Uma homenagem de Nuno Mindelis a Stevie Ray Vaughan

Estadão

24 de janeiro de 2011 | 08h37

Nuno Mindelis, assim como Blues Etílicos e André Christóvam, é sinônimo de blues no Brasil. Guitarrista excelente e compositor de alta qualidade, está com novo CD na praça, “Free Blues”, onde expõe a classe e o virtuosismo de sempre. Em uma colaboração especial para o Combate Rock, ele escreveu sobre a importância de Stevie Ray Vaughan, cuja morte completou 20 anos em 2010, e sua experiência de ter trabalhado com a Double Trouble – Tommy Shannon (baixo) e Chris Layton (bateria) – banda que acompanhava o genial guitarrista texano. Ao lado da banda, Mindelis gravou os CDs “Texas Bound” (1995) e “Blues on the Outside” (1999). O texto acabou não sendo aproveitado pela versão impressa do Jornal da Tarde, e por isso reproduzo na íntegra o texto, como homenagem a Stevie e ao próprio Mindelis. (MARCELO MOREIRA)

Nuno Mindelis – guitarrista de blues

Não fui influenciado por Stevie, isso acontece porque na verdade teríamos idades parecidas e a fase em que você se influencia é no berço, na fase de aprendizado, em tenra idade. Não depois. Ouvimos as mesmas coisas, fomos influenciados pelos mesmos mestres, é mais correto dizer.

Quando ouvi SRV a primeira vez, (nos anos 80, lembrando que toco desde os 60) pude notar imediatamente influência nele de Albert King e Jimi Hendrix. E, embora quase ninguém saiba, de Lonnie Mack. Há registros de SRV que são literalmente, sem tirar nem por, frases completas de gravações antigas de Lonnie Mack.

Ora, esses caras eram parte do que eu ouvia ainda em Luanda, entre os 13 e os 15 anos de idade (o Stevie deveria ter na mesma época entre 18 e 20, ou talvez um pouquinho mais). (NOTA DO EDITOR: Stevie nasceu em Austin, no Texas, em 1954; Mindelis em Cabinda, Angola, em 1957)

Na Double Trouble o meu herói na verdade era o Tommy Shannon. Ele era o baixista de Johnny Winter – que está para um cara da minha idade o que SRV está para um jovem dos anos 90 e que eu ouvia nessa mesma idade, entre 13 e 15 anos, portanto há mais de quarenta anos .

Tommy tocou com Johnny em Woodstock , e o baterista era Uncle Jon Turner, que se tornou um grande amigo e infelizmente morreu há dois anos, aos 61 . Fiz vários tours com Uncle na bateria , na Europa, no Brasil e nos EUA. Era um gurú inestimável. Aprendi toneladas com ele. Sinto muito a sua falta.

Uncle John demitiu Stevie Ray Vaughan de uma banda que ele tinha fundado, ríamos bastante disso quando nos encontrávamos. O baterista que demitiu SRV queria alguém que tocasse mais agressivamente como Johnny Winter (de quem, repito , tinha sido o principal baterista ) ou Hendrix.

Na época, Stevie não tinha ainda aquele fraseado apimentado, agressivo, fortíssimo. Tocava mais como o irmão, Jimmy Vaugahn. E Uncle queria “sangue”. Só depois SRV veio a tornar-se sanguinário (na linguagem) e Uncle John dizia sempre quando o gozavamos: ele veio a ser o que eu queria que ele fosse na época em que o demiti, ele não era assim” !

Geralmente o sarro vinha sempre em situações estressantes de turnê quando tocamos juntos, dormindo mal, comendo mal, etc. A gente começava: “Se você não tivesse demitido o SRV estaria comendo caviar agora , cabeção, e dormindo num 5 estrelas !”

Outro que demitiu SRV foi Freddie Walden (que morreu há uns anos atrás). Foi um baterista que tocou com todo o mundo e foi um dos fundadores dos Fabulous Thunderbirds, com Jimmy Vaughan. Também tiravamos bastante sarro dele por causa disso. Quando demitiu SRV da banda , mandou avisar que o fazia porque ele era muito novo . Mais tarde Freddie foi pedir emprego para o Stevie, já famoso. E Stevie mandou dizer que não, porque ele era muito velho para a banda.

Quando fui gravar com a Double Trouble pela primeira vez, ensaiamos algumas horas no estúdio que era do SRV em Austin, e que é do Jimmy Vaughan agora. Reconheci o lugar de alguma forma, mas não sabia de onde exatamente. O produtor me avisou, este lugar é uma capa de um dos discos de SRV. Nâo poderia estar em um lugar melhor.

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