Autor conduziu aprovação para o beijo gay: palmas para ele

Autor conduziu aprovação para o beijo gay: palmas para ele

Cristina Padiglione

03 de fevereiro de 2014 | 01h48

O primeiro beijo gay de novela das 9 na Globo foi uma conquista de longos anos, sim, algumas tentativas frustradas, uma série de pares que ajudou a abrir caminho, mas, sobretudo, da maneira como o autor Walcyr Carrasco conduziu o público para o aplauso da cena do último capítulo de “Amor à Vida”.

Temos ali um vilão que se redimiu, um grande ator a sustentar o personagem e sua virada (Félix/Mateus Solano), e um bom rapaz, disposto desde o início da história a constituir família, como se diz, com filhos e relação conjugal estável, mas ciente de que não poderá gerar uma criança apenas com o parceiro, homem como ele (Niko, Carneirinho/Thiago Fragoso).

O beijo gay, primeiro na história da produção que reúne a maior plateia do País, veio emoldurado nesse contexto de família de comercial de margarina, no sentido mais conservador do termo: filhos, união estável, amor, casa, afeto, lealdade e juras eternas. E começou a ganhar torcida com muitos capítulos de antecedência, quando o doce Niko é traído pela pérfida Amarílis (Danielle Winnits) e pela lacraia de olhos coloridos (Eron/Marcello Anthony). Para coroar a sequência que conspirou a favor do beijo, a história de amor fez do vilão um Gru bem alinhado, uma espécie de malvado favorito (*), e, para quem não percebeu, ele evidencia isso em diálogo imediatamente colado ao beijo: “você mudou a minha vida”. Finalmente, o grito de final de campeonato se consagra magistralmente na redenção do pai homofóbico que é “condenado” a ser cuidado pelo filho gay em seus dias de maior fragilidade.

Três dias após o fim de “Amor à Vida”, por onde passo, ouço gente se derretendo pelo encerramento da trama, na cena derradeira entre Fagundes e Solano, mais até do que pelo beijo gay, igualmente digno de aplausos pelas figuras mais resistentes a tanto, aquelas que certamente praguejariam contra um casal gay que se beija em público.

Há uma conquista pessoal de Walcyr Carrasco para a aprovação do protelado beijo gay em novela da Globo. Foi ele quem conduziu toda a trama de modo a obter a bênção não do público que milita contra a homofobia, no eixo sul maravilha e um ou outro ponto mais modernete deste imenso país machista, mas sim da plateia que ainda se chocaria com a cena. O grand finale, com pai e filho a derramar lágrimas sob a luz do sol, quando ninguém mais esperava de César uma palavra de afeto ao filho rejeitado, só abençoou a união do casal que se ocupa do abandonado doutor.

Podemos fazer troça da abordagem do autismo, da caricatura que tanto atrai novelistas a se afastar do verossímil, em vários e vários temas, de algum tributo a novelas mexicanas _ vide dramas como incêndios criminosos, facadas em amante, gestantes à beira da morte na hora do parto, etc e etc _, mas não se pode negar o avanço alcançado por Walcyr no ponto em questão e o que isso representa dentro da Globo e da militância contra a homofobia.

“Foi um beijo Tarcísio Meira”, contou Solano, há pouco, ao Fantástico, ou seja, um beijo que parecesse mais que um selinho, mas nada lascivo.

Foi um beijo, como diria o título da próxima novela das 9, “em família”. Cena entre dois cônjuges, não importando o sexo de ambos, ciosos de seus filhos e velhinhos.

E não venham me dizer que isso já é comum nas vizinhanças da rua Frei Caneca/Peixoto Gomide, na TV paga ou na MTV. Até vale mencionar a cena entre as meninas de Amor & Revolução, novela de modesta audiência do SBT, que trocaram um beijo inclusive mais ousado _ mas beijo de menina com menina sempre reserva aprovação maior, fetiche que é aos olhos dos meninos.

Encarar a divisão de opiniões gerada por um beijo gay masculino exposto em vitrine do tamanho de uma Globo, que reúne públicos de todas as crenças, faixas etárias e sociais, com todos os contrastes de um território da dimensão do Brasil, convenhamos, é ato mais corajoso, para a emissora, do que reconhecer que errou ao apoiar a ditadura.

(*) Questão de honestidade intelectual: o paralelo com Meu Malvado Favorito, o longa de animação, é de Patrícia Villalba, não meu. Adorei, usei e dou crédito.

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