'Ventura' é eleito o melhor disco brasileiro de todos os tempos

Estadão

07 de setembro de 2012 | 06h54

Emanuel Bomfim – Território Eldorado

Após onze dias da enquete aberta ao público, mais de 25 mil votos computados, o disco Ventura, da banda Los Hermanos, foi eleito por internautas o melhor álbum brasileiro da história, com 2.816 votos (veja o “Top 10” abaixo). Lançado em 2003 e produzido por Kassin, este é o terceiro trabalho de estúdio na carreira do quarteto carioca, formado por Marcelo Camelo, Rodrigo Amarante, Bruno Medina e Rodrigo Barba.

Na segunda posição da eleição promovida pela Rádio Eldorado FM, o portal Estadao.com e o Caderno C2+Música, do jornal ‘O Estado de S. Paulo’, ficou o álbum Clube da Esquina, de Milton Nascimento e Lô Borges, lançado em 1972. Dois, da Legião Urbana, terminou no terceiro lugar. Formada por 30 discos, a enquete ficou aberta para votações entre os dias 25 de agosto e 4 de setembro.

 Nas fronteiras entre o rock e a MPB, entre o alternativo e o mainstream, Ventura ajudou a consagrar dois dos melhores compositores e letristas da nova geração: Camelo e Amarante. Algo que não se via desde Renato Russo. Quase sempre românticas, as canções tem arranjos robustos e refinados, guitarras suingadas e metais em expansão. Vencedor e Cara Estranho foram os principais hits, seguidos por Samba a Dois e Último Romance.

Capa de 'Ventura'

Capa de ‘Ventura’ – ‘Divulgação

O disco sucedeu Bloco do Eu Sozinho (2001), marcado pelo rompimento com a gravadora Abril Music, que teria desgostado do resultado do disco. Existia uma expectativa de se emplacar uma “nova Anna Júlia”. A banda migrou para BMG e ali começou a aprofundar esta relação do rock, ambiente que os rapazes cresceram, com as referências da MPB, do samba e das marchinhas. O disco foi bem recebido pela crítica, mas teve pouca repercussão popular.

Com Ventura, a banda conquistou amplo prestígio, virou fenômeno pop e viu sua legião de fãs multiplicar em larga escala.

ENTREVISTA: Marcelo Camelo

Após consolidação do resultado da enquete, a reportagem conversou com o cantor Marcelo Camelo sobre o álbum, a eleição e o fato de Ventura ter sido um os primeiros álbuns brasileiros a vazar na web. Leia abaixo:

– Em enquete realizada com os internautas do Estadão e da Rádio Eldorado, Ventura foi eleito o melhor disco de todos os tempos. Como você recebe esta notícia?

Marcelo Camelo: Com muita alegria. Fico feliz com o reconhecimento do trabalho.

– A banda, ou você, tem esta percepção de que o Ventura foi o melhor disco da carreira dos Los Hermanos?

Todos os nossos discos são diferentes entre si. Estávamos em cada um deles vivendo e tentando projetar nossa realidade intensamente. Então é difícil pra mim colocá-los em proporção.

– Vencer esta enquete, que teve quase 30 mil votos em 2 semanas, é uma reafirmação da condição do Los Hermanos como banda que conquistou prestígio da crítica e do público?

Acho que é uma espécie de indicador não é? De reconhecimento.

– Soar pop, sem deixar de atender aos anseios artísticos, foi uma preocupação da banda?

Todo o processo é um pouco mais interiorizado e usa a intuição em vez de referências objetivas. O desejo de comunicar está contido na própria natureza da obra artística, assim como nossos anseios. A música está junto com estas forças e não sobre elas.


O cantor e compositor Marcelo Camelo (Foto: Caroline Bittencourt/Divulgação) 

– Quais lembranças você tem do processo de gravação do Ventura?

Fomos pela segunda vez pra um sítio pra produzir. Era uma casa maior e com uma estrutura um pouco melhor e estávamos mais confortáveis com este processo. Muitas das músicas estavam compostas, mas deixamos umas pra terminar ainda na casa. Pudemos tocar bastante e encontrar os arranjos graças a esta dedicação diária, essa disposição de estar ali todos os dias pra tentar construir a obra imersos nela desde o princípio. Tínhamos confiança porque o disco anterior fez parte de uma mudança em muitas direções e enfrentamos a hostilidade da crítica e do público antes de o próprio disco ganhar força nos ouvidos de todos. O ano anterior tinha sido um ano de conquista pela coragem de bancarmos nossas música a despeito das forças contrárias. Essa confiança nos deu uma perspectiva livre à frente.

– O disco representou uma espécie de “libertação” para vocês, após os problemas enfrentados com a gravadora no Bloco?

Acho que foi com o sucesso do Bloco do Eu Sozinho que conquistamos nosso público mais uma vez e a nossa confiança definitiva de fazer o que quiséssemos.

– O Vencedor, um dos principais hits deste álbum, é um pouco a essência do Los Hermanos? Uma banda que deu vez a delicadeza, em contraponto à testosterona em alta dos roqueiros do período?

Acho que como banda carregamos muitas contradições e esta é uma parte importante da nossa força.

– Qual foi o papel do Kassin no disco?

Muitas linhas de baixo, que tem um papel importante no arranjo, são dele. Também é uma pessoa de quem todos gostamos muito e servia por isso de catalisador e filtro das ideias.

Outro fato relevante marcou o lançamento de Ventura: foi um dos primeiros álbuns brasileiros a vazar na web. Como a banda reagiu ao fato na época?

Ficamos muito tristes e desapontados. Porque o que vazou foi uma versão caseira, de gravação de ensaio. E o vazamento foi quando ainda estávamos gravando o disco, então deu um desânimo danado de ter muitos meses de trabalho burlados em um estágio intermediário. Pareceu um desperdício de força.

– Você ainda ouve Ventura hoje? Que sensação te dá?

Não ouço há bastante tempo. Mas as músicas são próximas ainda. Tocamos muitas delas nesta turnê do começo do ano.

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