A vitória e o ressentimento de Gentili

A vitória e o ressentimento de Gentili

Cristina Padiglione

11 de março de 2014 | 01h48

A julgar por toda a infra-estrutura que o SBT colocou à disposição de Danilo Gentili para a estreia do The Noite, o ressentimento pela ausência de Marcelo Mansfield, que ficou na Band, foi gigantesco.

Por mais eles finjam reduzir tudo a uma boa piada, ha-ha-ha, faltou graça na citação nominal de quem foi tratado como desertor. Ao ir em busca do humorista, o repórter de Gentili aparece diante de uma fachada onde se lê “Retiro dos Artistas”, conhecida casa de repouso de artistas aposentados e velhinhos. Para atender ao repórter, surge então um rapaz nu da cintura para cima, figurino e postura de michê, informando que Mansfield não virá.

Como quem ainda tenta explicar a piada, Gentili completa que “ninguém entendeu” por que Mansfield não veio. Pelamor, mágoa pouca é bobagem.

Seu substituto é apresentado como alguém encontrado no supermercado, como a cadelinha Fiel, que o pessoal do Pânico apresentou como nova integrante da trupe, após a saída de Sabrina Sato. Tanto Mansfield como Sabrina, guardadas as proporções de salário de cada um, claro, são tratados por seus ex-âncoras de modo ressentido, longe da indiferença que caracterizaria o “tô nem aí” que ambos tanto se esforçam para ostentar.

Foi o ponto fraco da noite e vai passar.

O que não passa e veio para ficar é o cenário, muito colado na versão David Letterman. O.k, não foi Letterman quem inventou o fundo urbano noturno, com edifícios iluminando a cidade atrás de entrevistado e entrevistador. O próprio Jô Soares, para não citar o velho Ferreira Netto, já fizeram muito uso daquele lay out plantado na telinha há pelo menos cinco décadas. Mas, no “The Noite”,  até o canto do Ultraje a Rigor remete ao espaço onde Paul Shaffer fazia, pouco tempo atrás, suas intervenções nas conversas de Letterman.

No mais, “The Noite” mostrou fôlego muito maior que o novo “Agora é Tarde”, da estrutura ao revezamento de piadinhas, quadros inúteis e paródias que recheiam o bate-papo. Abrindo a cena, Gentili tirou excelente proveito de ser um corpo hoje estranho no SBT, onde não há mais Jô, Serginho Groisman, Bóris Casoy ou Irene Ravache. Figura up to date rara no pedaço, ele circula em tom de deboche com seu elenco por cenários de auditórios populares da casa. É chamado por outro nome por Patrícia Abravanel, rasga um teste de DNA no palco do Ratinho, vê Raul Gil testemunhando que Roger, líder da banda do programa, não lhe tira o chapéu, e acaba, com toda a equipe, numa réplica do antigo cenário do “Jô Onze e Meia”, onde teias de aranha se prendem à caneca, ainda com o nome do gordo. Da plateia, seu primeiro entrevistado se apresenta: é Ivo Holanda, anunciando que aquilo é uma pegadinha e aquele não é o seu cenário.

Mais SBT, impossível. E não é que foi muito bom?

A escolha de Fábio Porchat, hiperativo personagem do humor, no melhor sentido, foi perfeita. À meia noite e meia, não é qualquer um que tem o poder de adiar o sono do espectador, com um ritmo freneticamente engraçado. Contou lá que o Porta dos Fundos faz seu primeiro seriado, sobre a temática da Aids, com ele e Gregório Duvivier, o que Gentili tratou como informação exclusiva do programa. Sim, é a primeira vez que Porchat toca no assunto, mas nossa coluna de TV no Estadão, com perdão da cabotinice, falou no assunto há duas semanas.

No frigir dos ovos, até pelo tempo de produção e estrutura do “The Noite”, Rafinha Bastos não terá vida fácil, ainda que seu repertório, isoladamente, seja superior ao de Danilo, seu sócio em uma casa de stand up em São Paulo. O SBT ainda exibe mais estrutura e vontade de apostar no gênero.

Pelo sim pelo não, Jô Soares já gravou uma chamada hoje e a Globo colocou a cena no ar logo após a novela das 9, anunciando sua volta para a próxima segunda.

E é aí que o SBT se perde. Finada a excelente edição de estreia do “The Noite”, entrou no ar um apelo bem feito para a noite de terça do SBT. Esperava por uma chamada para a segunda edição do Gentili. Que nada. Anunciaram a novela “Rebelde”, o Ratinho e um filme com Nicolas Cage para “as 11 da noite”, sem emendar o que esperar do day after do programa ao qual acabáramos de ver. Com a conclusão, óbvia, de que se um filme está anunciado para as 11 da noite, dificilmente o talk show entrará em cena à meia-noite, seu horário de tese – o que, no SBT, quase nunca equivale ao horário da prática, já vamos nos acostumar. Pena.

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