“A Liga” não foi tudo isso, mas rendeu ibope

Cristina Padiglione

05 de maio de 2010 | 19h20

“A Liga”, novo programa da Cuatro Cabezas na Band, com Rafinha Bastos, Débora Villalba e Thaíde, tem potencial _ mais até do que pareceu a edição de estreia, ontem, quando o telespectador foi chamado a perceber que trata moradores de rua como seres invisíveis.

Quem começou a ver a edição não teve motivo para trocar de canal (tanto assim que a audiência foi a 6 pontos de média e 8 de pico, um feito para os padrões da Bandeirantes).
Mas, quem viu o programa até o fim sentiu justamente falta da tal liga, algo que amarrasse as histórias apresentadas. O.k., os exemplos eram comoventes, mas é pouco provável que a dita sociedade insensível, nós, os camisados, pés calçados e com teto, vá se mexer em função do que ali foi mostrado.

A família que mora na porta do banco Itaú, na Paulista, é de cortar o coração, mas o espectador foi mal conduzido a entender por que ela foi parar naquela situação, o que ela fazia até então e por que o rapaz que a acompanha não sai em busca de uma ocupação que possa tornar a vida deles, digamos, menos pior. Faltou mensurar com mais precisão até onde essa família tentou fazer algo para alterar seu destino e não conseguiu. Aos 32 anos, aparentando bem mais, visivelmente castigada por um histórico desde cedo muito difícil, a mulher diz que já não tem mais esperanças de alterar sua (má) sorte. O programa informou que eles ficam a vagar pela cidade durante o dia. Fazendo o quê? Pedindo esmolas? Com dois filhos pequenos e outros vários recolhidos em abrigos desde que o marido foi morto pela Rota, ela de fato não tem muitas alternativas.

A essa altura, o telespectador menos solidário já se refestelou no sofá para argumentar que, ora, se ela não faz nada para mudar sua vida, o que ele pode fazer? O sujeito em questão, que deveria ser o principal alvo do programa, está pronto para justificar seu olhar cego.
O programa esbanja no olhar de piedade e economiza nas informações sobre as origens daquela família.
Esse grupo é totalmente distinto do casal abordado por Thaíde, que, mesmo na rua, não descuida da higiene, trabalha e cozinha o próprio jantar.

É uma outra visão de morador de rua? Não. É um outro perfil de morador de rua. Não é o sem-teto que já nasceu na miséria e, sem ajuda externa, mal tem chance de evitar a perpetuação de tal miséria entre seus descendentes. Também difere dos garotos que cheiram cola e fumam craque na Lapa carioca, em geral espantados de casa por causa de violência doméstica.
Assim, “A Liga” não faz diferentes leituras para um mesmo foco, como promete. Faz leituras diferentes para personagens de perfis completamente distintos.

O programa não é assistencialista, não é Porta da Esperança, não está lá para mudar o destino dessas pessoas, mas também não pode tratá-las como vítimas de um sistema sem solução. Tem jeito? Não tem? Quem pode e quer participar? De que modo? Se não for para cutucar os pacatos cidadãos, qual a razão de mostrar tudo aquilo?

Noves fora, Thaide, Rafinha e Débora são exemplarmente competentes na arte de coletar e contar histórias ou apresentar personagens. São eles o maior trunfo do programa.
A edição exibe recursos de áudio que remetem ligeiramente (ou evidentemente, se você mudar de canal logo em seguida, como eu fiz) ao “Profissão Repórter”, do Caco Barcellos, que, aliás, é mais eficaz na proposta de exibir diferentes ângulos para uma mesma história.

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