Vovô do Blues sequestra ouvidos pop no Rock in Rio

Estadão

21 Setembro 2013 | 17h56


Jotabê Medeiros

Ben Harper não é um sujeito de muitas palavras, mas foi só ele iniciar o slide em Get Up!, a primeira música de seu show no palco Sunset, no Rock in Rio, que o público ali entendeu que o que vinha a seguir era música, e não pose. A gaita de Charlie Musselwhite entrou meio baixa no começo, mas um certo gosto de Delta do Mississippi tomou conta da noite e não teve mais volta: o blues tomava a Cidade do Rock de assalto.

Foi na segunda música, I Don’t Believe a Word you Say, que se sentiu o poder de transfiguração do velho gaitista e sua mistura com a modernidade sisuda de Harper: muito pesada, com Ben Harper tocando sentado o seu slide, e o velho solando como um guitarrista de hard rock, e a história do palco Sunset estava definitivamente mudada.

“Ó o vovô!”, proclamou um rapaz de cabelo neymarístico do lado, no momento em que Charlie Musselwhite pegou o microfone, na terceira música, para cantar o manifesto bluesístico The Blues Overtook Me. O rapaz de topete parecia não acreditar no topete do bluesman. Mas raros mostraram mais espírito juvenil do que o gaitista norte-americano de 69 anos. “Você sabe, o blues me pegou de jeito quando eu era criança/Soube rápido que mulheres e uísque fizeram esse selvagem garoto sulista”.

Depois, Ben Harper foi ocupando espaço com suas baladas mínimas, quase desencarnadas, esmerilhando a bela Don’t Look Twice. Juntos, parecem estar tirando sarro do que se convencionou chamar de “barreiras geracionais”. Não há concessões entre um e outro – Harper serve a Musselwhite, que o serve de volta, e eles não fazem concessões quando querem brilhar. Um show de arrepiar quem gosta de boa música.

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