Virada Cultural à toda velocidade e com rebeldia

Estadão

07 de maio de 2012 | 15h35

Jotabê Medeiros 

Pouca política, muita marra. Pouca comida, muita farra. Apesar dos banners colocados pelo chef Alex Atala em seu estande (“Veta Dilma”, alusão ao desejo de ver refutado o texto do Código Florestal aprovado no Congresso Nacional), a oitava edição da Virada Cultural não foi marcada por grandes arroubos da vontade política. É mais a avidez e a pressa que deixam lembranças. A fila de três quilômetros que estendeu-se pelo pelo Minhocão em busca de pratos populares de grandes chefs da gastronomia estava em busca de diversão e arte,  é claro, mas principalmente de comida e novas experiências.
 

A política que compareceu nessa Virada não foi a partidária, mas a noção clássica de política: o combate à repressão social, do Estado, comportamental, o estímulo à derrubada dos preconceitos e das barreiras de sexo e classe. Apresentações antológicas dos grupos Suicidal Tendencies e Titãs deflagraram, no domingo, a fome de rebelião.

 


       

O público, às 9h30, rompeu as grades de proteção dos Suicidal Tendencies e juntou-se ao grupo no palco, em mergulhos temerários rumo à multidão, em uma dança frenética e sem regras. Os Titãs revisitaram uma fase em que arremetiam furiosamente contra o “sistema”, e sua velha eficiência retornou como que por mágica à pauliceia, em hits atemporais como Polícia e Bichos Escrotos.
 
No palco da República, as meninas Flora Matos e Lurdez da Luz invertiam o axioma do hip-hop, de que a rima é coisa dura e de macho, e tornaram o ritmo, por uma tarde, refém de versos mais macios, danças mais sensuais e impregnadas dos dramas femininos mais cotidianos.
      

A Virada foi marcada por uma mais ampla diversidade de gêneros do que em anos anteriores – rap, carimbó, hardcore, blues, surf music, teatro alternativo, teatrão, pole dance, erudito, psicodelia, pop, brega. Dois atos artisticos sem letras – a guitarra chorosa e virtuosa de Popa Chubby, americano que tocou com Aretha Franklin e Ray Charles, e a surf music do grupo Man or Astro-Man – já podem figurar entre algumas das melhores apresentações da década na cidade.
 
Pinduca, o rei do carimbó paraense, colocou o Arouche para dançar com sua música e seu senso de humor desbragado, e chegou a festejar um time de futebol “alienígena”, o Paissandu, em plena praça de conflitos do trio de ferro paulista.
     
Uma trágica morte, mais grandes problemas com o consumo desenfreado de álcool, conduzem ao paradoxo fundamental da Virada: para quê tanta pressa? A Virada só dura um dia, mas tudo que ela oferece está disposto pela cidade em doses seguras e mais reflexivas ao longo do ano todo.

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