Um verdadeiro concerto nas cordas de Jeff Beck em São Paulo

Estadão

02 de dezembro de 2010 | 08h31

Jotabê Medeiros

Segundos antes do show, o telão exibiu sua última imagem: um comunicado curto dizendo que, a pedido do artista, não seriam utilizados os telões. Seria apenas o homem e a sua guitarra.

Jeff Beck, uma testemunha ocular da História do Rock, queria mostrar que o essencial ainda existe. De fato, não precisava de mais nada, nem o telão nem fogos de artifício seriam necessários. E o que poderia ser chato e tecnocrático tornou-se leve, suave, desceu fácil, caiu macio neste 25 de novembro no Via Funchal, em São Paulo.

Jeff Beck é uma espécie de João Gilberto da guitarra, só que um João Gilberto do Planeta Ultrassônico. Os acordes são precisos, ele é preciosista nos riffs e na ocupação dos espaços vazios da música. Incluiu logo no início do show a canção “Corpus Christi Carol”, pièce de resistence romântica (no sentido clássico) gravada por Jeff Buckley, trágico cantor de vida muito curta.

Depois, reinventou dois standards, “People Get Ready” (de Curtis Mayfield) e “Somewhere Over the Rainbow”. Nada é por acaso: Jeff Beck parece perseguir os lugares aonde a voz humana chegou mais perto do sentimento, e ambiciona reproduzir o encontro em sua guitarra. Por vezes, sua tentativa parece ingênua, resvala na ambiente ou muzak.

Jeff Beck soberbo e indo além do blues e do rock (FOTO: STEPHAN SOLON/DIVULGAÇÃO)

A baixista de Jeff Beck, Rhonda Smith, ensandeceu a plateia. É melhor que a baixista anterior de Jeff, Tal Wilkinfeld. Pequena, elétrica, coube a ela dar o sentido funk que o show tomou desde o início, com pausas aqui e ali da pulsação frenética do gênero.

“Essa é Rhonda Smith, e ela é funky”, disse o cantor Prince, certa vez, ao apresentar a instrumentista. Não há jeito melhor de defini-la. Rhonda também fez scats e cantou alguns versos no show de Jeff Beck.

Jeff entrou em cena por volta das 22h15, e o Via Funchal não estava lotado. Havia um cercadinho VIP na frente do palco, este sim cheio. O guitarrista não falou muito, não é adepto da demagogia. Logo atacou Plan B, canção de 2003, do disco Jeff, e que lhe valeu seu quarto Grammy.

“Estive recentemente no festival Crossroads, mas todo mundo lá continua tocando apenas blues”, disse Jeff Beck durante conversa telefônica com o Estado de S. Paulo.

Parece uma queixa, e é. Na verdade, Jeff – um dos pioneiros do blues rock inglês, com o Jeff Beck Group e os Yardbirds – foi muito pichado por aventurar-se em outras plagas, por flertar com o jazz fusion, o funk e a música erudita (nem sempre com resultados admiráveis). Mas nunca deixou abalarem sua decisão de não ficar lustrando o passado.

O guitarrista mostrou técnica e versatilidade no show de são Paulo (FOTO: STEPHAN SOLON/DIVULGAÇÃO)

É por isso que, quando Jeff encarou Rollin’ and Tumblin’, de Muddy Waters, o resultado foi digno de nota. Versão explosiva, de improvisação contínua, A voz só é utilizada, na música de Jeff Beck, em um contexto instrumental. O tecladista Jason Rebello (cujo primeiro disco, aos 21 anos, foi produzido por ninguém menos que Wayne Shorter) usa um vocoder para modificar os versos que mistura à jam.

A banda, já dá para saber de cara, é excepcional. Jeff não quer saber de quebra-galhos. O baterista é Narada Michael Walden, que ganhou três Grammys e tocou com Santana, Mahavishnu Orchestra e Weather Report.

Jeff toca “A Day in the Life” (Beatles) e “Nessum Dorma” (ária da ópera Turandot, de Puccini) com a mesma disposição, a de submeter as visões humanas à vibração elétrica de sua Stratocaster. Seus gestos, a mão para o alto, o sorriso interiorizado e cheio de sulcos ficam marcados na noite. É como se Hendrix tivesse passado por aqui.

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