Venda de CDs em alta: notícias do velho império

Estadão

23 de dezembro de 2011 | 06h33

Roberta Pennafort

No ano que se encerra com o advento da loja do iTunes no Brasil (e o entusiasmo inicial de velhos e novos consumidores de música digital) e a aprovação da PEC da Música no Congresso (medida que garante a isenção tributária à indústria fonográfica e promete fazer cair os preços), alguns lançamentos de fôlego da indústria fonográfica brasileira deixam a dúvida ecoar: será que a sobrevida do CD se estendeu?

Em julho, a ‘até o ano passado desconhecida’ Paula Fernandes festejou a venda de 750 mil cópias de seu Ao Vivo em apenas cinco meses (do DVD, foram mais 750 mil), e agradeceu a quem preferiu os produtos originais aos piratas. Em setembro, Padre Marcelo Rossi apelou para a consciência dos fiéis alertando que “pirataria é pecado” – e em apenas uma semana viu sumir mais de 430 mil unidades de seu Ágape, lançado pela Sony (desde então, já se contabilizam 1,4 milhão de cópias). Chico Buarque, o maior lançamento independente, atingiu 70 mil de julho para cá.

São números que põem em xeque previsões pessimistas de analistas e mesmo de artistas – ao divulgar O Que Você Quer Saber de Verdade, Marisa Monte, a garota-propaganda do iTunes, autodeclarada “ferrenha consumidora de música pela internet”, assustou os fãs quando aventou a possibilidade de no futuro não lançar mais CDs, e sim faixas digitais; Gilberto Gil é outro que vê claramente o desaparecimento do suporte físico, que viraria “um produto de nicho, um fetiche, como aconteceu com o vinil”.

“É cedo para fazer uma previsão tão radical”, acredita o presidente da Associação Brasileira de Produtores de Discos, Paulo Rosa. Segundo ele, CDs e DVDs têm juntos 85% do mercado nacional. Em 2010, as vendas digitais – que nos EUA já respondem por metade da receita – cresceram 26%. Os dados de 2011, ainda não fechados, devem ser alvissareiros.

“Até agosto, a venda física era 7% maior do que a registrada em 2010, muito puxada pelo DVD. Isso é único no mundo. Sempre acreditei que o CD ainda tinha muito a dar”, diz José Éboli, presidente da Universal, gravadora de Paula. “É óbvio que barateando as pessoas compram. Houve uma época em que o CD custava o mesmo que um livro; hoje, um CD como o da Paula custa R$ 19,90, e um livro, o dobro.”

O clima para 2012 é de otimismo e ansiedade, principalmente entre as independentes, maiores beneficiadas pela PEC da Música. Elas têm como ponto de partida não a longínqua Zona Franca de Manaus, onde incide apenas 8% de ICMS, mas Estados como Rio e SP, onde a carga é de 32%. A coincidência com a chegada do iTunes é motivo de dupla comemoração.

“Foi um ano péssimo, mas que finalizou com essas excelentes notícias, e uma perspectiva de melhora. O iTunes pode significar mudança de mentalidade do brasileiro em relação à música digital, e com a PEC os preços vão ficar melhores. O mercado agora está bem otimista”, disse Luciana Pegorer, presidente da Associação Brasileira de Música Independente. A expectativa é que a proposta passe pelo Senado entre março e abril.

A Apple não divulga números parciais de suas vendas pelo iTunes, iniciadas na terça. Entre os dez mais baixados, de 20 milhões de músicas, estão faixas de Adele (três), Seu Jorge (duas), e Coldplay (duas).

Naturalmente, o Brasil é prioridade entre os 16 países latino-americanos onde a maçã foi mordida. Desde 2003, já foram comercializadas mais de 20 bilhões de músicas. Hoje, entre os emergentes, estão de fora gigantes como Rússia, China e Índia – neles, como aqui, grassa a pirataria.

Longe da morte

Ainda que incomparáveis aos de décadas atrás, os números da indústria fonográfica brasileira mostram que os que anunciam a morte do CD para meados desta que se inicia podem estar se precipitando. A verdade é que ninguém pode ter certeza, não se pode radicalizar.

As cifras do iTunes traduzem o poder de fogo da maior loja virtual de música e filmes do mundo, já presente em 51 países, do Canadá à Austrália (no grupo daqueles em subdesenvolvimento, destaca-se o México, o primeiro a entrar na lista, e, agora, o Brasil).

Uma geral em números mostra que o Brasil é mesmo um mercado peculiar. Enquanto grandes países jogam a pá de cal no disquinho, o mercado fala em aumentos de vendas com relação ao ano passado. A PEC da música, que tira a tributação dos CDs, também pode dar um fôlego novo no negócio de uma indústria fonográfica.

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