Um Stevie Ray Vaughan incendiário emerge em novo lançamento ao vivo

Estadão

21 de novembro de 2012 | 07h00

Marcelo Moreira

“Stevie era um cara tímido, mas muito bacana. Era difícil encontrar alguém que não gostasse dele. Falava pouco, preferia se comunicar por meio da guitarra. Não há forma mais elegante e eficiente para um cara como ele.” As palavras são de Jimmie Vaughan, irmão mais velho do mestre Stevie Ray, e endossadas por Eric Clapton. Ele comentava para a Guitar Player norte-americana nos anos 90 o legado deixado precocemente pelo guitarrista texano morto em agosto de 1990.

Stevie Ray Vaughan era tido como um gênio do instrumento que agregava e aglutinava. Todo mundo queria tocar com ele. Santana, Buddy Guy, B.B. King, Albert King, Eric Clapton, Steve Lukather, Jeff Beck, Johnny Winter e mais uma infinidade de artistas de primeira linha tiveram o privilégio de dividir o palco ou o estúdio com o guitarrista, que adorava essas jams.

Um dos melhores encontros envolveu Stevie com Jeff Beck em 1989. Os dois gigantes haviam tocado juntos cinco anos antes em Honolulu, no Havaí. Stevie Ray fazia um show incendiário e recebeu Beck no palco com fúria nos olhos e nos dedos.

Em 1989, os dois voltariam a se cruzar pelos Estados Unidos, ambos em turnês solo. As datas entre os giros coincidiram algumas vezes e resolveram unir-se em 34 datas no segundo semestre daquele ano, quando se revezaram como atração principal.

Uma coletânea em LP e CD foi lançada na época celebrando a parceria, como forma de promoção da turnê, com músicas dos dois guitarristas, mas com gravações individuais e em estúdio, com tiragem limitada. Acabou se tornando um álbum muito pirateado nos anos 90 e recebeu o nome de “The Fire Meets the Fury”.

Para alegria de quem gosta de boa música, “The Fire Meets the Fury – The Radio Broadcasts” finalmente chega ao mercado, mas nada tem a ver com o lançamento promocional, mas vem pela metade, infelizmente. Resgata parte dos dois últimos shows da turnê com Beck. É um deleite para os amantes da guitarra.

Os registros ao vivo deste trabalho são do dia 28 de novembro, quando houve uma jam em Albuquerque, em Novo México, do dia seguinte, em Denver.

Inexplicavelmente, este álbum não traz nenhuma música com os dois duelando em jams maravilhosas. O encarte não esclarece o motivo de não haver a gravação com os dois juntos.

Sites europeus dão conta, de forma especulativa, de que Jeff Beck não teria autorizado a edição com a sua participação, mas ninguém confirma essa hipótese. O único registro oficial com Stevie e Beck tocando no mesmo palco é a versão de “Going Down”, clássico do blues, que consta da caixa “The Box Set”, de Stevie, extraída do final do show de Denver.

Stevie Ray Vaughan

Apesar disso, é um prazer ouvir as primeiras gravações ao vivo oficiais de Stevie Ray Vaughan no ano de 1989, o de sua recuperação das drogas e do alcoolismo. O guitarrista estava voando, de bem com a vida e incendiando ainda mais suas músicas, que estavam sendo tocadas com mais vigor e energia.

A turnê se estenderia até setembro de 1990, incluindo uma visita ao Brasil naquele mês para participar de um festival de blues em Ribeirão Preto (SP). Não deu tempo: ele morreu na noite de 27 de agosto em um acidente helicóptero em Wisconsin (Estados Unidos), após um show que contou com Robert Cray, Jimmie Vaughan e Eric Clapton. Parte da equipe técnica de Clapton estava no mesmo helicóptero. Ninguém sobreviveu.

“The Fire Meets the Fury” é essencial para quem gosta de guitarra bem tocada e inovadora em um gênero pouco inventivo nos últimos 25 anos, como o blues. “The House is Rocking”, “Tightrope”, “Crossfire”, “Voodoo Chile” e “Texas Flood” são exemplos fantásticos da fase ótima que o guitarrista vivia. Por enquanto só existe a edição norte-americana, que pode ser encontrada na loja virtual Amazon.com.

Tudo o que sabemos sobre:

Stevie Ray Vaughan

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.