Viking metal e celtic metal no país do samba e do calor

Estadão

02 de dezembro de 2012 | 07h00

Marcelo Moreira

O fenômeno não é novo, mas está crescendo e se espalhando com mais velocidade nesta segunda década do século XXI. Bandas de rock cantando sobre realidades que estão a milhares de quilômetros de distância física e anos-luz de distância cultural, por mais esquisito que pareça.

Grupos de heavy metal da Argentina e do Brasil cantando e louvando a cultura celta, na melhor tradição irlandesa? Banda suíça fazendo referência à cultura viking? Grupos russos investindo em temas e incorporando personagens germânicos? Difícil não estranhar, mas ao mesmo tempo é mais difícil ainda não ficar curioso.

O Tuatha de Danann, banda da mineira Varginha, surpreendeu o rock brasileiro quando surgiu, em meados dos anos 90, como um Jethro Tull mais pesado e ao mesmo tempo bucólico, relatando histórias com base na cultura celta e em histórias tradicionais da Irlanda, na maioria das músicas – a tradição e a influência do povo celta se estendem, além da Irlanda, pela Escócia, País de Gales, Espanha, França, Canadá, Noruega, Dinamarca, Islândia e alguns outros países.

Os mineiros eram os representantes brasileiros de uma tendência do heavy metal em investir pesado em um nicho e exporá-lo em vários discos, mesmo correndo o risco de ser rotulado e ficar preso ao rótulo. Dependendo do tipo de música, o carimbo era folk metal, viking metal, celtic metal, oriental metal e coisas do tipo. É bem diferente do que fazem, por exemplo, Cruachan (Irlanda), Borknagar (Noruega) ou Korpiklaani (Finlândia), bandas que apostam em temas de suas próprias terras e culturas. 

A competência e a qualidade do grupo quase conseguiram superar essa situação, mas não houve jeito: quando se ouve falar em Tuatha de Danann, logo aparecem na mente os duentes e as flautas típicas da música celta. Mesmo reverenciados em uma das edições do Wacken Open Air, na Alemanha, o mais importante festival de heavy metal da atualidade, o carimbo sempre esteve lá.

Essa parece não ser a preocupação de diversas bandas de metal extremo brasileiras, por exemplo. O mais brutal black metal não consegue disfarçar a veneração quem legítimos paulistas, cariocas, paranaenses, baianos e cearenses devotam pelas paisagens bucólicas, frias, melancólicas e desoladoras da Escandinávia embranquecida por toneladas de neve. Parece esquisito. E é mesmo, mas não chega a ser um absurdo. É apenas música, é apenas heavy metal. 

Duas boas bandas brasileiras de uma safra nova despontam neste cenário com qualidade bem acima da média do que se faz no heavy metal atual, seja aqui ou no exterior. Hugin Munin, de Santos, e Lothloryen, surgida no interior de Minas Gerais, mostram competência e bom nível ao explorar um universo inóspito de culturas tão diferentes e completamente distintas de nossa vida tropical. 

 ”The Raving Souls Society” é o terceiro álbum do Lothloryen, recém-lançado. Os ecos do folk metal praticado pelo grupo, criado em 2002, com temas baseados na mitológia celta e com alguma inspiração em livros do escritor inglês J. R. R. Tolkien, de “O Senhor dos Anéis”, continuam, mas as letras estão mais refinadas e mais interessantes, assim como o conceito geral da nova obra.

 A abordagem é bem mais complexa agora: as diversas manifestações de loucura e sua influência nos episódios históricos e no cotidianodo mundo e dos cidadãaos. Embora o conceito lírico tenha evoluído, a conclusão do tema fica bem aberta, o que não é ruim, diga-se de passagem. Não se pode esperar profundidade filosófica em um álbum de heavy metal – ainda bem, embora muitas bandas pretensiosas busquem essa “perfeição” e chafurdem na chatice total.

 ”When Madness Calls” é um dos destaques do álbum, muito pesada e com riffs alucinantes de guitarra. “Hypnerotomachia”, com a participação de Helena Martins, do Ecliptyka, de Jundiaí (SP), é outra pérola de música pesada, com suas variações muito bem encaixadas e mais uma tonelada de bons riffs. “Temples Of Sand” e “A Tale Of Lunacy Forever” também merecem destaque. Cortesia da Shinigami Records, a boa produção é assinada por Raphael Augusto Lopes.

 Os santistas do Hugin Munin surgiram em 2007 e sempre apostaram no viking metal, por mais que isso soe bizarro. Os integrantes encarnam personagens mitológicos e usam pseudônimos que não fazem sentido para o roqueiro brasileiro, como Surt (vocalista), Thorgrim (guitarra), Hjalmar (guitarra), Sigurd (baixo) e Modi (bateria).

Soa ridículo? Talvez, mas não importa. O som que fazem é excelente, fazendo do grupo uma das revelações do metal brasileiro. O recém-lançado “Ten Thousand Spears For Ten Thousand Gods” é muito pesado e tem uma produção esmerada, coisa rara para bandas deste tipo de heavy metal no Brasil – foi gravado e mixado no estúdio PlayRec, em Santos. A masterização tem a assinatura do renomado Athanasios Karapanos, do Sonic Inspiration Studio, da Grécia.

 O grande destaque é “Ring of the Nibelung”, uma música épica de 21 minutos baseada na obra do compositor erudito alemão Richard Wagner e tem as participações especiais dos alemães Neurg e Bardauk (Waldwind), Goatherion (Wrinkled Witch) e da brasileira Luciana Campos (Intrisicum). Não dá para escapar da definição de metal progressivo para essa faixa, mas ela foge completamente dos clichês do gênero. São quatro movimentos que formam uma suíte de muito peso e velocidade na medida certa, com letra bem feita e bem agressiva.

 Aliás, agressividade é o que não falta em composições como “Once in the Grave” e “Death or Glory”, assim como a faixa-título. O trabalho de guitarras é exemplar e mostra como um bom trabaoho em estúdio pode ser feito sem que seja necessário gastar rios de dinheiro em estúdios de última geração. 

O folk metal de bandas brasileiras terá dificuldades para se livrar da aura de estranheza e até de esquisitce, mas o heavy metal nacional incorporou duas ótimas bandas novas para disputar espaço com as igualmente ótimas Hangar, Torture Squad, Shadowside e muitas outras.

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