Vanguart em bom português

Estadão

20 de agosto de 2011 | 18h30

Lauro Lisboa Garcia – O Estado de S.Paulo

Num espaçoso apartamento no bairro da Barra Funda, em São Paulo, entre instrumentos musicais, móveis antigos, discos de vinil de Nina Simone, Beatles e Tom Waits, uma gata e até um toco de árvore que a tempestade derrubou semanas atrás, moram três integrantes do quinteto mato-grossense Vanguart. Ali, nos sofás da sala, o vocalista e violonista Helio Flanders e o baixista Reginaldo Lincoln começaram a compor várias das 13 canções do esperado segundo disco de estúdio da banda, Boa Parte de Mim Vai Embora (Vigilante/Deck).

O álbum será lançando virtualmente hoje, com ações inovadoras como aplicativo para Android, iPad e iPhone. Além das canções, há notícias sobre o grupo e informações sobre os shows, como o de sábado no Sesc Vila Mariana, quando sai o CD físico. Algumas faixas, como Depressa e Se Tiver Que Ser na Bala, Vai (que Flanders compôs sozinho numa praia deserta onde se exilou por um mês), já vêm sendo postadas pela banda em sua página no Facebook para esquentar o lançamento.

A primeira diferença em relação ao primeiro álbum, Vanguart (2007), é que desta vez não há nenhuma letra em inglês. Todas são em português com trechos em espanhol na primeira faixa, Mi Vida Eres Tu, que tem um ar brega de Waldick Soriano, de Reginaldo Rossi. “A gente vai fazer outro álbum em inglês pra lançar na internet, que não tem nada a ver com o Vanguart em português”, diz Flanders, que defende o inglês como escolha meramente estética, não mercadológica. Para Lincoln, como letrista foi importante “se libertar e falar as coisas em português”. “Fomos aos poucos nos revelando corajosos nesse sentido um pro outro.”

Quinteto na sala onde nasceram algumas canções do novo álbum

Quinteto na sala onde nasceram algumas canções do novo álbum – André Lessa/AE

Vindos de Cuiabá há cinco anos, os integrantes da banda acham bom que tenham dado esse longo intervalo entre o primeiro e o segundo álbum de estúdio. No meio do caminho teve o Multishow Registro ao vivo, com algumas faixas inéditas, mas esse não conta muito. “Aqui tocamos mais, fazemos mais shows, conhecemos outros músicos. Isso fez a gente sair do patamar quase profissional para semiprofissional e talvez chegar ao profissional de verdade”, diz o baterista Douglas Godoy.

A mudança musical nem foi tanta, o grupo continua fazendo folk-rock, mas sempre “buscando coisas novas nessa linha”, diz Godoy. “Foi uma evolução natural de arranjo e de composição”, emenda o tecladista Luiz Lazzaroto. “São Paulo juntou mais a gente no dia a dia, mas quando gravamos o primeiro disco em Cuiabá, a gente também tinha a casa para trabalhar. Acho que conseguimos trazer essa vivência, essa coisa da “nossa casa”, para também ter um conforto musical”, diz Lincoln. Dessa maneira, evitam também cair no clichê da saudade de quem teve de partir.

Trabalhando em clima de contribuição mútua, Flanders e Lincoln dividem as composições em cerca de metade do disco. Foram poucas as canções em que eles tiveram de “tirar leite de pedra”. De Nessa Cidade eles desistiram “umas cinco vezes”. Engole (Arde Mais Que Brasa em Pele Quente) foi outra das complicadas. “No disco anterior queríamos tudo muito instintivo, muito natural, o que é importante, mas acho que a gente está se libertando disso. Algumas músicas a gente tem de trabalhar nelas”, continua Lincoln.

Melancolia. As reflexivas letras das canções versam muito sobre ausências, despedidas, desilusões, dores de amor e morte. Não que isso seja novidade. Semáforo, que abria o álbum anterior e virou hit, tinha o verso “todos os meus amigos querem morrer” como golpe final. Há até quem identifique algo de Legião Urbana em Se Tiver, Que Ser na Bala, Vai, mas não foi intencional, embora eles achem que possa ter alguma relação nesse aspecto da melancolia, que parece bater mais forte agora.

“São vários fatores. O lance da morte é que sou levemente profundamente hipocondríaco”, diz Flanders, em tom bem-humorado. “Tive perdas na minha vida também, como todo mundo tem. Para mim, essa é a grande reflexão da vida – acho que isso vem dos poetas que leio, desde Walt Whitman até Álvaro de Campos -, é o grande mistério. E na hora em que você se vê sozinho numa cidade deste tamanho e vai pro seu quarto refletir, logicamente vai pensar nisso.”

Ele também sente um certo “bode” em relação a gente que está “abrandando a vida e os sentimentos”, fazendo análise. “Não é fácil fazer arte no Brasil, é um ato de coragem mesmo e se a gente vai compor, tem de falar do que está rolando. Nos últimos dois anos parece que os cantores que ficaram mais cool, mais hype ignoraram essa fatia da vida. Acho legal até, já está dura a vida, vamos ouvir músicas mais pra cima, mas também não dá pra se iludir com as coisas.”

Houve um momento em que Flanders achou que o disco estava muito a cara de Drama 3.º Ato, de Maria Bethânia, deprê demais, e entrou em conflito. “Mas é a nossa onda, é o meu jeito de escrever. Acho que o próximo disco que a gente lançar não vai ser essa temática desse jeito”, diz o cantor, que, como Lincoln, passou por “separações traumáticas”.

Em Amigo, a letra diz: “Outro dia um amigo veio me falar /Que tinha conhecido um outro lugar / Que era além da vida, que era além do céu /Pra onde é que a gente vai daqui?”. Depressa, uma das melhores canções do álbum, tem versos como: “Põe a faca no chão /Juro que não vou te machucar”. O título de Morrerão já fala por si: “Quem não morreria ao ver você assim /Tão bonita no seu último olhar?”.

Engole (Arde Mais Que Brasa em Pele Quente) diz: “Quem acordou de um suicídio/ Sabe bem como é que é ter paciência”. “Quando escrevo essas coisas busco a imagem. Suicídio é a coisa mais terrível que uma pessoa pode cometer, mas a imagem é muito forte. Acho que quem já passou por isso vai entender melhor do que eu”, diz Flanders.

Mulheres. No primeiro CD, Flanders, Lincoln, Godoy, Lazzaroto e David Dafré (guitarra) contaram com um quarteto de cordas. Agora há a violinista Fernanda Kostchak integrada à banda e as músicas em que ela toca “acabaram existindo muito por conta dela”. Fernanda – que está na capa do disco ao lado de Cida Moreira, Daniela Dams e Rafaela Tomasi – “trouxe uma luz” para o quinteto. “Estávamos só os cinco tocando juntos havia seis anos, foi bom ter uma pessoa nova. Acho que o disco não teria esse resultado sem a Fernanda. Ela não está só na música, está na alma desse disco também”, diz Flanders.

A ideia da capa é da “casa tomada”, referência ao escritor argentino Julio Cortázar, outro de quem Flanders é profundo admirador: “Os homens vão embora e as mulheres seguram as pontas. É uma maneira de homenageá-las”, diz o compositor.

VANGUART
Sesc Vila Mariana. Rua Pelotas, 141
Telefone 5080-3000
Sábado, 20 de agosto, 21 horas
R$ 6 a R$ 24

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