“I see dead people” funciona bem em “Alto Astral”

“I see dead people” funciona bem em “Alto Astral”

Cristina Padiglione

03 de novembro de 2014 | 23h19

Saem a grafia hi-tech e o discurso a la Steve Jobs de “Geração Brasil”, entram a narrativa linear, sem aquele vaivém de flashbacks, e um recurso que costuma ser infalível para atrair a audiência: Pessoas que vêm gente morta.
“Alto Astral”, novela das 19h que a Globo colocou no ar nesta semana, pisa no terreno dos fantasminhas, sem assustar ou debochar do tema.
Adota sequências semelhantes ao velho e melado “Ghost, Do Outro lado da Vida”, sucesso de bilheteria com Demi Moore e Patrick Swayze.
Uma garotinha vaza porta adentro do carro em movimento, como aquele sujeito do metrô do filme, que gritava “Sai do meu trem!” a outros mortinhos que ousavam ocupar seu vagão.
Mas a menininha da novela é gente boa. Age em favor do encontro do par romântico da história, Nathália Dill e Sérgio Guinzé.
O argumento que promove o encontro entre espíritos e médiuns, tendo quem se aproveite disso de um lado – caso de Cláudia Raia – e quem saiba usar o dom para o bem, como Guinzé, é muito bom e, a julgar pelo primeiro capítulo, bem executado.
Os conflitos são sólidos e já foram explicitados logo de cara, até com certo maniqueísmo. Pelo menos para primeiro capítulo, ninguém tem nuances: quem é bom é tudo de bom, quem é mau é muito do mal.
De dois irmãos adotados, um é arrogante, malvado, invejoso, na pele de Thiago Lacerda, e outro, figura de caráter inquestionável, tem a cara do já aqui citado Guinzé. No meio dos dois, a mocinha, a quem Nathália Dill empresta sempre uma leveza, conseguindo escapulir da chatice que acomete as heroínas de novela, há de se apaixonar pelo cara legal, apesar de estar de casamento marcado com o irmão do mal.
Quando pequenos, os dois quase foram separados pela morte do irmão do bem, salvo das ferragens de um avião que caiu por outro espírito bacana, personagem de Marcelo Médici.

Em suma, “I see dead people” é uma abordagem sedutora. Tratado com humor, então, tanto melhor.
A direção é competente, sem estripulias e grandes pretensões, mas fazer aqueles fantasminhas cruzarem paredes, sem tropeços ou montagens aparentes, já é uma grande diversão, aos olhos do espectador.

“Alto Astral” nasceu de um argumento de Andréa Maltarolli, morta em 2009 e homenageada em cena com uma placa onde se lia “Cidade Maltarolli”. O desenvolvimento da história ficou a cargo do estreante Daniel Ortiz (estreante em autoria solo, bem entendido), com a bênção e a supervisão de Silvio de Abreu, um craque no assunto e no conhecimento da faixa horária.

Só não é o caso de a Globo exibir nos créditos de abertura o nome de Mônica Iozzi, ex-CQC, numa lista de atores citados como “apresentando”. Fizeram o mesmo com Chay Suede, outro mencionado como “apresentando”, na novela “Império”, depois de protagonizar a versão brasileira de “Rebelde” na Record.
Dessa forma, a Globo faz parecer que o que é revelado por outro canal não é do conhecimento do espectador. Postura arrogante. Poderiam resolver o vexame com um “Apresentando na Globo”, o que pressupõe que o público já conheça aquela figura.

 

 

Crédito da foto: JOÃO MIGUEL JR./DIVULGAÇÃO

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