“A televisão era menos uma fábrica de pizzas”

“A televisão era menos uma fábrica de pizzas”

Cristina Padiglione

29 de agosto de 2010 | 13h39

roque

A frase é de Aguinaldo Silva e estampa nossa entrevista com o escritor, autor de novelas, publicada hoje no suplemento de TV do Estadão, por obra dos 25 anos de “Roque Santeiro”, a novela de maior audiência de topdos os tempos na TV brasileira, e de seu lançamento em DVD. São 16 discos editados em mais de 50 horas, inaugurando o gênero folhetim nesse formato.

Aguinaldo foi escolhido por Dias Gomes para escrever a novela do santo que foi sem nunca ter sido, baseado em uma peça sua (de Dias), “O Berço do Herói” e censurada pelo Dops 10 anos antes. Em 1975, quando foi barrada no baile, Roque Santeiro teria Betty Faria como Viúva Porcina, papel que em 85 ficou com Regina Duarte, em dueto irresistível com Lima Duarte como Sinhozinho Malta. E Roque, o protagonista vivido de fato por José Wilker, seria, originalmente, de Francisco Cuoco.
Azar ou sorte de Cuoco, que na época da censura, foi imediatamente escalado para uma novela feita às pressas por Janete Clair, que acabou se tornando nada menos do que “Pecado Capital” e ele, o clássico motorista de táxi Carlão, melhor personagem de sua carreira, ao som de Paulinho da Viola (“Dinheiro na mão é vendaval, é vendaval, na vida de um sonhador…”)

Voltando a Roque, publico a seguir a íntegra da entrevista que Aguinaldo me respondeu por e-mail, diretamente de Portugal, onde supervisiona a primeira novela coproduzida pela Globo para a televisão local.

Soube que você não participou do trabalho de edição do DVD, é isso mesmo?
Não participei, não cabe aos autores fazer esse trabalho, e sim aos diretores e editores. Na verdade, soube pelos jornais que “Roque Santeiro” seria a primeira novela a ser lançada em DVD, e fiquei muito feliz com a notícia.

Você já viu a edição agora lançada em DVD?
Ainda não vi. A Globo mandou uma caixa com os DVDs para a minha casa no Rio, porém estou aqui em Portugal desde maio a serviço da emissora. Quando voltar, em meados de setembro, pretendo rever a novela que me deu _ e ainda me dá _ tantas alegrias: quero saber se ela continua de pé, ou se envelheceu. Acho a segunda hipótese praticamente impossível, pois “Roque Santeiro” é um clássico, e permanece na memória dos telespctadores como um dos grandes momentos da nossa televisão.

Sempre ouvi dizer que você escreveu “Roque Santeiro” praticamente sozinho e que o Dias Gomes, autor da peça que deu origem à novela, participou do processo dos primeiros capítulos e só voltou a atuar ao seu lado para escrever o final. Isso é lenda ou é verdade?
Dias Gomes escreveu os primeiros 40 capítulos, mas eu tive que enxertar algumas cenas neles, pois originalmente a novela ia ser apresentada no horário das 22 horas, cujos capítulos eram menores. Ele me escolheu para escrever “Roque Santeiro” e viajou para a Europa. Quando voltou, eu já estava no capítulo 180, e a novela era um incrível sucesso. Daí ele decidiu que escreveria os 30 capítulos finais, e eu me afastei. Ou seja, pode-se dizer que Dias Gomes escreveu 70 capítulos e eu escrevi 140. Mas isso é uma história antiga, eu escrevi várias novelas depois de “Roque Santeiro” e o Dias imperdoavelmente nos deixou.

Como era o processo de trabalho em “Roque”? Distinguia muito do modo de trabalhar hoje?
A diferença básica é que a novela era escrita na máquina de escrever manual! Isso hoje parece impossível, mas era assim. Eu tinha dois colaboradores, Marcílio Moraes e Joaquim Assis, e fazia as correções nos capítulos deles usando tesoura e cola, do contrário, mesmo que a página tivesse um único erro, eu teria que datilografá-la toda de novo! No mais o processo era o mesmo: eu fazia as escaletas, distribuía os capítulos e todos nós escrevíamos. Mas a revisão final era feita por mim.

À medida que o sucesso da novela foi se revelando, de que modo a boa receptividade do público foi afetando, se é que afetou, o destino da história?
“Roque Santeiro” foi uma novela perfeita em que o desejo do público e as pretensões dos autores sempre caminharam lado a lado… Exceto no final: havia uma enorme torcida para que Porcina terminasse com Roque, mas Dias preferiu deixá-la com Sinhozinho Malta. Ou seja: o público não interferiu na história, como em geral acontece com as outras novelas, porque estava de acordo com tudo.

O que mais o surpreendeu na época em relação à receptividade da audiência?
Chegamos a dar 98 pontos de audiência, um fenômeno que NUNCA será igualado. Mas se você quer saber, quando eu li os 40 capítulos já escritos, achei aquilo tudo uma grande bobagem. Mesmo assim aceitei a tarefa de levar a novela adiante… E logo vi que meu julgamento inicial estava errado.

Era mais fácil ou mais difícil escrever novela em 1985?
Era mais difícil do ponto de vista “físico”: trabalhávamos com máquina de escrever manual, não havia internet, os telefones não eram grande coisa… Usávamos um leva-e-traz, um mensageiro! Mas era mais fácil do ponto de vista das pressões; a novela era considerada um produto, digamos assim, mais “artístico”, os autores tinham mais liberdade -embora houvesse, como há hoje, censura -, enfim, a própria televisão era menos uma fábrica de pizzas e mais preocupada com a qualidade, o que nos beneficiava a todos. Hoje em dia escrever uma novela é comparável ao ato de botar um Airbus 787 no ar: quase impossível!

O fato de “Roque” ter sido censurada 10 anos antes provocou alguma alteração na sinopse da novela feita em 1985? Que cuidados ou disfarces foram realizados para não desagradar setores remanescentes da censura naquela época?
Quando a novela caiu nas minhas mãos, e eu percebi que tinha toda liberdade, resolvi que ela seria uma altíssima comédia. A parte política, tão importante nos escritos do Dias Gomes, continuou lá, mas menos panfletária e menos evidente. A novela era muito engraçada, acho que até os censores morriam de rir lendo os capítulos, e assim as coisas foram passando e, quando se viu, por conta do enorme sucesso, já era impossível censurá-la. Nos 30 capítulos finais Dias voltou às origens e a novela ficou mais “densa”, menos engraçada.

Houve consenso entre você, Dias Gomes e Paulo Ubiratan (diretor-geral da novela) sobre o final escolhido para Porcina? Ou a escolha foi apenas do Dias Gomes?
A escolha foi apenas do Dias Gomes. Eu não podia opinar porque estava fora. Mas o Paulo Ubiratan me disse que tinha odiado aquele final ostensivamente copiado de “Casablanca”. Mesmo assim ele o dirigiu de tal modo que ficou inesquecível.

Voltando à questão de novela reeditada por mãos alheias, soube que você também não participou da reedição de “Senhora do Destino” para o “Vale a Pena ver de Novo”. Vocês, autores, sabem ou conhecem o profissional (ou profissinais) que realiza(m) este trabalho? Já se manifestaram contra ou a favor de participar dele?
Veja bem, eu sempre digo isso e meus colegas me olham atravessado… Mas a novela é do produtor, é de quem bota lá o dinheiro necessário para produzi-la. O autor é pago apenas para escrever. Lembro o exemplo de Hollywood: quando o filme recebe o Oscar, quem vai receber o prêmio não é o diretor, nem o roteirista, é o produtor. No caso da novela, e isso consta dos nossos contratos, uma vez pronto, o texto pertence à emissora, e esta pode fazer o que quiser com ele, inclusive guardá-lo numa gaveta e esquecê-lo. “Senhora do Destino” quebrou o recorde de audiência do “Vale a Pena Ver de Novo”, mas o horário era outro, e para passar nele a novela tinha que ser reeditada. Este é um trabalho de um especialista, o editor, e ao roteirista não cabe dar pitacos. Eu jamais faria isso, pois sei que a reedição do meu trabalho estará em boas mãos. Quanto aos outros autores, já não sei.

Em tempo: o DVD de Roque Santeiro traz, como extra, os dois finais gravados para a novela, algo inédito para a época: Porcina partindo no aviãozinho, com Roque, e ficando em Asa Branca, Com Sinhozinho. Mais Casablanca, impossível, e a referência é explícita, quase um tributo ao filme, com direito até a uma sonora de “As Time Goes By”, a trilha do longa com Humprhey Bogart. Com 16 discos, a caixa de Roque agora lançada pela Globo Marcas custa R$ 250,00

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