Yardbirds, celeiro de craques, mas com história turbulenta

Estadão

06 de dezembro de 2010 | 16h14

Marcelo Moreira

O quinteto Yardbirds é o melhor exemplo de que, de onde se menos espera, nada vinga mesmo, exceto se acontecer alguma coisa surreal, como abrigar três dos maiores gênios do rock – Eric Clapton, Jeff Beck e Jimmy Page.

Banda de quintal em 1962, com um cantor ruim e músicos que mal sabiam tocar, acabaram, num golpe de sorte, apadrinhados pelo empresário de origem ucraniana Giorgio Gomelsky, um dos sócios do Crawdaddy Club, reduto dos amantes do blues norte-americano em Londres.

Ele estava desesperado com a possibilidade de perder seus meninos de ouro, a banda residente de nome ridículo The Rolling Stones, que era de longe a melhor que já havia tocado por lá. Os Stones já tinham contrato naquele final de 1962 com a Decca Records e logo seguiriam os passos de Beatles e Kinks.

Gomelsky não conseguia achar substitutos para ser a banda residente – tocar ao menos três vezes por semana. Os candidatos tinham de tocar blues, ou algo próximo disso.

 Quem mais chegou perto foram os moleques dos Yardbirds, ainda crus e sem traquejo. Deveriam ficar tocando até que alguém melhor aparecesse no começo de 1963.

Keith Relf (vocal), Paul Samwell-Smith (baixo), Chris Dreja e Anthony “Top” Topham (guitarras) e Jim McCarty (bateria) foram peitudos e encararam o desafio de enfrentar a exigente, mal-educada e mal-acostumada plateia do Crawdaddy no começo de 1963. Mesmo tocando muito mal, surpreendentemente agradaram, graças aos longos improvisos.

Gomelsky não acreditou que atirou no viu e acertou no que não viu. Logo obrigou o quinteto  a aceitá-lo como empresário, com condições de contratos inaceitáveis em qualquer época.

Gomelsky virou dono do grupo e dos meninos. Primeira medida: expulsar Topham, que realmebte era bem ruinzinho, e fazer uma audição com um menino de 18 anos bem recomendado por amigos, um tal de Eric Clapton, já considerado geniozinho.

Bastou Clapton afinar a guitarra por dois minutos  na hora da audição de teste para ser contratado. O salto de qualidade que a banda deu em apenas duas semanas foi absurdo sob a influência de Clapton. Todos passaram a estudar e ensaiar mais. Rapidamente viraram a sensação do underground londrino e fizeram os frequentadores do Crawdaddy esquecerem os Stones.

Clapton chega e ‘apavora’

O cartaz cresceu tanto que a banda foi a escolhida para servir de suporte para a turnê britânica do famoso bluesman norte-americano Sonny Boy Williamson II. Em 8 de dezembro de 1963, o show realizado no Crawdaddy Club foi gravado em áudio, mas só lançado em LP no começo de 1965.

O primeiro álbum foi lançado em meados de 1964, estranhamente uma gravação ao vivo, “Five Live Yardbirds”, em show registrado na casa de shows Marquee, em Londres. A popularidade não parou de subir, assim como os convites para acompanhar astros do blues em turnê pela Europa, como o já citado Sonny Bou Williamson II.

Yardbirds em 1964, da esq. para a dir.: Relf, Clapton, McCarty, Dreja e Samwell-Smith

A crescente popularidade de Clapton começou a incomodar o restante da banda, ao mesmo tempo em que o guitarrista não via com bons olhos a aproximação de Gomelsky com produtores pop. Enquanto se esforçava para cumprir a pesada agenda de shows, arrumava tempo para ensaios com um amigo amante do blues, mas que era músico de estúdio, Jimmy Page.

O rompimento definitivo aconteceu em março de 1965, na gravação do single “For Your Love”, de Graham Gouldman, compositor pop. Clapton gravou, mas anunciou a sua saída porque estava irritado com os rumos comerciais da banda, afastando-se do blues.

Em choque, Gomelsky e Samwell-Smith foram atrás do melhor músico que conheciam na época, Jimmy Page. Este recusou porque era muito amigo de Clapton e ficou constrangido. Mas indicou um outro rapaz de quem ficara muito amigo e que merecia os seus maiores elogios: Jeff Beck, que tinha acabado de completar 20 anos e era fissurado por blues.

Beck chega e também ‘apavora’

Beck fez duas audições de teste e foi imediatamente contratado. Acabou fazendo parte da época de outro dos Yardbirds, o período entre maio de 1965 e o final de 1966, quando a banda ganhou muito dinheiro, vendeu milhares de singles e LPs, além de iniciar a era das turnês pelos Estados Unidos. Enquanto isso, Eric Clapton entrava para o John Mayall’s Bluesbreakers, quinteto de blues famoso em Londres na época.

O sucesso foi demais para Samwell-Smith, cansado de brigar e discutir com Relf, Beck e Gomelsky. Largou a música e se tornou empresário e produtor do ramo musical. Foi a deixa para Jimmy Page deixar de vez a timidez dos palcos e assumir como baixista dos Yardbirds, a convite de Relf e do próprio Samwell-Smith.

Yardbirds em 1965, com Jeff Beck (íltimo da esq. para a dir.)

Page tinha sido músico de algumas bandas na adolescência, mas abandonou as turnês por conta da saúde frágil – tinha problemas respiratórios. Aparentemente curado, embarcou na loucura dos Yardbirds em 1966. Dois meses depois, em comum acordo, trocou de instrumento com Chris Dreja, que era constantemente criticado por Beck.

A banda viveu uma fase criativa sem precedentes, mas o ego de Jeff Beck se encarregou de destruir o ambiente caótico, mas de imensa criatividade.

Yardbirds no final de 1966: Beck é o primeiro da esq. para a dir.; Page é o quarto

Às turras com Gomelsky e com Relf, e sentido-se ameaçado pelo aumento de espaço dado a Page, que se mostrou ótimo compositor, Beck decidiu abandonar o grupo ao fim de mais uma turnê americana, em novembro de 1966.

Apesar do rompimento, manteve a amizade com Page, que deu uma grande força no início da carreira solo de Beck, inclusive produzindo e tocando na faixa “Beck’s Bolero”, composição de Page que aparece em “Truth”, primeiro álbum de Jeff Beck Group, de 1968. Além de Beck e Page, tocaram na música John Paul Jones no baixo e teclados e Keith Moon (The Who) na bateria.

O fim

A saída de Beck iniciou a decadência da banda. O empresário Gomelsky perdeu o interesse, e os músicos começaram a se desencantar com a carreira após vários singles de vendas fracas e um LP, “Little Games”, de 1967, massacrado pela crítica. Apesar do entusiasmo e do empenho de Page, a banda como quarteto já tinha morrido. Faltava enterrar.

O fim aconteceu em março de 1968, após uma turnê norte-americana fracassada. Cada um foi para um lado. Dreja virou um conceituado fotógrafo de rock e de moda, enquanto que Relf e McCarty fundaram o Together, que depois virou o Renaissance. Durou pouco a parceria e seguiram caminhos diferentes. O vocalista morreu eletrocutado em sua casa, em 1976, durante um ensaio.

Última formação, que durou do final de 1966 ao começo de 1968

Page e o então novo empresário, Peter Grant, ficaram com um mico na mão: tiveram de adiar a turnê escandinava por dois meses, mas teriam de cumprir as dez datas, sob pena de pagar pesada multa.

Nova vida, nova banda

Os dois rapidamente procuraram músicos para reformar os Yardbirds e conseguiram a rápida adesão de John Paul Jones, multi-instrumentista, produtor e excelente músico de estúdio.

Na semana seguinte, após um não do cantor pop Terry Reid, os três assistiram a uma apresentação da Band of Joy em Birmingham, no interior da Inglaterra, e ficaram hipnotizados com Robert Plant, o cantor, que não demorou a aceitar o convite de Page – a dica tinha sido dada pelo próprio Reid.

 John Bonham, o baterista, era amigo de Plant e tocava como músico contratado de vários artistas de renome na época e relutou em aceitar, já que ganhava muito bem.

Led Zeppelin, ainda como New Yardbirds, em outubro de 1968

Banda formada, foram 40 dias de ensaios para que os quatro, sob o nome de  New Yardbirds, fizesse alguns shows em Londres antes da turnê escandinava.

Na volta, só deu tempo de entrar em estúdio para gravar as músicas do primeiro LP e embarcar para uma turnê norte-americana do comecinho de 1969. A banda já tinha outro nome: Led Zeppelin.

Nos anos 90 Chris Dreja e Jim McCarty reformaram os Yardbirds após algumas reuniões comemorativas, mas não tiveram a adesão de nenhum dos três gênios guitarristas.

Os dois recrutaram músicos de apoio para uma série de turnês pelo mundo. Em 2003 lançaram “Birdland”, um constrangedor álbum, que só reforçou a opinião do mercado: não passavam de covers de si mesmos.

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