Vai faltar cerveja de cortesia para os músicos que aceitarem tocar de graça

Estadão

14 de agosto de 2013 | 06h52

Marcelo Moreira

– Eu ofereço R$ 60 para vocês tocarem no meu pub.

– Para com isso, é muito pouco, tem de ser no mínimo R$ 100.

– Não dá, cara, é R$ 60, é o que eu pago para todos os que tocam aqui.

– Vamos ser razoáveis, pelo menos R$ 80, para que cada um consiga ao menos pagar a gasolina e tomar alguma… Somos um quarteto.

– Cara, é o que posso pagar: R$ 60 para vocês. Quero que vocês venham, mas se não der tem outra banda que está fila.

– Mas R$ 60 para cada um é uma indignidade. Não cobre nem a manutenção de nada.

– Para cada um? Quem disse isso? Ficou louco? O que eu pago é R$ 60 para a banda inteira. – Em seguida, o músico, perplexo, falou um palavrão e bateu o telefone.

O diálogo nojento acima ocorreu recentemente entre um requisitado músico de rock e blues rock de São Paulo e o dono de um bar bacana e requintado em uma cidade da Grande São Paulo. Quem pensa que o desrespeito de produtores musicais e donos de casas de shows se limitava ao heavy metal no Brasil, uma triste notícia: a desfaçatez e a falta de respeito estão disseminadas no meio musical como um todo para artistas que não são medalhões.

O músico em questão, que pediu para não ter identificado por razões óbvias, tem uma sólida carreira no Brasil e frequentemente faz turnês no exterior, tendo inclusive gravado três CDs lá fora. Ele não acreditou quando ouviu a proposta indecorosa. “É por essas e outras que estou diminuindo o número de apresentações no Brasil. Acaba não compensando. Há lugares legais na zona leste de são Paulo, na zona sul, no ABC que abrem espaço para o rock com levada blues e também para o blues tradicional, mas alguns deles simplesmente desrespeitam os músicos com cachês que mal cobrem o combustível. E os caras se recusam a pagar R$ 100 para cada músico de um quarteto, quando às vezes R$ 400 é o valor gasto em uma única mesa. Não dá para sair de casa, levar equipamento que custa em torno de R$ 10 mil, para receber apenas R$ 100 por uma hora e meia ou mais de espetáculo”, desabafou.

O assunto é pertinente no momento em que se discute a “filosofia cultural” de um grupo chamado Fora de Eixo, que tem apoio de alguns governos petistas e entidades de esquerda. Esse grupo, que teve participação importante na organização da última Virada Cultural Paulistana – aquela que simplesmente baniu o rock -, apoia os chamados Ninjas (Narrativas Jornalismo e Ação), uma excrescência midiática que tenta se travestir de jornalismo e não consegue.

Entre algumas pérolas da “filosofia” do Fora de Eixo, está a recusa do pagamento de cachês a artistas iniciantes que tocam em festivais criados por eles. Segundo o jornalista Márvio dos Anjos, jornalista e músico, que teve banda e o desprazer de ter lidar com esses cidadãos do Fora do Eixo,  “no exato momento em que os festivais da Abrafin ganharam dinheiro da Petrobras (o 1o. edital é de 2007, o festival dele passa a ser beneficiado em 2008), Pablo Capilé, um dos líderes do grupo, passou a defender que os artistas mais novos e menos conhecidos – que tocavam por apenas 20 minutos nos festivais – não ganhassem passagem nem cachê. A Abrafin é a Associação Brasileira de Festivais Independentes, criada em 2005 para negociar fomentos em bloco).”

Ainda de acordo com o jornalista, Capilé dizia da forma mais absolutamente cínica possível, e não apenas em uma entrevista, que artista iniciante não deveria cobrar cachê. Era uma política institucional do Fora do Eixo e seus festivais rezavam por essa cartilha. “Sobre pagar cachês, o texto do 1o. edital da Petrobras para Festivais (2007) era bem claro no que tange o seu 11o. pré-requisito: todos os artistas devem ser remunerados.” O texto completo de Márvio dos Anjos pode ser lido aqui. Em entrevista ao portal UOL, Capilé disse que não é e nunca foi contra o pagamento de cachês a artistas, mas não conseguiu explicar em que se baseia a “política” de remuneração proposta pelo grupo Fora do Eixo, que realiza supostos intercâmbios culturais pelo país. Leia a entrevista aqui.

O fato é que o tal grupo recebeu uma quantidade grande de acusações de produtores culturais, artistas e ex-integrantes de omissão de informações em relação a patrocínios, de não solucionar problemas nas prestações de contas de dinheiro investido em produções culturais e em relação ao pagamento de cachês.

Quando uma “entidade” que lida com cultura, recebendo dinheiro público, implanta uma filosofia de repúdio ao que chama de “mercantilização da cultura”, mas que na verdade oprime e explora o artista, é sinal de que há uma falência completa da política cultural em todos os níveis – federal, estadual e municipal. Mais grave do que isso, é a falência moral de um Estado que usa a cultura como mera moeda política na distribuição de cargos públicos. E a cultura em vários níveis está entregue a grupelhos equivocados e insanos que ideologizaram o debate e os critérios para “disseminar cultura”.

É elucidativo observar mais algumas palavras de Márvio dos Anjos, em texto publicado no seu próprio blog: “Em 2008, numa palestra do Abril Pro Rock (que tinha orçamento de R$ 1 milhão, engordado pela Petrobras), eu testemunhei Capilé repudiar a forma como se remunera artistas. Foi no auditório da Livraria Cultura. Eu cobria os shows para a Folha de S. Paulo.  Não acreditei quando ouvi. Fui interpelá-lo depois. Disse-lhe que ele era criminoso em dizer isso num momento em que o dinheiro da Petrobras começava a fluir. Para ele, o importante era ‘ver a cena crescer e depois quem sabe repartir’.”

Dois anos depois, a opinião dele não mudava”, continua o jornalista, “Pablo, já com a maioria na Abrafin, deu estas declarações ao zine ‘O Inimigo’, se autodenominando sem qualquer pudor: (…) [é preciso] entender os festivais mais como mostra do que como plano de sustentabilidade financeira. Eu sou dentro da Abrafin um defensor de que não se deveria pagar cachê as bandas. Festival é uma mostra.” (extraído do blog de Rogério Skylab).

Então é isso? O artista apenas “mostra” seu trabalho? Não precisa ser remunerado? Tem de agradecer de joelhos a “chance” de tocar de graça e ser aceito pela burocracia cultural de tendências esquerdistas que repudia o pagamento de cachês?

Contaminação

Esse pensamento é perigoso, pois encontra eco em boa parte das administrações do PT, PSOL e PSB espalhadas pelo país. O Fora do Eixo já tem um pé fincado na Prefeitura de São Paulo (administrada pelo PT) e vários simpatizantes em várias cidades importantes do Estado de São Paulo e outras da região Sul igualmente sob domínio de partidos de esquerda.

Diante desse quadro em âmbito oficial, não e de se surpreender a disseminação da falta de respeito e desvalorização progressiva do produto artístico musical. O comportamento de produtores culturais e dono de bares encontra respaldo em situações desagradáveis como a descrita no começo do texto – ainda que supostamente a ideologia envolvida seja  diferente.

Tocar de graça não deveria ser uma opção, mas está sendo com uma frequência preocupante no Brasil e essa degradação começa a afetar artistas que têm trabalhos respeitáveis, mas que não tem penetração no circuito de grandes casas de shows – quando muito, em algum festival promovido pelo Sesc. Esse tipo de profissional da música sempre conseguiu viver razoavelmente bem na imensa rede de bares das grandes cidades, mas aos poucos o panorama começou a mudar. Muitos amadores começaram a ocupar os espaços – e amadores no sentido literal do termo, ou seja, profissionais de outras áreas que são músicos diletantes, de final de semana, sem trabalho autoral e que toca, quando muito, em troca de algumas cervejas.

Banda toca no Dinossauros Bar, na zona oeste de São Paulo: local é um dos mais interessantes para se ouvir música bem tocada na capital, mas sempre deixou claro que ali o forte são as bandas que fazem versões de clássicos. Outras casas seguem no mesmo caminho, reduzindo a quantidade de locais para bandas tocarem material próprio (FOTO: DIVULGAÇÃO/ SITE OFICIAL DO DINOSSAUROS ROCK BAR)

É uma distorção de mercado que, se não pode ser evitada, ao menos tem de ser amenizada. Entretanto, parece haver pouco interesse em impedir que essa distorção predomine. E com isso bons nomes do rock pesado, do pop rock e do blues no Brasil são escanteados.

Não faz muito tempo era bastante comum em São Paulo e nas cidades de sua região metropolitana observar na agenda cultural de uma semana cheia nomes de artistas como Baranga, Motorocker, Carro Bomba, Pedra, Tomada, Cracker Blues, Bando do Velho Jack, Michael Navarro, Sergio Duarte, Ivan Marcio e muitos outros tocando em casas de vários tamanhos e portes. Pegue hoje a agenda musical de qualquer site atualizado e decente e observe a enxugada de eventos com artistas de porte médio como os citados.

E os novos nomes? Alguém lembra do último show do trio O Terno em São Paulo? Dos cuiabanos do Vanguart? Das meninas da banda As Radioativas? Do intrigante Fábrica de Animais? Cadê o circuito de música alternativa? “Cansei de tocar por dinheiro de pinga em bares bem legais, com boa estrutura. O rock e o pop rock de bandas iniciante está sendo asfixiado. Ninguém mais tem interesse em trabalho autoral, parte expressiva de quem se interessa por música perdeu essa característica. Ou a banda novata tem o seu público cativo, que não passa de dez ou quinze pessoas, ou então vai encontrar muitas portas fechadas”, relata um guitarrista que tocou em duas bandas de certo renome nos anos 90 e 2000 e que está em vias de abrir seu próprio estúdio musical e abandonar os palcos. Também, por razões óbvias, pede para que seu nome não seja publicado para evitar consequências no futuro negócio.

O músico levantou um tópico interessante: o público se desacostumou a apreciar trabalhos autorais nas grandes capitais porque os produtores e donos de bares preferiram o dinheiro fácil ou economizar, ou então foram os produtores e donos de bares que decidiram abandonar os trabalhos autorais por que o público se desinteressou?

Acomodação

Culpar o público sempre é uma trilha perigosa, que esbarra na auto-indulgência e fatalmente esconde os reais motivos da decadência. Entretanto, é um dado que não pode ser ignorado: já faz tempo que o público que ainda aprecia rock e pop rock nas grandes cidades abandonou os novos artistas, exceto talvez em alguns locais como interior de São Paulo e em nichos localizados em Curitiba e Porto Alegre. Esse público sumiu dos bares e dos auditórios, migrou para outros tipos de programas culturais – ou pior, para outros ritmos musicais, geralmente abomináveis.

Muitos vão se apressar e dizer que a qualidade dos artistas novos é ruim, o que explicaria a debandada – ou suposta debandada. Seria um argumento válido se possível constatar que ao menos os artistas iniciantes e com trabalho inédito tivessem sido ao menos avaliados, ainda que mal e porcamente. Nem, isso aconteceu.

E então podemos chegar a uma conclusão, mesmo longe de ser definitiva: produtores culturais e donos de bares decidem economizar – ou ganhar mais pagando bem menos – contratando artistas de qualidade duvidosa, de outros gêneros musicais, ou então bandas que aceitam tocar versões de hits e clássicos, as chamadas bandas cover. Mesmo ruim, uma banda cover consegue ao menos incomodar menos do que quem toca coisas desconhecidas e próprias, disse-me uma vez  um dono de bar da zona norte de São Paulo.

Mesmo recebendo porcaria oferecida pelos “empresários”, o público não se importou, perdendo o interesse em música autoral, seja por acomodação ou por completo desprezo pela música em si. Então temos a desvalorização musical em todos os níveis: na produção, no empresariamento/contratação (donos de bares), no público eventualmente acomodado ou sem interesse e no músico que se sujeita a ganhar “dinheiro de pinga” em troca de cerveja.

Desolador é pouco para qualificar o estado das coisas no momento. E sair correndo em direção ao Sesc em busca de salvação não é uma alternativa para a maioria dos artistas que apresentam trabalho autoral mas que ainda não têm currículo relevante. Minifestivais bancados por prefeituras também não, já que não há espaço para tudo mundo. E o pior é que, se os músicos resolverem jogar tudo para o alto e aceitarem tocar de graça, não vai ter nem mesmo a cervejinha de cortesia para todo mundo…

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