sempre tive consciência do que ela era de fato, muitas vezes a ausência dela dava a dimensão do tamanho dela”, contou Maria Rita. “Tinha uns 12 pra 13 anos, eu li um livro escondido, fininho, só pontual, de carreira, e até então, a história que pra mim era contada é que ela tinha tido um dodói no coração. Não deixa de ser. Quando eu li o que era, foi complicado, fiquei com raiva de tudo: da mentira, dela, da noção de que ela usava droga e aquilo era horrível, porque a gente cresce ouvindo as campanhas. Raiva, comecei a jogar as coisas no meu quarto.”

Diante de um conteúdo tão 100% aproveitável, capaz de cutucar a plateia, motivar reflexão e comoção, os cortes de edição são um ruído desagradável. A entrevista de Regina foi cortada por um brusco “muito obrigado” de Theodoro, de um modo que ele não teria feito no meio da conversa. Os cortes de Gabi para as vinhetas que anunciam a entrada de cada coluna também têm arestas. Faltam emendas mais suaves, até para valorizar a prosa em andamento na tela. Nada que não seja possível salvar nas edições a seguir.

TV Mulher é toda terça, 22h30, no Viva, e vale a bilheteria.  

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