Uma conversa com Karl Bartos, do Kraftwerk

Estadão

08 de junho de 2013 | 16h30

Fabrício Carvalho – do blog Astronauta Pinguim

Karl Bartos (foto: Katja Ruge)

Karl Bartos nasceu em Berchtesgaden (uma pequena cidade nas álpes da Bavária, sul da Alemanha) no dia 31 de maio de 1952. Frequentou o Conservatório Estadual de Música da Renânia e também o Instituto Robert Schumann, na cidade de Düsseldorf. Em 1975, um dos professores de Karl disse que ele havia recebido um telefonema de um homem procurando por um percussionista, com formação erudita. Karl retornou o telefonema. O homem no outro lado da linha era Florian Schneider e logo Karl estava dentro do famoso Kling Klang Studio, com seu vibrafone. Em pouco tempo, Karl Bartos passou a ser um dos quatro membros da formação clássica do Kraftwerk!

Entre 1975 e 1990 Karl gravou cinco álbuns com o Kraftwerk – Radio Activity (75), Trans-Europe Express (77), The Man Machine (78), Computer World (81) Electric Cafe (86) – e, com o quarteto, formatou a base de quase todos os gêneros musicais que surgiram nas décadas seguintes, da disco music ao hip-hop, do synthpop ao electro-rock, do techno-pop à house music e da dance music de volta ao minimalismo, gêneros extremamente populares hoje em dia. Esses quatro rapazes de Düsseldorf – sim, eu me atrevo a compará-los aos outros quatro garotos de Liverpool, até porque o Kraftwerk é para mim o equivalente ao que os Beatles são para as outras pessoas – mudaram milhões de mentes e apresentaram ao mundo um novo tipo de música e estética. E tudo isto com um grande senso de humor! Mais do que os robôs que eles afirmavam ser em uma cançãochamada “Die Roboter”, os quatro rapazes alemães são seres humanos reais, com um senso de humor ótimo e muito específico (mesmo que, por muitas vezes, bastante pessoal e esquisito).
Karl Bartos (foto: Katja Ruge)

Todos estes elementos – que já existiam na música de Karl durante seus anos Kraftwerk – estão também presentes na sua carreira solo. Melhor, ele ainda acrescentou um grande senso de música pop e um grande senso de modernidade à sua obra. Longe do Kraftwerk desde 1990, sua carreira solo é agora mais extensa (cronológicamente falando) do que os dias em que ele foi membro da banda. Desde 1993, Karl lançou quatro álbuns solo, utilizando o seu nome ou o codinome Elektric Music: Esperanto (1993), Electric Music (1998), Communication (2003) e Off the Record (2013), além de muitas colaborações com outros artistas.

O novo álbum de Karl, “Off The Record”, foi lançado no dia 15 de março de 2013. Ele contém músicas compostas e/ou originalmente idealizadas entre 1975 e 1993. Karl pegou estas idéias e deu vida às 12 faixas que compõem o novo trabalho, utilizando seus sintetizadores analógicos e originais de época. A primeira faixa, “Automium” – lançada um mês antes de “Off The Record” – já mostrava exatamente o que o álbum todo significa: Karl Bartos fazendo o que melhor sabe fazer. É interessante ouvir o álbum, pelo menos uma vez, sem pensar em Karl Bartos como um ex-membro do Kraftwerk. Talvez esta seja a melhor maneira de conceber que a música criada por este homem não depende do fato de ele ter sido um Kraftwerk. Mas mesmo quando você ouvir o álbum pensando em Karl como um membro do Kraftwerk, também vai notar que algumas das maiores canções da banda tinham (ou eram) idéias do Karl!
Entrei em contato com a Bettina Michael (manager do Karl Bartos) pela primeira vez há alguns meses, para pedir informações sobre o novo disco que Karl estava gravando. Algum tempo depois, eu perguntei a ela se Karl teria interesse em ser entrevistado para o meu blog. Para minha surpresa, ele não só tinha interesse, como também eu poderia fazer a entrevista via Skype. Via Skype! E falei com um dos meus super-heróis mais queridos pelo Skype! A entrevista foi feita em uma segunda-feira, dia 22 abril de 2013, 1:00 da tarde aqui no Brasil / 6:00 da tarde lá em Hamburgo, onde Karl reside hoje em dia. Feliz com a possibilidade e sabendo que tudo o que eu estava pensando em perguntar já deveria ter sido respondido por Karl um milhão de vezes antes (e graças aos dias de hoje, podemos encontrar facilmente várias entrevistas dele na internet) eu me reservei a perguntar algumas coisas que eu realmente gostaria de saber. Mas, mais importante do que isso, eu tive a oportunidade de verificar que um dos super-heróis da minha infância e adolescência também teve seus próprios heróis (Beatles e Rolling Stones) e é uma pessoa muito agradável e gentil! Com uma voz muito calma, Karl Bartos me concedeu a seguinte entrevista:

Karl Bartos (foto: Markus Wustmann)

ASTRONAUTA – Olá Karl, como vai? Eu fiquei surpreso quando a Bettina me disse que haveria a possibilidade de fazermos esta entrevista pelo Skype, até porque você é um dos meus super-heróis.

KARL – Oh, que isso… E ai, o que posso fazer por você, o que você gostaria de saber?

ASTRONAUTA – Gostaria de fazer-lhe algumas perguntas sobre seu novo disco – “Off The Record” – e também sobre sua carreira. Primeiramente, quais são suas memórias musicais mais antigas e quando você passou a se interessar por música? O que você costumava ouvir na sua infância e adolescência?

KARL – Quando eu era um garotinho, mais ou menos aos 10 ou 12 anos de idade, minha irmã se apaixonou por um soldado inglês chamado Peter. Peter passou a frequentar nossa casa e trazia alguns dos primeiros discos lançados na Inglaterra. Na verdade o primeiro que ele trouxe foi o “A hard day’s night”, dos Beatles e também um LP dos Rolling Stones, chamado “Aftermath”. Eu tinha um velho toca-discos com um alto-falante acoplado, você sabe… como se chama mesmo? Acoplado na tampa… Tinha este alto-falante e reproduzia em mono. Eu passei a ouvir estes dois discos diariamente, por semanas, por meses. “A hard day’s night” dos Beatles e “Aftermath”, dos Rolling Stones. E olhando para trás, não foi má escolha.

Astronauta – E quando você se interessou pela música eletrônica?

KARL – Foi durante meus estudos na faculdade de música. Eu tive contato com o trabalho do Karlheinz Stockhausen. Eu estudava percussão e todo o percussionista tinha que tocar “Zyklus”, peça do Karlheinz Stockhausen para percussão. Mas naquela época, durante os ensaios desta peça, eu conheci seus primeiros estudos de música eletrônica, que se chamavam “Étudie”, Studie Eins”, “Studie Zwei”. Estes foram os primeiros trabalhos de música eletrônica realizados por Karlheinz Stockhausen. Eu devia ter entre 20 e 21 anos de idade. Mais tarde, quando eu recebi o famoso telefonema daquela banda chamada Kraftwerk e eles me apresentaram o seu estúdio – o Kling Klang Studios – eu já conhecia música eletrônica anteriormente.

Karl Bartos (foto: Katja Ruge)

ASTRONAUTA – Ok! Bem, você está lançando “Off The Record”, com músicas que você escreveu (ou pelo menos teve a idéia original) entre 1975 e 1993, é isto? Você utilizou algo que você havia gravado anteriormente ou você regravou todos os instrumentos?

KARL – Bom, existem alguns poucos sons que na verdade sobreviveram entre as músicas que escolhi, como na canção chamda “Instant Bayreuth”. No final de “Instant Bayreuth” existe um drone, um ruído muito sujo, que na verdade foi gravado com o Polymoog. Então, este som é um dos originais. Outro exemplo é a música chamada “Vox Humana”, existem ali alguns sons que eu havia gravado anteriormente. Somente alguns poucos. Basicamente eu utilizei instrumentos antigos, em novas gravações.

ASTRONAUTA – Esta era uma das questões que eu queria muito lhe perguntar! Você menciona, no livreto que acompanha o álbum “Off The record”, um piano Fender Rhodes, que você adquiriu em 1977. Você aínda possui este piano?

KARL – Não, eu não o tenho mais.

ASTRONAUTA – E quais são os instrumentos analógicos e vintage que você tem? Eu acho que você tem um Polymoog, você mencionou isso em algum momento.KARL – Isso, um Polymoog, dois Minimoogs, um ARP Odyssey, Korg MS-20. Vários. Só para mencionar alguns.ASTRONAUTA – Eu perguntei-lhe sobre isso porque eu também coleciono sintetizadores e teclados vintage, eu também tenho um Polymoog, um Minimoog, todas estas coisas. E este é um assunto que me interessa muito.
KARL – Sim!
ASTRONAUTA – Em 2000 você lançou um single chamado “15 Minutes of Fame” e no seu álbum Communication (2003) há uma canção chamada “Ultraviolet”. Não sei se é coincidência, mas Ultraviolet também era o apelido da modelo Isabelle Colling Dufreste (uma das superstars do Andy Warhol). E você escreveu uma canção sobre ela no seu novo álbum, sobre Isabelle. Eu gostaria de saber se você vê o trabalho do Andy Warhol como uma influência para o seu trabalho, você o tem como uma influência?

Karl Bartos (foto: Katja Ruge)

KARL – Bem, eu acho que ele foi um dos maiores artistas dos anos 60 e 70 e todo o artista pop naquela época, músicos, foram influenciados por Andy Warhol, porque era tão óbvio o que ele fazia. Ele é um dos mentores do pop, do pop visualmente falando. E eu me lembro de uma entrevista, ele dizendo: “quando vou ao centro da cidade e vejo todos aqueles anúncios gigantes, posters e sinais luminosos nas paredes, eles todos parecem com arte contemporânea para mim. Então eu apenas pego minha Polaroid, faço uma fotografia e isso, por si só, já é uma peça de arte”. Então ele realmente estava seguindo os passos do Dadaísmo, da arte Dada. Para ele, tudo estava pronto. E a maneira que ele pegava fotografias dos jornais e aumentava em proporções gigantescas até que você pudesse ver somente os pontos da imagem. Então, isso na verdade me lembra um pouco o que tem sido feito na música eletrônica. Eu sempre me refiro ao som, sempre me refiro ao meu som como “pictographic sound”, porque se você ver somente a superfície, se você olhar e ver somente a superfície, é informação muito pura.

Mas há uma outro nível que eu acho importante para pensarmos sobre Andy Warhol: ele tinha a sua Factory. Você sabe, o loft?ASTRONAUTA – Sim, o loft do Andy Warhol.KARL – Isto! Se chamava The Factory e a atmosfera de lá sempre me lembrou um pouco a que tínhamos no Kling Klang Studio, porque sempre havia artistas entrando e saindo da Factory e deixando uma certa atmosfera. E isto se aplicava exatamente ao Kling Klang Studio, naquele período. Eu cheguei lá em 1975 e Andy Warhol já era um artista muito reconhecido naquela época, então eu lembro de irmos à estação de trêm para comprar a Andy Warhol’s Interview, você conhece? A revista? Eu não o apreciava muito como pessoa, devo dizer. Ele parecia ser muito muito muito estranho, mas como artista ele tinha uma ótima antena para captar toda a vibração do período.
ASTRONAUTA – Ok, Karl. É isto! Uma última pergunta que eu gostaria de lhe fazer é sobre suas memórias de quando você veio ao Brasil, em 2008 eu acho… Não, eu não acho nada, eu tenho certeza porque você tocou em Porto Alegre – é perto da cidade onde eu nasci – no dia do meu aniversário, 11 de outubro. Então eu gostaria de saber quais suas memórias sobre aqueles shows no Brasil em 2008…KARL – Devo dizer que eu misturo todas as memórias que tenho sobre os 4 shows aí. Mas eu me lembro, deve ter sido em Porto Alegre, no dia que chegamos havia uma enchente ou algo assim e eles tiveram que trocar o local do show.ASTRONAUTA – Ok, eu me lembro disto. E sim, foi em Porto Alegre.KARL – Então, tudo foi feito de forma muito muito improvisada, foi realmente estranho. Todos estavam – eu acho – envolvidos. E o equipamento ficou pronto somente alguns minutos antes do horário de começarmos a tocar. Tudo ficou para o último minuto, mas ninguém parecia estar muito preocupado com isto no Brasil. É bem diferente de quando você faz um show na Europa.ASTRONAUTA – Ok! Bom, Karl, muito obrigado! Foi um prazer imenso falar com você. Como eu disse no início da entrevista, você é um dos meus super-heróis, é surpreendente estar em contato com você e ter esta oportunidade de entrevistá-lo.KARL – Sem problemas, eu adoro o Skype. Skype é legal. Ele cria um nível pessoal na conversa, você vê o rosto do seu interlocutor e é muito mais legal do que falar ao telefone. Desejo tudo de bom ao Brasil e espero encontrá-lo aí em breve!

ASTRONAUTA – Espero encontrá-lo também pessoalmente aqui no Brasil em breve!

KARL – Ok! Até logo!

ASTRONAUTA – Até logo!

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