‘A Teia’, como nunca antes na história da Globo

‘A Teia’, como nunca antes na história da Globo

Cristina Padiglione

02 de abril de 2014 | 02h32

 

O bandido, rendido e detido, pergunta ao policial:

_ Desculpe perguntar, mas quanto o senhor ganha, delegado?

_ Muito mais que você, agora – responde o policial.

A plateia se conforta na certeza de que o crime não compensa, sente-se vingada por aquele folgado que se acha, sem que para isso tenha sido obrigada a digerir diálogos abarrotados de clichês e atuações canastronas. Amém.

‘A Teia”, série recém-encerrada pela Globo, com show de João Miguel, Paulo Vilhena e Andrea Horta, desatou vários nós que se mostravam amarrados fazia tempo, na tela da emissora.

Vá lá que TV seja veículo de massa, ninguém nega, mas não é possível pisar em ovos o tempo todo ou querer pensar na criança acordada até mais tarde nem na senhorinha insone.

Já que a Classificação Indicativa é tão execrada por diretores e autores, dentro da cartilha do que pode ou não pode para cada horário, por que não abrir o leque de vocabulários e situações após as 23h, fazendo bom uso de alguma liberdade criativa?

‘A Teia’ soube tirar bom proveito de seu horário pós-BBB. De mais a mais, depois de BBB, programa capaz de difundir os valores mais equivocados do mundo, fica difícil chocar o espectador. Se for para chocar, que seja com algum conteúdo, que traga repertório, né não?

Faz tempo que a Globo não se permite romper tantos tabus de uma só vez.

Há dois meses, tivemos o primeiro beijo gay no horário nobre.

Semana que vem, estreia um humorístico que, ao modo do velho ‘TV Pirata’, volta a satirizar comerciais e brinca com a crítica à Globo.

Há pouco, a emissora acaba de encerrar sua série mais ousada até aqui, no quesito violência – verbal e física, diga-se. Quando se ouve na tal TV de massa alguém que diz “enfia o seu dinheiro no c*#@”, como aqui a gente ainda não diz (os opositores desse conceito que me perdoem, mas a palavra escrita, como dizia o bom e velho Evandro Carlos de Andrade, ainda choca mais), bem, quando se ouve isso na Globo, algo está definitivamente em mutação no tal padrão, há tantos anos engessadinho.

Com texto fora do comum na TV aberta e uma tensão que remete à competência de direção das aclamadas séries americanas, ‘A Teia’ fechou seu 10º episódio com espaço e argumentos de sobra para uma segunda temporada. Oxalá vingue. Fôlego para tanto, apesar do modesto ibope da primeira metade de capítulos, há.

O script foi a primeira série de ficção de dois roteiristas que estão bem na fita do cinema: Carolina Kotscho (‘Dois Filhos de Francisco’) e Bráulio Mantovani (‘Tropa de Elite’ e ‘Cidade de Deus’). A direção, de Rogério Gomes, esbanjou com êxito cenas de ação e, mais meritocrático que isso, abraçou a missão de treinar uma garotinha para as cenas mais horripilantes a que um menor pode ser submetido.

Barone, o bandido que se achava invencível e sedutor, obra do Paulo Vilhena, castiga a menininha ao mandá-la comer o próprio cocô, tapa-lhe a boca com pano, faz o diabo no último capítulo, sempre chamando-a pelo carinhoso apelido de “Ninota”.

O áudio da tortura, mais do que as imagens, nos é transmitido pela narração de um genérico de Datena, num desses programas policiais de TV que tem acesso à fita apreendida pela polícia. Enquanto ouvimos a narração da TV pela TV, o vilão cumpre outra sequência em que amedronta a menina, torturando o pai dela diante dos olhos da pequena. Preso, Barone receberá a justiça dos homens debaixo do chuveiro, quando é violentado por um grupo de marmanjos com cara de mau. Tomamos conhecimento do purgatório só pela imagem da aproximação dos outros detentos e pela expressão a seguir, com grito de dor, estampada na cara do meliante por entre as grades do banheiro.

Denso. Tenso. Intenso.

Que venha a segunda temporada!

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.