‘Babilônia’: São Paulo não é pior que o resto do País

‘Babilônia’: São Paulo não é pior que o resto do País

Cristina Padiglione

01 de junho de 2015 | 17h54

Antes de mais nada, é preciso reconhecer que Gilberto Braga deu uma excelente entrevista ao Zean Bravo, da ‘Revista da TV‘, suplemento do jornal O Globo, na edição desse domingo, 31 de maio.

Autor de Babilônia, novela das 9 da Globo, ao lado de Ricardo Linhares e João Ximenes Braga, Gilberto é de uma franqueza rara nos entrevistados dos dias de hoje, todos calçados em frases de efeito promovidas pelo exercício de media training. Há cada vez menos entrevistados como ele e isso deve ser louvado.

Mas vamos aqui fazer algumas ressalvas para acalmar os ânimos dos paulistas, que estão especialmente irritados com algumas observações feitas pelo autor. Não penso que ele tenha falado o que falou para desdenhar de São Paulo, longe disso, mas, da forma como a palavra escrita se impôs no papel, acabou incomodando muita gente da Pauliceia.

1) As reformas feitas na novela são atribuídas aos resultados de grupos de discussão promovidos entre telespectadoras de São Paulo, região que, portanto, leva a “culpa” por todos os diagnósticos conservadores que teriam causado toda a rejeição à novela. E o Rio, o que pensa disso? E BH, o que pensa sobre Marcos Pasquim ser gay? E os gaúchos, reagiram bem às lésbicas?

Não temos essa resposta na mesma proporção que temos de São Paulo porque, simplesmente, a Globo não realiza grupos de discussão em outras regiões, só naquela que concentra a maior verba publicitária do País. Mas se é verdade que a verba publicitária tem se pulverizado por outros cantos, por que não estender esse termômetro a outros pedaços do mapa?

Aliás, os grupos de discussão recrutam quase sempre um time muito homogêneo, o que dá a ideia de que um só nicho da população, de uma única região, acaba determinando os rumos de uma obra como esta. Os grupos são divididos por classe social, mas sempre formados por mulheres, na sua maciça maioria brancas, casadas e com filhos.

2) Da forma como disse Gilberto a O Globo, parece que todo o País reagiu bem às reformas operadas em Babilônia. Não é bem assim. O próprio Rio não cresceu mais que 2 pontos com a radical mudança de perfil de algumas personagens. A novela das 9, lá na cidade onde é filmada e aclamada, chegou a 28 pontos na média da semana de 11 a 17 de maio, apenas 3 a mais que a média da Grande São Paulo na mesma semana.

É uma distância perfeitamente comum no que diz respeito a toda a programação da Globo: o Rio costuma de fato dar à Globo mais audiência que São Paulo, até em função da “paulistice” das concorrentes (SBT e Record), que dão mais atenção a São Paulo e acabam por tomar algumas migalhas da Globo aqui, em relação ao Rio.

Gilberto diz ainda que seu sonho é vencer de I Love Paraisópolis, a novela das 7, o que já acontece no Rio, mas por apenas 1 ponto, algo bem inferior à distância que normalmente marca as duas novelas. Isso porque às 9 da noite, naturalmente, o número de televisores ligados é maior que na faixa das 7 e isso acaba resultando em performance melhor para quem entra no ar mais tarde. E em São Paulo, sotaque da atual novela das 7, Beatriz (Glória Pires) e Inês (Adriana Esteves) ainda perdem de Danda (Tatá Werneck) e Mari (Bruna Marquezine).

Uma novela das 9 que vai mal de audiência no Rio costuma render no mínimo, 30 pontos no Rio. Até Babilônia aparecer, Em Família, de Manoel Carlos, era a audiência mais baixa do horário. Em Família também esbarrou nos 28 pontos no Rio, mas depois até se estabilizou nos 30, patamar que Babilônia ainda não alcança.


babigloria

 

Foto: Alex Carvalho/ Divulgação

 

Na entrevista ao Globo, Gilberto usou Jamanta, personagem de Cacá Carvalho criado por Silvio de Abreu, para exemplificar como o gosto de São Paulo nem sempre deve se impor ao que toda a nação vê. Disse ele ao Globo:

“(…) Paulista é esquisito. Um dos meus melhores amigos é o Silvio de Abreu. Ele fez o personagem Jamanta (em ‘Torre de Babel’, de 1998). Odeio Jamanta e falei: ‘Jamanta de novo?’ (quando ele voltou em ‘Belíssima’, de 2005). Ele disse: ‘É um fenômeno paulista. Fora de São Paulo ninguém suporta, mas lá é um sucesso. Por isso que eu botei’. Acho que o problema está aí. Não sei escrever para quem gosta de Jamanta. Meu universo é anti-Jamanta.”

Na publicação, o autor acerta claramente ao dizer que o País está mais conservador que duas décadas atrás, quando até a abertura de uma novela estampava uma bunda masculina.

Aqui e a ali, não são poucas as reações de artistas indignados com o momento conservador que atravessamos, das pautas em discussão no Congresso Nacional (incluindo deputados do Rio e de todo o País, e não só do suposto ultraconservador estado de São Paulo) ao caso de Babilônia. Na guinada da novela, os autores amorteceram o apetite sexual da vilã (Beatriz/Glória Pires), anularam a carreira de garota de programa de Alice (Sophie Carlotte), para transformá-la numa doce namorada de empresário rico, assexualizaram o par lésbico de Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg e levaram de volta ao armário um personagem que seria gay (Marcos Pasquim).

Convém ainda lembrar que no início da novela, a bancada parlamentar evangélica ergueu uma bandeira de boicote a Babilônia, em razão do par lésbico. A Globo tentou minimizar essa iniciativa, mas, diante da queda da audiência, acabou se curvando à vontade do grupo religioso.