Andrés Sánchez diz que quer é ver o Brasileirão em vários canais

Cristina Padiglione

29 de março de 2011 | 10h57

Foi o melhor Roda Viva do ano até aqui.
Metralhadora verbal, o presidente do Corinthians, Andrés Sánchez, falou à vontade (e resmungou além da conta que lhe cabe, por sofrer assédio e “preconceito” da imprensa em seus mínimos passos), diante de Marília Gabriela, Augusto Nunes, Paulo Moreira Leite, Mauro Beting e Vladir Lemos, ontem, na tela da TV Cultura.

Beting encerrou o programa elogiando a franqueza do entrevistado, e ele de fato convence, tem poder de persuasão, quem diria que não? Os atos do homem, no entanto, caminham na direção contrária ao discurso.

* Sanchéz, que puxou a fila de dissidentes do Clube dos 13 no afã de acertar com a Globo, disse que defende que o futebol seja de todos, e não apenas daquela que até hoje deteve a bola nos pés, justamente a Globo, com quem assinou.
* Disse que ninguém será melhor pago que o Corinthians pelos direitos do futebol, admitindo que o Flamengo ficará com fatia similar, “todo mundo sabe disso”, emendou.
* Contou que ficou 3 horas com Alexandre Raposo, presidente da Record, e que ele não lhe fez uma só proposta. Depois, a Record anunciou para Cade, imprensa, e outras entidades que a oferta era de R$ 100 milhões, mas ele mesmo não ouviu a proposta. A Record também afirma que não obteve resposta do clube e soube, por terceiros, de seu acordo com a Globo. Falta de comunicação?
* Sánchez respondeu à crítica de Rogério Ceni, que no domingo, após seu 100º gol, disse que os clubes deveriam se unir, em nome do futebol brasileiro. Para o cartola do Corinthians, cabe aos atletas revolucionar o futebol, se preciso, fazendo até greve. Como é? E quem é que negocia os direitos de TV? Certamente não é goleiro.
* Visivelmente ferido com a derrota da véspera, disse que prefere ganhar do Palmeiras a ganhar do São Paulo.
* Perguntado por Marília Gabriela se o montante que estava trazendo ao clube seria suficiente para zerar sua dívida, ao fim de sua gestão, respondeu que todas as grandes empresas têm dívidas. Citou até a Rede Globo, que, como Rede Globo, não conhece dívida há décadas. A Globopar, sim, foi salva pelo braço TV Globo e já faz mais de ano.
* Sánchez se queixa do assédio, se queixa que ninguém tem nada a ver com a vida do jogador, se ele vai pra balada, se fuma, se bebe fora de campo, oras bolas, o problema é dele. Só falta a esse raciocínio a compreensão de que os ídolos só são ídolos porque a vida deles, como um todo, e o pacote infelizmente não exclui vida pessoal, interessa e muito ao público. Se assim não fosse, eles também não receberiam cachês tão gordos por poucas horas de trabalho, não em campo, mas gravando comerciais. A quem de nós a Bozzano pagaria o que pagou a Ronaldo para fazer um filme publicitário e algumas fotos? Se o Ronaldo é bem pago para mostrar que faz barba, ora, meu caro Watson, é evidente que o que ele faz fora de campo interessa. O julgamento público ou da imprensa por vezes pode ser injusto, mas o interesse pelo que o ídolo faz é latente. E bem remunerado. Quanto maior a idolatria, maior o apetite da plateia pelo conjunto da obra, vida pessoal absolutamente inclusa, sim, e maior o cachê.

No frigir dos gaviões, é claro que Sánchez é ótimo entrevistado e sabe encantar seus interlocutores. É divertido. É carismático. É genial no que faz. Daí tanto assédio. Como figura pública que é, há de ter seus atos e palavras devidamente à disposição da discussão da torcida _ a pró e a contra. Assim é que a vida é.

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