Vá ao Rock in Rio, mas pense bem antes de convidar alguém

Estadão

12 de setembro de 2011 | 06h33

Marcelo Moreira

Vá ao Rock in Rio 2011, mas não me convide. A máxima aplicada aos chatos que costumam aborrecer pedestres nas grandes cidades com campanhas de incentivo ao teatro está sendo aplicada ao grande festival do Rio de Janeiro, que acontece a partir do final do mês, em alguns círculos musicais paulistas.

Descontando a má vontade evidente por conta do gigantismo do evento e também a mais do que evidente inveja, o fato é que o Rock in Rio 2011 hoje não passa de uma marca – poderosa, é verdade –, mas apenas uma marca. Qual o seu significado para 2011, após 26 anos da primeira edição e depois de perambular por locais com Lisboa e Madri?

Para quem gosta de rock puro, a resposta fica cada vez mais difícil – e irrelevante. O novo conceito do festival, já testado e aprovado na Europa, expande as fronteiras artísticas: é uma grande feira de entretenimento, onde a música e os shows ao vivo passam a ser apenas mais uma das atrações. E isso é algo cada vez mais difícil de engolir para parcela expressiva do público brasileiro mais ligado à música.

A diretora-geral do evento, Roberta Medina, é uma entusiasta deste modelo e nunca escondeu que, como modelo de negócio, somente desta forma o Rock in Rio é viável – ainda mais no Brasil: uma ampla mistura de ritmos, cores, tribos e os mais variados tipos de entretenimento, com muitos palcos e mais de uma centena de atrações artísticas.

Motorhead, uma das poucas coisas que valem a pena e que são verdadeiramente rock

O conceito não é novo no Brasil. Já foi aplicado anteriormente, em maior ou menor escala, nos festivais Planeta Terra, SWU e Atlântida. O Rock in Rio 2011 levou ao extremo o conceito, que não deixa de ser interessante, principalmente para quem consome entretenimento, e não apenas shows e música.

O difícil é saber se o tal conceito vai pegar em edições futuras, não levando em consideração aqueles que, em tese, foram o suporte dos principais festivais brasileiros que vieram na cola do próprio Rock in Rio I, de 1985: os fãs de música e, em particular, de rock em geral.

Se hoje já não existe mais o apelo do artista inédito ao vivo no Brasil – quase todo mundo que importa e que conta no rock e na música pop já pisou no Brasil nos últimos 26 anos –, ainda existe a celebração e o culto à boa música e à excelência das apresentações ao vivo.

O novo formato privilegia a diversidade hoje tão característica em festivais como Glastonbury (Inglaterra), Reading (Inglaterra), Roskilde (Dinamarca) e Graspop (Bélgica), onde heavy metal, pop, hip hop, reggae, world music e outros ritmos convivem sem dificuldades. Foi assim nas edições do Rock in Rio de Madri e Lisboa.

Transplantado para o Rio de Janeiro, o modelo mistura o peso e a força de Metallica e Motorhead com a história densa do soul/pop/funk/rock/blues do mito Stevie Wonder (até aí nada contra) e com as ladainhas e falta de qualidade do que hoje se chama rhythm and blues –coisas dispensáveis e descoladas como Rihanna.

Stevie Winder, um gênio pop descolado em um festival 'desfocado'

Há ainda coisas mais dispensáveis ainda, como Kate Perry, Shakira, Cláudia Leitte, Ivete Sangalo e a chamada “Pista Eletrônica”, setor totalmente incompatível com um festival que tem rock no nome.

Ou seja, quem pretende assistir alguma coisa de qualidade terá de suportar coisas indignas de figurarem em um festival da grandiosidade e da importância do Rcok in Rio. Restará apenas tentar pinçar algo interessante no palco Sunset, cuja programação será marcada por encontros inusitados – Ed Motta receberá o português Rui Veloso e o guitarrista Andreas Kisser, do Sepultura (???); Bebel Gilberto cantará com Sandra de Sá (?????); Marcelo Jeneci e Curumim (???); Marcelo Yuka tocará com Cibelle, Karina Buhr e Amora Pêra (?????????); Cidade Negra (aaargh) receberá Martinho da Vila e Emicida (??????????????????); Erasmo Carlos e Arnaldo Antunes; Zeca Baleiro (????????); Mutantes tocando com Tom Zé (fuja do planeta!); Marcelo Camelo e The Growlers (fuja da galáxia!)…

Esperanza Spaulding é uma das atrações interessantes dos palcos secundários

Esqueça todas essas bizarrices. Vá no certo neste Sunset Stage: Milton Nascimento com a jazzista Esperanza Spaulding; Matanza e B Negão (vale pelo Matanza); Korzus tocando com os Punk Metal Allstars; Angra tocando com a cantora finlandesa Tarja Turunen (ex-Nightwish); Sepultura recebendo o Tambours du Bronx; Titãs no mesmo palco que a veteraníssima banda punk portuguesa Xutos & Pontapés; Afrika Bambaata cantando com Paula Lima (vale pela curiosidade).

O rock sai perdendo de goleada no Rock in Rio 4 com seu novo conceito de diversidade e entretenimento. Ganham a pluralidade e a orientação quase que exclusivamente pop. A música lentamente deixa de ser o foco principal. Que assim seja. Mas não me convide, por favor…

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