‘Babilônia’ sai do ar para entrar na história

‘Babilônia’ sai do ar para entrar na história

Cristina Padiglione

28 Agosto 2015 | 19h06

murilo

 

Babilônia chega ao fim hoje e passa para a história não por ser hoje a novela das 9 de menor audiência do horário – logo uma outra poderá lhe arrancar esse posto –, mas por ser um caso a ser estudado. Rejeitada de cara por boa parte do público, a trama não teve chance de honrar a essência dos planos da trinca de autores – Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga. Gays, garotas de programa, lésbicas octagenárias, cafetão e negros com discurso de militância perderam espaço, sem que o esvaziamento disso desse à trama ao menos 30 pontos no Ibope, patamar que a Globo sempre alcançou fácil no horário.

Difícil é entender por que os autores, ciosos de sua sinopse e donos de um histórico respeitável, cederam fielmente aos resultados de pesquisas realizadas com um grupo seleto de telespectadoras de São Paulo. E até onde foi a pressão do Departamento de Classificação Indicativa do Ministério da Justiça, que tem o poder de vetar a exibição do programa no horário desejado, caso veja inadequação do conteúdo naquele espaço?

A Globo não chegou a ser notificada pelo MJ, mas recebeu de lá uma lista observações com itens coletados de queixas do público, como a prostituição encabeçada por Murilo (Bruno Gagliasso) e o beijo trocado entre Teresa (Fernanda Montenegro) e Estela (Nathalia Timberg) na estreia. O MJ informa que não distingue beijo gay de beijo hétero. Mas, para a Globo, se assim fosse, não haveria por que incluir a queixa entre os fatores que motivaram reclamações. Fato é que beijo entre Teresa e Estela nunca mais ocorreu – espera-se que as duas possam ter uma redenção, hoje.

Entre opiniões diversas coletadas pelo Estado ao longo da novela, o diretor-geral da Globo, Carlos Henrique Schroder, reconheceu que “o País é mais conservador do que você imagina”. Ao mesmo tempo, Verdades Secretas, ainda que exibida mais tarde, aborda prostituição e drogas, sem despertar queixas ao MJ. Para João Emanuel Carneiro, autor de Avenida Brasil e de A Regra do Jogo, novela que ocupará a vaga de Babilônia, “todas as histórias já foram contadas: o que muda é a forma como se conta”.

É certo que Babilônia não deu à possível prostituição de Alice (Sophie Charlotte) justificativas aceitáveis pra tanto, como Verdades Secretas, de Walcyr Carrasco, deu a Angel (Carolina Queiroz). Sem penitência, a audiência dificilmente perdoa o “pecado”. Com várias bandeiras expostas de início – cotas raciais e ascensão social do negro (Paula/Sheron Menezes), união homoafetiva, prostituição de luxo e uma vilã (Glória Pires) obcecada por sexo, a plateia sentiu o golpe e foi se aninhar na água com açúcar da concorrência (Carrossel, no SBT, e Os Dez Mandamentos, na Record).

Em meio a todo esse cenário, um ponto alto foi justamente a abordagem da intolerância – religiosa, sexual e ideológica – por meio do feliz casal formado por Chay Suede e Luísa Arraes. A questão da homofobia teve seu espaço, amém, por meio do discurso da Teresa de Fernanda Montenegro e do núcleo de Marcelo Mello Jr. E a ficção duelou com o noticiário no quesito corrupção, com empreiteiros, políticos, dinheiro público e delação premiada no alvo da moda. Apesar dos pesares e da economia de beijos, nem tudo foi perdido. O script levantou temas relevantes para fazer a plateia pensar.

O elenco todo, diga-se, honrou cada linha da novela, sem se entregar à frustração iminente pela mudança de rumos de uma sinopse que tinha tudo para ser arrojada e acabou por esbarrar em trechos dignos de folhetim mexicano. Bruno Gagliasso, que manifestou preocupação com a reação conservadora, representa hoje o grande suspense do dia, como alvo do “quem matou?”, recurso clássico que se preserva no bom histórico de Gilberto Braga.