Uma bela análise da obra de James Brown

Estadão

30 de junho de 2012 | 22h27

Gabriel Vituri  – ESPECIAL PARA O ESTADO DE S. PAULO

De calça justa, topete engomado e paletó bem cortado, James Joseph Brown ocupa a frente do palco. Seus sapatos, lustrosos, se movimentam com velocidade e leveza, deslizando de norte a sul, em um ritmo pouco convencional. Subitamente, o rapaz negro de um metro e sessenta e oito vai ao chão de joelhos, como em uma súplica, e grita. Amparado por colegas, levanta-se de pouco em pouco e continua a encenação que se tornou marca eterna de sua performance em Please, Please, Please.

“Não era apenas uma atração, era agora um show”, escreve R.J. Smith no livro James Brown – Sua Vida, Sua Música, lançado recentemente no Brasil e já considerado a obra mais completa sobre o cantor norte-americano.

A enérgica interpretação, realizada em diversas casas de shows pelo mundo (incluindo aí o histórico teatro no Harlem, bairro negro de Nova York, que rendeu a Brown e sua banda o álbum Live at the Apollo, lançado em 1963), é apenas uma das facetas do artista, contada agora em detalhes pelo jornalista norte-americano.

Fruto de vários anos de trabalho intenso – “peguei pneumonia duas vezes e perdi meu emprego”, Smith conta ao final da obra –, a biografia é um registro cheio de uma vida que poderia ter sido dividida em uma par de outras.

A partir de pesquisas em incontáveis acervos e bibliotecas, entrevistas com personagens essenciais (como Bruce Tucker, coautor da autobiografia lançada por Brown em 1986, James Brown: The Godfather of Soul) e empreitadas nos lugares por onde o Chefão do Soul passou, R.J. Smith constrói uma narrativa clara e objetiva, mas que se prende aos detalhes como nenhuma outra obra.

“Tive dificuldade para selecionar todas as histórias impressionantes que me contaram sobre ele. Se você encontrasse James Brown apenas uma vez, após um show ou na barbearia, algo inacreditável certamente iria acontecer”, diz o escritor, por e-mail, ao Estado.

James Brown perturbava a ordem em todos os sentidos: preso diversas vezes durante a vida – a primeira aos 16 anos, por furto, e a última em 2004, acusado de agredir Tomi Rae Hynie, mãe de um de seus filhos –, o artista vivia em um ciclo de perdas e ganhos: dinheiro, prestígio e amantes.

 “Ele nunca estava sem mulher. Com toda certeza, dizem as pessoas que viajaram com Brown, ele não dormiu sozinho uma única vez”, escreve o autor, que também relata os vários casos de violência doméstica pelos quais Brown foi acusado.

A aura que o envolvia tomou forma ainda nos tempos de escola, quando já dominava os espaços onde sua cantoria podia ser ouvida. Por outro lado, uma fagulha era capaz de transformar a magia em fúria de uma hora pra outra.

 “Brown assustava as pessoas, intimidava-as e, conversando com aqueles que o conheceram, tive a impressão de que agiam como se pudesse estar escondido na sala, pronto para gritar e reclamar que eles estavam contando a história errada, sempre disposto a causar problemas”, diz Smith. Sedutor, rígido, temperamental, agressivo ou generoso, James Brown precisava – e queria muito – ser visto.

Nascido em 1933 e criado em Augusta, condado da Geórgia que faz divisa com a Carolina do Sul, e de onde nunca arredou o pé, James Brown foi abandonado pela mãe quando criança e teve um pai ausente e agressivo.

Na adolescência, foi criado por uma tia (dona de um bordel na região) e, uma vez solto pelas ruas, descobriu o mundo das navalhas e dos furtos. Quando saiu da prisão, “era seu próprio pai”, como relata R.J. Smith; foi nesse tempo também que conheceu parte dos companheiros que formariam a The Famous Flames, banda que alavancou sua carreira solo.
O Cara que Mais Trabalha no Show Business, como ele ficou conhecido, justificava o posto: seus 350 shows/ano, vários por noite, e turnês infindáveis eram a prova definitiva de que Brown tinha sempre algo a dizer.

O jornalista de Los Angeles resume: “James Brown reinventou os grupos vocais e o R&B nos anos 50. Depois, na década de 1960, ele não inventou a soul music, mas era seu representante, trazendo o sagrado e o profano juntos como ninguém. Em 1970, criou o funk praticamente sozinho e, depois, a partir das décadas de 80 e 90, ficou claro quão importante ele foi para a criação do hip-hop”.

Brown, como todos os outros negros de seu tempo, viveu acossado pela discriminação racial que predominava entre os sulistas norte-americanos. Em abril de 1968, o pastor Martin Luther King, Jr, um dos líderes na luta pelos direitos civis dos afro-americanos, foi assassinado em Memphis, Tennessee.

No dia seguinte ao crime, apesar da violência que se espalhou pelo país inteiro, James Brown fez um show televisionado em Boston e, meses depois, lançou Say It Loud – I’m Black and I’m Proud – o episódio foi esmiuçado no livro O Dia em que James Brown Salvou a Pátria, lançado em 2010.

Morto no dia de Natal, em 2006, por conta de uma pneumonia agravada, James Brown contou por diversas vezes o episódio de seu nascimento e os problemas acontecidos durante o parto, alegando ter sido um bebê natimorto. “Uma coisa boa do fato de você acreditar que nasceu morto é que acaba sentindo que nada pode matá-lo. Essa crença ajudou Brown a se manter vivo”, defende R.J. Smith. No caso de Mister Dynamite, dá pra dizer que faz sentido.

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