Uma raridade ao vivo de Emerson, Lake and Powell chega às lojas

Estadão

13 de agosto de 2012 | 06h31

 Marcelo Moreira

São raros os artistas que percebem a situação de esgotamento criativo e admitem que passam por tal problema. E mais raros ainda aqueles que tomam decisões radicasi para mudar. O tecladista inglês Keith Emerson teve essa sabedoria e reuniu coragem para convencer os colegas Greg Lake (baixo e vocal) e Carl Palmer (bateria) a encerrar o trio Emerson, Lake and Palmer no fim do auge da trajetória do grupo em 1980.

Quando houve a volta, seis anos depois, os fãs foram surpreendidos. O ELP voltava à ativa, mas o P não era Palmer, mas um certo senhor Powell – Cozy Powell, um dos melhores bateristas da história do rock, um substituto à altura para a lenda Carl Palmer. E o trio virou Emerson, Lake and Powell, que lançou apenas um trabalho, em 1986.

Encerrando o cilco de comemorações dos 25 anos do breve aparecimento do trio, chega às lojas “Live in Concert & More”, considerado o primeiro e verdadeiro álbum ao vivo daquela formação – no começo dos anos 2000 surgiu um CD duplo chamado “An Official Bootleg”, com qualidade de som apenas razoável, mas não reconhecido pelo grupo na discografia oficial.

“Live In Concert – An Official Bootleg” (2003) é o único registro com alguma qualidade ao vivo dessa encarnação do trio. Era um bootleg fruto de transmissão de rádio de um show realizado em Lakeland, Florida, em novembro de 1986. O áudio foi tratado e masterizado, por isso a qualidade aqui é bem acima da média para um disco pirata.
 
O novo álbum, duplo em CD, registra uma apresentação da banda na cidade de Philadelphia em 1986, durante a turnê norte-americana de promoção do álbum que lavava o nome do trio. É um registro histórico, pois finalmente se pode ouvir de forma decente Emerson, Lake and Powell no palco, com as óbvias alterações no som trazidas pelo novo baterista, que tinha origem no rock pesado.

A qualidade de som é perfeita, assim como a performance da banda. Emerson resgatou o seu vistuosismo, bem como o seu exibicionismo habitual, e se mostrava muito à vontade. Lake demonstrou estar um pouco mais travado, mas em nenhum momento isso afetou a qualidade do show. Powell foi muito competente, segurou o ímpeto de seu virtuosismo, mas fez questão de deixar a sua marca, batendo forte e pesado.

Para colecionadores e fãs de rock, é imperdível. ainda não há notícias de que uma edição nacional sairá tão cedo, mas as edições alemãs e norte-americanas já estão à venda em grandes sites.

Capa do álbum 'Live in Concert & More'

E surge um grande P como opção

Na época em Keith Emerson reunia forças para ao menos discutir a separação ou eventual hiato prolongado do trio, em 1980, Lake e Palmer tinham a mesma impressão, mas cada um deles estava reticente em abrir o jogo com os colegas, com medo de errar feio. Emerson tomou a iniciativa de colocar o assunto na mesa. Aliviados, todos admitiram que era hora de parar por ali, após o os resultados dececpcionantes do apenas mediado álbum “Love Beach”, de 1979.

Felizes, os três encerram o grupo sem dramas e partiram para novos projetos. palmer montou o Asia com John Wetton (ex-Uriah Heep e King Crimson), Steve Howe (ex-Yes na época) e Geoff Downes (tecladista com passagem pelo Yes). Emerson e Lake iniciaram carreiras solo.

Seis anos depois, uma onda de nostalgia assolou o mundo do rock progressivo com o surpreendente sucesso da nova formação do Yes, ressuscitado em 1983 com pegada um pouco mais pop e totalmente estourado nas paradas com o álbum “90125”, puxado pelo megahit “Owner of a Lonely Heart”.

Greg Lake achou que seria uma boa ideia reativar o antigo trio, já que sua carreira solo não decolara. Não foi difícil convencer Keith Emerson, até então o mais reticente com a reunião.

Embora com carreira solo relativamente bem-sucedida e enfronhado na área de composição de trrilhas sonoras para cinema, adorava os holofotes e estava ressentido por estar “esquecido” em um tempo onde o heavy metal cru e barulhento e o hard rock de cabelos de laquê dominavam tudo.

O problema era Carl Palmer, então líder do Asia, que se tornara um sucesso monstruoso com sua música pop derivada do roci progressivo, mas com bom gosto. O baterista ficou tentado a se reunir com os antigos companheiros, mas não conseguiu se desincumbir dos compromissos com sua banda à época. ele tentou várias soluções, mas Howe e Downes pediram para que não saísse.

O jeito foi improvisar e achar outro P para reativar o ELP. A opção foi encontrada de fomra muito rápida e de forma consensual: Cozy Powell, um virtuoso da bateria com  pegada forte e tendência a se envolver com projetos de música pesada. O currículo era impressionante: o obscuro mas ótimo Bedlam, Jeff Beck Group, Rainbow, Whitesnake, Roger Daltrey, Black Sabbath, Michael Schenker Group, Gary Moore…

O entrosamento não foi difícil, já que Powell era muito profisssional e excelente músico. No final de 1985 o acordo foi selado e o trio logo entrou em estúdio para gravar o único álbum da banda, “Emerson, Lake and Powell”, de grande repercussão e bom desempenho nas emissoras de rádio de paradas de sucesso, ancoradas na música power progressiva “Touch and Go”, sucesso imediato.

Capa de 'Emerson, Lake and Powell', de 1986

Outras ideias muito boas estavam no disco, como a excelente “The Score”, totalmente progressiva, com ar3es setentistas, mas com sonoridade moderna e um show de exibicionismo de Emerson.

Para compensar a dispensável balada “Lay Down Your Guns”, um monumento erudito em forma de rock pesado e progressivo: “Mars, The Bringer of War”, do compositor austríaco Gustav Holst e parte integrante da sinfonia “The Planets”. Os três brilham na música, mas fica nítido que Powell foi o que mais se divertiu.

Tudo muito certo, tudo correndo bem. Só que o espírito nômade de  Powell se manifestou novamente. Por mais que trabalhasse com dois músicos excelentes, sentiu que sua criatividade estava limitada. Por outro lado, Emerson ficou incomodado com o peso adicionado por Powell ao trio. Sentia saudades dos fraseados mais complexos e inventivos de Carl Palmer.

Lake compartilhava da opinião do tecladista, mas, ao contrário, estava curtindo a nova fase e a pegada pesada do substituto de Palmer. O baixista sempre foi o mais chegadoi ao mundo pop. De cereta forma, era o menos erudito, o que não quer dizer mais fraco – muito pelo contrário.

O fato é que havia muito respeito profissional e musical entre os membros, houve profissionalismo ao extremo e a realização de um álbum muito bom e um aturnê bem-sucedida. Só que a química não era a ideal. Powell disse tempos depois que curtiu cada segundo trabalhar com os dois, mas que definitivamente o rock progressivo não era a praia dele.  A separação foi consensual e inevitável.

A carreira dos músicos desde então foi tortuosa. Emerson tentou reunir o Emerson, Lake and Palmer em 1988, já que Carl Palmer havia deixado o Asia. O problema foi Greg Lake, que já tinha se comprometido com outros projetos – e também não mostrou muito interesse em voltar.

Cartaz de um dos shows do 3 em Nova York, em 1989

 O jeito foi montar algo parecido com a parceria com Powell de dois anos antes. Para o lugar de Lake, foi convidado o multi-instrumentista norte-americano Robert Berry, em um projeto batizado de 3 (ou Three, em alguns países). Um único álbum surgiu, “The Power of the 3”, creditado na primeira prensagem, na Inglaterra, a Emerson, Berry and Palmer.

Mesmo com o fracasso completo do álbum, houve uma pequena e interessante turnê pelos Estados Unidos em 1989. Fim de turnê, fim de grupo. A reunião do trio original só ocorreria em 1992, com turnê mundial (que passou pelo Brasil) e um novo álbum, “Black Moon”.

Deu tão certo que o grupo manteve a pegada até 1998, quando nova separação ocorreu, desta vez não de forma muito amigável. Emerson reclamava na internet que Lake não se dedicava á banda e à evolução musical como ele e Palmer.

Todos retomaram suas carreiras solo, com Lake tocando com Rongo Starr em 2001 e depois paulatinamente diminuindo suas atividades. Em 2004 tocou baixo na música “Real Good Looking Boy”, a primeira música inédita do Who desde 1988.

Palmer criou a sua Carl Palmer Band e foi o cabeça da reunião da formação original do Asia em 2007 – formação que ainda está na ativa. Emerson voltou-se para o jazz e para o blues em sua carreira solo. O trio fez uma última aparição no High Voltage Festival em 2010, em Londres, quando comemorou os 40 anos de criação do trio. Os três dizem que nunca mais o ELP vai se reunir.

Já Cozy Powell manteve-se altamente produtivo após a colaboração com Lake e Emerson. Fez parte do Black Sabbath entre 1989 e 1991. Deveria fazer parte da formação da banda que resgatou Dio, a que gravaria o álbum “Dehumanizer”, lançado em 1992, mas caiu de um cavalo às vésperas da gravação e quebrou a bacia. Voltaria a tocar o grupo em 1995, mas só no álbum “Forbidden”. Na turnê, quem tocou foi Bobby Rondinelli.

Após dois anos tocando com uma nova encarnação da banda pop Fleetwood Mac, mudou radicalmente e se tornou o baterista do guitarrista sueco de heavy metal Yngwie Malmsteen, mas tocou pouco na turnê daquele ano, pois teve uma lesão séria no pé e teve de abandonar o barco.

Apaixonado por velocidade, tinha uma pequena coleção de carros esportivos e foi a bordo de um deles, um modelo Saab, que morreu na hora ao espatifá-lo em 1998 contra um guard-rail em uma estrda nos arredores de Bristol, na Inglaterra. Segundo sua namorada, ele estava ao telefone celular com ela na hora da colisão. Powell tinha 51 anos de idade.