Van Halen I, 35 anos da erupção

Estadão

28 Fevereiro 2013 | 07h00

Diogo Salles – republicado pelo site Geek Musical

Exatamente neste dia 10 de fevereiro, mas em 1978, o Van Halen lançava seu primeiro e auto-intitulado disco, que se tornou um dos maiores debutes da história do rock. O cenário roqueiro daquela época era agonizante. O Deep Purple já havia se dissolvido e Led Zeppelin, Black Sabbath e Aerosmith rumavam na mesma direção. A febre da disco dominava completamente a cena. O rock de então chafurdava entre a pomposidade do progressivo e a bagaceira do punk.

Em meio ao limbo, surgiu o Van Halen, assombrando a seara roqueira com uma sucessão de petardos que mudariam sua história e trariam de volta à tona a figura do guitar hero. Furioso, melódico e virtuoso, Van Halen I, como é popularmente conhecido, permanece até hoje como o seu melhor e mais inovador disco. Depois dele, a banda se inclinou para uma abordagem mais comercial e conquistou o grande público com hits como “Dreams” (da fase Sammy Hagar) e “Jump”. Mas toda a sua gênese estava aqui.

O quarteto californiano, que surgiu em 1974 sob o nome de Mammoth, era formado pelos irmãos descendentes de holandeses Eddie e Alex Van Halen, pelo vocalista judeu David Lee Roth e o baixista Mark Stone, que logo seria substituído por Michael Anthony. Não era uma banda qualquer. Eddie Van Halen se tornaria rapidamente um dos mais importantes e influentes guitarristas de sua geração. Influenciado na adolescência por Eric Clapton, ele combinou o rock pesado com o blues e definiu o “Brown Sound”. Seu estilo – vastamente copiado, jamais equiparado – combinava riffs criativos, solos bem construídos e técnicos, harmônicos até então inimagináveis e um senso melódico incomum.

David Lee Roth também estava longe de ser classificado como um mero vocalista. Fanfarrão e excêntrico, “Diamond Dave” deu um novo significado ao termo “front-man”. Era um visionário. Foi ele quem sugeriu o nome Van Halen para a banda, inspirado por uma analogia com o grupo do guitarrista Carlos Santana. Foi ele também quem desenhou o logotipo e os flyers para a divulgação dos primeiros shows da banda.

Até hoje muito se comenta sobre o famoso solo de “Eruption”. Revolucionário e devastador, fez desmoronar todos os queixos dos metaleiros de plantão. Eddie Van Halen popularizou a técnica conhecida por “two-hands”, em que ele usava as duas mãos no braço da guitarra, digitando notas freneticamente. Inspirado pelo solo de “Heartbreaker”, do Led Zeppelin, Eddie usou algo que já existia (e que era feito muito sutilmente) e adaptou a técnica à sua própria maneira de tocar, alternando escalas de forma agressiva e genial. Nascia ali um mito. Muito do que se fez nas décadas seguintes no rock e no heavy metal teria sua influência direta.

Mas para se chegar ao conceito do disco antológico, o caminho foi tortuoso. Ao mesmo tempo em que tocava covers de clássicos de Cream e The Who nos canhestros botequins de Los Angeles, a banda compunha seu próprio material e batalhava por espaço na então decadente cena roqueira. Em 1976, uma dessas apresentações chamou a atenção de Gene Simmons, baixista do Kiss, que resolveu bancar uma demo para a promissora banda. O que seria o primeiro passo para a consagração mostrou-se uma decepção. Conta-se que o real interesse de Gene Simmons era exclusivamente em Eddie Van Halen e cogitou-se até em trazê-lo para o Kiss, coisa que acabou não ocorrendo por interferência de David Lee Roth.

Até que, finalmente, em maio de 1977, a Warner Bros contrata o Van Halen através de Ted Templeman, que seria o produtor dos 6 primeiros discos da banda. Este era o passo definitivo para o inevitável. Uma segunda demo é gravada com aproximadamente 25 músicas. As gravações para o disco ocorrem, de fato, entre agosto e setembro de 1977. O que viria depois é história.

Curiosidades sobre as gravações

1) A produção custou 40 mil dólares. O disco atingiu platina em outubro de 1978 e vendeu mais de 10 milhões de cópias só nos EUA. As gravações do álbum aconteceram no estúdio Sunset Sound, em Hollywood e duraram 18 dias.

2) As buzinas que aparecem no começo de “Runnin’ With the Devil” eram originalmente parte da música “House of Pain”, que só seria lançada oficialmente no disco 1984. É também uma das três músicas do disco que possuem overdubs de guitarra (as outras são “Jamie’s Cryin” e “Ice Cream Man”).

3) O que pouca gente sabe é que a música “Eruption” quase não entrou no disco. Até então, tratava-se apenas de uma parte do solo de Eddie Van Halen nos shows e ele a usava como ‘aquecimento’ para as gravações. Quando o produtor Ted Templeman viu aquilo, ordenou que entrasse no disco. Segundo o próprio Eddie, ele poderia tê-la tocado melhor, pois, em sua visão, existem alguns erros.

4) “Ain’t Talkin’ ‘bout Love” foi outro clássico (um dos maiores da banda) que correu sério risco de não ver a luz do dia. Durante meses, Eddie Van Halen escondeu esta música dos outros membros da banda por achá-la simples demais.

5) A gravação de “Jamie’s Cryin” foi marcada por uma situação cômica. David Lee Roth conta que evitou os excessos e chegou a cuidar de sua saúde para gravá-la. Depois dos primeiros takes, Ted Templeman, contrariado, disse que algo estava errado, que não soava como ele. Quando David lhe contou que estava cuidando da alimentação, fazendo exercícios e não estava fumando, o produtor ordenou: “Vá agora comer um cheeseburger e fumar um baseado”. De volta ao estúdio, a gravação de “Jamie’s Cryin” deu-se em 40 minutos.

6) “Ice Cream Man” é um cover da música escrita por John Brim. A introdução acústica foi gravada por David Lee Roth e diz a lenda que foi sua interpretação para esta música que fez Alex e Eddie Van Halen convidarem-no para entrar na banda.

* matéria originalmente publicada no Jornal da Tarde, em 10 fevereiro de 2008 e atualizada em 10 de fevereiro de 2013

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