Wilco, maior do que as estrelas em New Orleans

Estadão

12 de maio de 2011 | 23h24

Jotabê Medeiros – de New Orleans

Jeff Tweedy, o líder idiossincrático do Wilco, quase não sorri. Como Michael Jackson, foi viciado em analgésicos e contam que também tem rasgos depressivos e crises de pânico.

Sua banda não tem o menor problema em maltratar 10 mil pessoas com digressões intermináveis de guitarra, teclados, bateria, microfonias e crescendos circulares que parecem não acabar nunca. Mas, quando acaba, é como uma explosão estelar, e todo mundo adora.

E agora, além dos públicos médios, as multidões também os veneram. O Wilco está por cima da carne-seca. Ocupando o palco principal do Festival de Jazz de New Orleans, anteontem, o Wilco simbolizou a virada do rock alternativo nesse início de década – os grupos que agora ocupam a arena principal, como Wilco, Arcade Fire e Strokes eram o que as prateleiras enquadravam como rock indie, há coisa de 10 anos. Agora, eles são os gigantes. Todos eles tocam no festival neste fim de semana.

O soturno Tweedy, com seu violão “Buck” descascado, não está sozinho nessa empreitada do Wilco. Ao lado dele, anticool, quase invisível para os fotógrafos, está a alma da banda, o guitarrista Nels Cline – na rua, se o encontramos, certamente não prestaremos atenção, é o homem comum em pessoa. Mas é um manancial inesgotável de ritmos e truques – da Fender descascada à guitarra de dois braços do guitar hero inglês Jimmy Page; dos slides aos pedais de demolição, Cline é hoje o Keith Richards de Jeff Tweed.

Jeff Tweedy, líder do Wilco (AP Photo/Patrick Semansky)

Curioso notar que o som do Wilco é o que chamaríamos de “neocaipiria”, com bases fundas no country e no folk, gêneros muito familiares ao sul americano. Mas é falsa a familiaridade, porque logo o Wilco se impõe como um corpo estranho e virótico entre o universo previsível da música country, explodindo convenções pouco a pouco.
Antes de Tweedy cantar Handshake Drugs, ele fala com a plateia, o que é uma raridade.

“Olá a todos. Bom estar de volta ao JazzFest. E tocar algum jazz para vocês”, ironizou – jazz não passa nem perto do que fazem. Um avião planador passa no céu oferecendo: “Drink Hand Grenades” (Beba Granadas de Mão, nome de uma bebida local). Como um Dylan do século novo, Tweedy vai grunhindo suas baladas explosivas, como Kamera (do disco Yankee Hotel Foxtrox, seu maior clássico), ou a belíssima One Wing (“Você era uma bênção, e eu era uma maldição”).

 Wilco toca com seis músicos no palco – além de baixo, guitarra e bateria, mais uma guitarra, um teclado Korg e um piloto de efeitos no laptop.

Seu som mais sugere do que explicita, mais impele a buscar do que entrega. É uma música permeada pela confusão, mas cheia de um lirismo extremado, romântico, de Jesus, Etc até, no bis final, o único hit, Cigarettes and Alcohol. Os slides choramingantes de Nels Cline, o orgãozinho vintage e a tarde vão compondo uma paisagem que só existe na cabeça de um sujeito meio amarfanhado, Jeff Tweedy.

O festival de New Orleans deve receber 350 mil pessoas até seu final e deixa um impacto econômico na cidade de US$ 300 milhões. Artisticamente, é uma feliz combinação de extremos, da música gospel e Cajun até o rock’n’roll, tudo passa por aqui.

No momento, há a expectativa pelos Strokes, esta noite, mas também por Sonny Rollins, Ellis Marsalis, Allen Toussaint, Zigaboo e outros mitos da música. Estrelas nascem e morrem em New Orleans – nesse instante, a aposta jazzística e na bela cantora Sasha Masakowski, new face do gênero. Mas foi a Uptown Orchestra de Delfeayo Marsalis que levantou a tarde, com 14 metais, piano, bateria e baixo.

Delfeayo, irmão mais velho dos Marsalis, está quase a caminho do Brasil – faltam detalhes para levar o trombonista mais cool da região para tocar em Moema.

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